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Ponte Aérea
Como a Meta e Musk colocam a democracia em risco
Publicado em 27/01/2025 2:47 - Raphael Tsavkko Garcia
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O recente anúncio da Meta de promover mudanças profundas em suas políticas de conteúdo e verificação de fatos é alarmante e levanta questões críticas sobre o futuro da regulação da informação.
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Em uma era marcada pela desinformação e polarização política, críticos como o escritor Michael Harriot afirmam que Mark Zuckerberg “não apenas anunciou mudanças na política de moderação de conteúdo da Meta. Ele sequer anunciou que a política de conteúdo da Meta vai mudar. Ele anunciou que sua empresa está disposta a ajudar a matar pessoas”.
Mas a decisão não é meramente ideológica; ela também é sobre negócios. Embora a ideologia desempenhe um papel, a motivação central é proteger um modelo de negócios que prospera com fake news e ódio. O ódio vende—ou, mais precisamente, a reação a ele vende. É a indignação que gera engajamento. Além disso, figuras da extrema direita geralmente estão mais dispostas a defender a “liberdade de expressão” quando se trata de discursos de ódio, o que, por sua vez, alivia a carga das plataformas de mídias sociais em moderar o conteúdo—economizando dinheiro.
A verificação de fatos, de maneira geral, tem se mostrado cada vez mais ineficaz. As pessoas não mudam suas crenças quando confrontadas com correções factuais. Pelo contrário, tendem a reforçar suas opiniões pré-existentes. Isso significa que a verificação de fatos, embora longe de ser censura, pode, inadvertidamente, fortalecer crenças falsas ao invés de dissipá-las, pois as pessoas não buscam realmente a verdade, tornando-se mais propensas a desconfiar da mídia e aprofundar seu apego a conspirações.
Para proteger seu modelo de negócios, a Meta e a X, de Elon Musk, alinharam-se com a extrema direita—tentando se distanciar das pressões regulatórias da União Europeia (UE) e de outras nações. Estão priorizando um modelo de negócios em detrimento da integridade da informação e da democracia.
A liberdade de expressão irrestrita é um conceito que só existe nos Estados Unidos, e não em outras partes do mundo—entrando em conflito com legislações locais em outros países. Se a democracia é ruim para os negócios, então que se acabe com a democracia—o que vai muito além da vontade da maioria ou de simplesmente deixar todos falarem como se todas as ideias tivessem direitos iguais.
Essa também é a razão pela qual um juiz do Supremo Tribunal Federal do Brasil ordenou a suspensão da X por meses no ano passado, depois que Elon Musk se recusou a cumprir ordens de suspender perfis que espalhavam ódio e ameaçavam a democracia do país. A questão não era liberdade de expressão, mas o respeito à lei brasileira.
As mudanças recentes da Meta coincidem com uma tendência mais ampla entre plataformas de mídia social de atender a sentimentos populistas de direita. Esse alinhamento serve a dois propósitos—reforça o engajamento dos usuários, apelando para um público específico, ao mesmo tempo que protege os interesses comerciais dessas empresas contra o escrutínio regulatório. A parceria com a administração Trump não é surpresa, já que Musk, Zuckerberg e outros podem afirmar defender a liberdade de expressão enquanto, na verdade, protegem seus negócios.
As implicações desse alinhamento vão além das fronteiras dos EUA. Países como o Brasil já tomaram medidas para regulamentar plataformas como a X, demonstrando que os governos podem (e devem) intervir quando as redes sociais se tornam um terreno fértil para o extremismo. A UE deve agora considerar ações semelhantes contra a Meta para salvaguardar o discurso público e prevenir a disseminação de desinformação prejudicial.
É imperativo que os reguladores explorem alternativas aos métodos tradicionais de verificação de fatos, e a melhor forma de fazê-lo é por meio da governança algorítmica. Ao contrário da moderação convencional de conteúdo, que geralmente reage depois que a desinformação se espalhou, a governança algorítmica molda proativamente os fluxos de informação por meio de abordagens baseadas em dados. Esse método visa suprimir conteúdos prejudiciais antes que ganhem tração, promovendo um ambiente digital mais equilibrado sem amplificar mentiras e extremismos.
Embora as decisões de moderação sejam sempre matéria de debate interessante, o conteúdo que, em última análise, aparece nas plataformas de mídia social é determinado principalmente por algoritmos, em grande parte fora do escopo do discurso político.
Ao envolver a sociedade civil e os governos no desenvolvimento desses algoritmos, podemos criar um sistema que reflita valores e prioridades coletivos, em vez dos caprichos de alguns indivíduos ou corporações poderosos, que representam um perigo real para a democracia, pois seu poder não é apenas econômico, mas também vem do controle absoluto dos fluxos de informação.
O aumento da desinformação exige uma ação global urgente. À medida que plataformas como a Meta se retraem de suas responsabilidades, cabe aos governos e à sociedade civil intervir e estabelecer estruturas que responsabilizem essas empresas.
Isso inclui criar mecanismos para que os usuários compreendam e recorram de decisões tomadas pelas plataformas, garantindo que aqueles que espalham desinformação enfrentem consequências adequadas—por meio de parcerias com os judiciários de diferentes países para acelerar a remoção de conteúdos e analisar queixas válidas de usuários, com mecanismos de apelação de decisões. E para combater a desinformação como ela realmente é, punindo os usuários que a propagam, banindo-os das redes sociais e até mesmo processando-os.
Um punhado de bilionários não deveria decidir como o debate público acontece, nem quais tópicos podem ou não ser discutidos, e muito menos quais grupos políticos ou partidos devem estar em destaque.
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RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
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