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Ágora Digital
Polarização não é entre esquerda e direita, mas entre democracia e autoritarismo
Publicado em 05/06/2025 11:31 - Victor Barone
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A polarização política que tem dividido o Brasil há mais de uma década é real — mas não exatamente como costuma ser retratada. Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, o país vive uma cisão mais profunda: entre os que respeitam as regras da democracia e os que estão dispostos a corroê-las. Com Lula e Bolsonaro rejeitados por ampla maioria da população, as pesquisas indicam um desejo de renovação. Porém, também revelam que os herdeiros da extrema direita seguem em vantagem, mantendo vivo o espírito do bolsonarismo e suas ameaças às instituições democráticas.
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A leitura apressada dos dados na mais recente pesquisa Quaest pode sugerir que o país está dividido em uma polarização entre o PT e o bolsonarismo. Mas uma análise mais atenta revela que a verdadeira clivagem — a mais preocupante e estrutural — não é ideológica, mas democrática. Hoje, a principal linha divisória da política nacional separa os que defendem o Estado de Direito, as instituições e os valores republicanos, dos que operam com base na lógica do confronto, da desinformação e do autoritarismo: a extrema-direita apoiada pelo extremismo de centro (aqueles que se valem do bolsonarismo como garantia de votos).
Mesmo fora da disputa, Bolsonaro permanece como figura central da política brasileira. Sua inelegibilidade, declarada pelo TSE em 2023 após ser condenado por abuso de poder político e uso indevido da máquina estatal, não bastou para desmobilizar o projeto político que ele representa. Pelo contrário: seus principais aliados hoje aparecem em empate técnico com Lula em cenários de segundo turno, revelando que o bolsonarismo como fenômeno sociopolítico não depende mais exclusivamente de seu fundador.
Michelle Bolsonaro, sua esposa, lidera com 44% entre os eleitores bolsonaristas que desejam vê-la candidata. Seu discurso moralista, a vinculação com pautas religiosas e a ausência de desgaste direto na gestão do marido a tornam uma herdeira legítima. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e nome mais forte entre os conservadores não bolsonaristas, também se move em sincronia com os princípios do bolsonarismo, ainda que com verniz técnico e fala moderada.
A verdade é que todos os nomes da direita — Michelle, Tarcísio, Ratinho Jr., Zema, Eduardo Leite — seguem beijando a mão de Bolsonaro. Nenhum deles rompeu com o legado autoritário que inclui flertes com o golpismo, ataques à imprensa, descrédito ao sistema eleitoral e desmonte de políticas públicas. Ao contrário, todos sinalizam disposição para reproduzir o que a extrema direita brasileira tem de mais tóxica, caso isso lhes traga dividendos eleitorais.
A insistência em enquadrar o cenário político como uma disputa binária entre “esquerda e direita” já não explica a complexidade do momento atual. O que está em jogo, como alerta o filósofo Jurgen Habermas, é a própria ideia de modernidade política: “a democracia depende de um ethos de reconhecimento mútuo, sem o qual o dissenso se transforma em inimizade”.
No Brasil, o dissenso legítimo tem sido corrompido pela lógica da desinformação, da retórica do ódio e da construção de inimigos internos. O bolsonarismo, mesmo em sua versão “higienizada” por novos candidatos, continua operando com os mesmos mecanismos que colocaram a democracia brasileira à beira do abismo em 8 de janeiro de 2023.
Do outro lado, Lula enfrenta uma crise distinta, mas igualmente grave: a perda de apoio entre os mais pobres, sua base histórica. A desaprovação entre os que ganham até dois salários mínimos disparou de 26% para 49% em menos de um ano. A aprovação caiu de 69% para 50%, evidenciando a frustração com a dificuldade do governo em entregar melhorias concretas no cotidiano da população.
A inflação de alimentos, a insegurança urbana e a percepção de distanciamento do governo em relação aos problemas reais das periferias contribuíram para esse cenário. Embora o Planalto insista em indicadores econômicos positivos, como o crescimento do PIB, a ausência de percepção de melhora entre os mais pobres mina o capital simbólico do lulismo.
A situação é tão grave que apenas 5% dos entrevistados citaram programas sociais como boas notícias da gestão Lula, enquanto 51% afirmam não ter ouvido absolutamente nada de positivo.
É nesse contexto que a eleição de 2026 se anuncia como uma disputa não apenas por poder, mas por modelo de sociedade. Com Lula enfrentando rejeição crescente e Bolsonaro fora da disputa formal, os holofotes se voltam para os herdeiros políticos e para um eleitorado que busca novos caminhos — mas pode ser seduzido por soluções autoritárias embaladas em discursos de “ordem” e “renovação”.
O cientista político Steven Levitsky, em seu estudo clássico Como as Democracias Morrem, adverte: “Muitas vezes, os democratas elegem seus próprios coveiros. A erosão democrática começa em urnas aparentemente legítimas” (Como as Democracias Morrem, Zahar, 2018). A frase soa como um aviso claro ao Brasil de 2025.
A polarização que se desenha para 2026 não é entre partidos, ideologias ou perfis. É uma polarização entre quem aceita o jogo democrático e quem quer sabotá-lo quando perde. Entre quem valoriza a Constituição e quem vê as instituições como obstáculos descartáveis. Entre quem defende um país plural e inclusivo e quem quer um Brasil subordinado a uma teocracia armada.
Renovar a política, portanto, não significa apenas trocar nomes. Significa redefinir os termos do debate público. Enquanto o bolsonarismo se organiza para se perpetuar sem Bolsonaro, a democracia brasileira segue vulnerável — à espera de quem a defenda com coragem, projeto e compromisso real com o bem comum.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
https://semanaon.com.br/coluna/liberdade-para-quem/
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