22/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

A arte de trapacear o outro e a si mesmo

Publicado em 25/09/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Alexandre Alex Rodrigues Furtado, 44, é uma dessas pessoas que se destacaram na rede de mentiras que é a nossa sociedade. Enquanto alguns mentem para enganar a mulher, o patrão, o Imposto de Renda, esse homem foi além dessas miudezas e deu o golpe em diversos funcionários, clientes e fornecedores da Agência Ar, em bancos e em três ex-mulheres em Bonito, no interior de Mato Grosso do Sul. Alex, apesar de ser um estelionatário profissional, preso no começo do mês em Caracas, na Venezuela, não foge à regra "mentira tem perna curta".

Quanto mais observo as pessoas – e me incluo nessa avaliação – mais fica claro sobre o quanto nos envolvemos em mentiras. A gente conta mentiras para os outros e para nós mesmos. Muitos de nós mentimos por coisas estúpidas, miseráveis e mesquinhas, mas a gente mente achando que tem tudo sob o nosso controle. A mentira mais comum, desde que me entendo por gente, é a "do amor". Amor à mulher, à família, a Deus, a ideologia, ao partido, e em três meses surgem outra mulher, outra família, outro Deus, outra ideologia e outro partido. Sem falar que, às escondidas, enquanto essas mudanças oficiais acontecem, os mesmos envolvidos tem amantes, servem a mais de um Deus ao mesmo tempo e por aí vai. Tudo faz parte do teatro "eu estou acima de qualquer suspeita, sou honesto e limpinho".

A gente conta mentiras para os outros e para nós mesmos. Muitos de nós mentimos por coisas estúpidas, miseráveis e mesquinhas, mas a gente mente achando que tem tudo sob o nosso controle.

Para mim, a mentira mais vulgar é aquela que a pessoa conta para levar outra para cama. O comportamento dissimulado parece ser bem comum tanto no mundo hetero quanto no universo gay. Não é mais fácil ficar solteiro e assumir que é um Dom Juan? Não é mais fácil aprender a saborear uma pessoa de cada vez do que fazer com que cada uma se sinta a mulher mais amada da história da humanidade e, de repente, deixá-la falando sozinha? Não é mais legal ter amigos e manter amizades mesmo que o interesse sexual acabe? Nos tornamos o quê? Acumuladores compulsivos de paus e bocetas? Os casados então, desisti de entender. Particularmente, ando questionando profundamente por que diabos as pessoas se casam e têm filhos.

Já ouvi vários homens relatarem que anda difícil se livrar de mulheres – casadas – que insistem em levá-los para cama. E elas apelam com argumentos tão fúteis quanto as cantadas dos caras (casados e solteiros) "curva de rio". Resumindo, o enredo dos casados é mais ou menos assim: Papai não sabe porque casou com a mamãe e a mamãe idem, então a gente finge que é feliz porque foi assim que a gente aprendeu e não sabe ser de outro jeito a não ser nos tornarmos a personificação da mentira, mas nós somos uma família unida. É a única coisa que conta para os outros.

Mãezona

A segunda mentira que eu conheci na vida é a "boa mãe". Todas as mães são lindas, maravilhosas e doces com seus filhos. São capazes de dar a vida por cada um deles. Mas eu ainda fico com a máxima do psicanalista José Ângelo Gaiarsa que costumava dizer que "toda mãe é um câncer na vida do filho". Mães são machistas, as primeiras a incutir e cultivar a ideia de que meninos podem tudo, menos mostrar sensibilidade, e as meninas precisam ser puras e negar (mentir) a própria sexualidade para serem consideradas dignas de respeito pela sociedade. Claro que nem tudo é esse horror, mas para o garoto que levou uma cotovelada no rosto, num sábado de manhã, na rua Barão do Rio Branco com a rua 14 de Julho, provavelmente é. Ele chamou três vezes pela mãe, para contar ou mostrar alguma coisa, e levou uma cotovelada na frente de todo mundo bem no meio do rosto. Ele devia ter uns 11 anos.

Mães são machistas, as primeiras a incutir e cultivar a ideia de que meninos podem tudo, menos mostrar sensibilidade, e as meninas precisam ser puras e negar (mentir) a própria sexualidade para serem consideradas dignas de respeito pela sociedade.

A falácia da maternidade – sagrada salve, salve – dá sequência de geração em geração a uma série deslavada de mentiras. A primeira é de que mãe que é mãe se mata pelos filhos. A mãe de ontem se matava no tanque e no fogão, a de hoje se mata trabalhando para comprar tudo o que o dedinho do filho mimado pedir. Tanto a mãe do passado quanto a mãe do presente esquecem do principal, o diálogo transparente. Fala-se de drogas, de sexo e de caráter (ops, caráter, não).

A maioria se esquece do fator mais importante que é ensinar o filho a ter responsabilidade sobre os próprios atos. Como ela não faz isso cria-se a relação do "te digo o que não fazer, explico o porquê e você docilmente me promete que não vai fazer", mas faz e aprende a mentir que não faz. Meu filho jamais vai experimentar droga porque ele foi muito bem orientado e jamais vai sair transando por aí porque filho meu é assexuado, é mais ou menos o tipo de pensamento dos pais.

Hora do Leão

Aquele momento celebrado anualmente por todos, o Imposto de Renda, é o campeão do jeitinho brasileiro. Você soma aqui, reduz ali, acrescenta por aqui, tira dali e bingo, enrolamos o Leão. Tudo bem porque o governo sempre está enrolando a gente com as taxas absurdas de impostos que a gente nunca vê aplicado em lugar nenhum, correto? O patrão te xinga toda semana, você dá um duro danado, se bem que o legal é ficar em casa, curtindo um sofá, e aí liga para aquele amigo que sempre arruma um jeito novo de descolar um atestado médico para faltar o trabalho. "Tô doente, não posso, acordei mal, não vou". Toda empresa tem a sua parcela de doentes mentirosos crônicos.

Há mentira em todos os níveis para todos os gostos. Minha mãe outro dia marcou uma consulta na Maternidade Cândido Mariano e lá ouviu a conversa de quatro adolescentes, todas grávidas. Uma delas era bem "bonachona". As outras três questionavam a garota inocente como ela tinha ficado grávida, se era do namorado ou marido e se ela engravidou porque quis. "Não, não, eu nem sabia como engravidava. Ele me disse que aquilo era uma brincadeira e todo mundo fazia". As outras adolescentes riram dela e uma comentou que não dava para acreditar que ela tinha caído nessa de "brincar com pau" sem ficar grávida.

A conversa é tão bizarra que parece que vivemos em mundos paralelos e, sim, de fato, vivemos. Essa metafísica do pensar e do falar do outro acontece ao mesmo tempo que nossas mentes fazem uma nova interpretação a partir daquilo que acreditamos, temos medo e projetamos. Ou seja, se alguém nos mente e nos enrola, temos nossa parcela de responsabilidade por nos deixarmos engendrar na rede de mentiras do outro. O mentiroso seduz, é cativante, sabe todas as técnicas de afagar nosso ego e se satisfaz em perceber que ganha terreno e cada vez mais poder sobre o outro. Nós acreditamos, nos deixamos seduzir e sucumbimos.

Em época de campanha política, podemos aprender muito sobre a arte da mentira e de como essa rede funciona.

Política

Em época de campanha política, podemos aprender muito sobre a arte da mentira e de como essa rede funciona. Nos obrigam a votar em quem não nos representa, beijam criança favelada e remelenta, tomam café no copo do miserável e prometem um futuro brilhante para todos.

Nenhum deles é capaz de apresentar qualquer proposta concreta de campanha para reformulação dos presídios, do trânsito, da violência, do tráfico, da educação, da saúde. O discurso é sempre generalizado e hipócrita. São os campeões da mentira. Na outra ponta, estamos nós que, por razões bem diferentes, nos deixamos seduzir pelo discurso entusiasmado (e vazio) e votamos mais uma vez dando vida a um sistema corrompido e falido.

Assim como Alex, a mentira nossa de cada dia tem perna curta. Ele foi considerado pelo delegado responsável pelo caso, Roberto Gurgel, como o maior estelionatário da história da cidade, poderíamos dizer que o golpista "se deu mal". A mentira nunca cria nada positivo, muito pelo contrário. Ela é uma erva daninha que destrói relações que poderiam ser duradouras. Mentimos como indivíduos e como sociedade sentados sobre um sofá vagabundo que nunca sai debaixo do sol e da chuva e que, um dia, obrigará nossa bunda rosa e fofa a se contentar com a mola enferrujada ou o chão empoeirado. Tomara que tenhamos dignidade suficiente para levantar desse sofá velho e fedorento a tempo e criarmos um novo curso para a nossa própria história.

Leia mais:

Golpista preso pela Interpol criou boato que ator foi a Bonito.

Links relacionados:

Vips (2011), filme de Toniko Melo baseado em outro estelionatário brasileiro, Marcelo Nascimento da Rocha.

Prenda-me se for capaz (2002), filme de Steven Spielberg baseado na história do vigarista americano Frank Abagnale Jr.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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