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Ágora Digital

A Armadilha do Identitarismo

Ao tentar “educar com o c...”, movimentos identitários destroem a esquerda

Publicado em 20/10/2024 12:47 - Victor Barone

Divulgação

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O recente episódio envolvendo a performance “Educando com o cu” de Tertuliana Lustosa na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) reacendeu um debate acalorado, explorado com entusiasmo pela extrema direita para atacar a esquerda e as universidades públicas. Ao expor as partes íntimas durante uma performance artística em um evento acadêmico, a travesti e historiadora provocou uma polarização nas redes sociais e na mídia, evidenciando um ponto crucial: o identitarismo excessivo está se tornando uma armadilha para a esquerda contemporânea.

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Nos últimos anos, o identitarismo — e seu foco exagerado nas pautas ligadas às questões de identidade, como raça, gênero e sexualidade — se tornou um tema central nas discussões políticas da esquerda global. Mas, ao contrário de fortalecer o movimento progressista, essas discussões estão levando à fragmentação, ao afastamento das massas e à desconexão com pautas essenciais, como os direitos trabalhistas e, mesmo, pautas relacionadas ao que o próprio identitarismo julga defender. O episódio da performance na UFMA é um exemplo de como essas pautas identitárias, quando levadas ao extremo, podem se transformar em caricaturas de si mesmas, alienando até mesmo setores que normalmente simpatizariam com as causas progressistas.

A performance de Lustosa não foi apenas uma provocação artística, mas um reflexo de um fenômeno mais amplo que ocorre dentro das universidades e reverbera nas redes sociais. As pautas identitárias, nascidas de debates acadêmicos complexos, acabam sendo simplificadas e transformadas em memes e slogans vazios que não conseguem dialogar com a realidade do cidadão comum. Se um trabalhador precarizado ou uma mãe de periferia não consegue ver sentido ou relevância nessas discussões, a esquerda corre o risco de perder a conexão com suas bases históricas.

É inegável que as questões de identidade são importantes. Porém, ao tornarem-se o eixo central da agenda progressista, essas pautas têm obscurecido temas como a distribuição de renda, o combate à pobreza e a luta pelos direitos dos trabalhadores — bandeiras que tradicionalmente foram o coração e cerne da esquerda. Ao focar excessivamente em debates que muitas vezes soam elitistas e desconectados da realidade cotidiana da maioria da população, a esquerda se afasta do eleitor médio e facilita a tarefa da direita de desacreditá-la.

A Fragmentação da Esquerda

A fragmentação interna é outro resultado perigoso do predomínio do identitarismo. A esquerda contemporânea está cada vez mais dividida, com diferentes grupos lutando por espaço em um cenário onde parecem falar línguas diferentes. Um ativista negro, por exemplo, pode não encontrar ressonância nas demandas de um comunista branco. Em vez da construção de alianças amplas e coesas para enfrentar as grandes questões sociais, o que se vê é uma pulverização de forças que apenas enfraquece a busca por uma sociedade mais humana, justa e solidária: objetivo histórico do pensamento de esquerda.

O filósofo e escritor Yascha Mounk, em seu livro The Identity Trap, aponta como a obsessão com identidades levou à radicalização de pautas que, originalmente, eram válidas. O fenômeno da “hiperidentificação” transforma discussões importantes em dogmas inquestionáveis. E, como todo dogma, ele fecha a porta para o diálogo e a autocrítica. Aqueles que ousam questionar qualquer aspecto dessas pautas são rapidamente rotulados como preconceituosos, em um ambiente em que a crítica interna é vista como traição.

Esse ambiente tóxico dentro da própria esquerda impede a reflexão e a correção de rumos. Enquanto isso, a extrema direita se aproveita da situação, explorando episódios como o da performance na UFMA para atacar a esquerda como um todo. O exagero identitário se torna um presente para os adversários, que utilizam essas cenas para justificar cortes de verbas na educação pública e atacar a autonomia das universidades, aprofundando um projeto autoritário que ameaça a democracia.

A saturação com as pautas identitárias já é visível até dentro da própria esquerda. Muitos militantes progressistas, que sempre defenderam as liberdades civis e a diversidade, estão cansados do que percebem como absurdos. A performance “Educando com o cu” é apenas um exemplo extremo, mas ele ilustra bem o problema: mesmo entre aqueles que normalmente apoiariam o princípio da liberdade artística, houve desconforto e críticas. Em canais progressistas nas redes sociais, o apoio que o evento recebeu caiu por terra quando as reações negativas se tornaram insustentáveis.

Esse desgaste não é apenas uma questão de imagem, mas reflete uma crise mais profunda. Ao priorizar pautas que não dialogam com as necessidades mais imediatas da maioria da população, a esquerda corre o risco de se tornar irrelevante. A defesa incondicional de manifestações como a performance de Lustosa pode até agradar a alguns nichos, mas ela afasta a maioria, que não vê nesse tipo de evento uma contribuição para suas lutas cotidianas por melhores condições de vida e trabalho.

A Necessidade de Reequilibrar o Debate

É preciso reconhecer que o identitarismo, quando levado ao extremo, não é uma solução para os problemas que a esquerda precisa enfrentar, mas um obstáculo. O desafio é encontrar um equilíbrio, um ponto de convergência onde as pautas identitárias possam coexistir com outras questões sem monopolizar o debate e sem afastar a população. Esse equilíbrio é fundamental para que a esquerda recupere sua capacidade de construir alianças amplas e de formular respostas concretas para os problemas sociais.

Em vez de se fechar em um dogmatismo identitário, a esquerda precisa abrir espaço para a autocrítica e para o diálogo com outros setores da sociedade. Só assim será possível reconquistar a confiança da maioria da população e voltar a ser uma força política relevante e transformadora. A performance de Lustosa é apenas um sintoma de um problema maior: se a esquerda não conseguir reavaliar seu foco e suas estratégias, ela corre o risco de se perder em suas próprias contradições e deixar o campo aberto para os adversários que desejam destruir tudo o que já foi conquistado nos últimos 150 anos.

O caminho a seguir não é o da negação das pautas identitárias, mas o de uma convivência harmoniosa entre elas e as questões mais urgentes da luta política. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência da esquerda, mas a própria ideia de justiça social que ela sempre defendeu.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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Uma resposta para “A Armadilha do Identitarismo”

  1. theresa hilcar disse:

    Excelente análise. Sou da mesma opinião: a esquerda – ou parte dela – ao apoiar amplamente o identitarismo, fecha a porta p o diálogo e pode sim, perder apoiadores e claro, votos. Principalmente na classe média. A maioria das pessoas nao quer ver um filho (a),criança ou adolescente, compartilhando banheiros com adultos de outro sexo, só para citar um exemplo.

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