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Campo Grande
Indicações expõem proximidade nefasta entre poder público e religião
Publicado em 30/01/2025 10:29 - Semana On
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A nomeação de 12 pastores da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Missões de Campo Grande para cargos públicos pela prefeita Adriane Lopes (PP) não apenas revela a complexidade das relações entre religião e política, mas também reacende um debate histórico e constitucional: os limites da laicidade do Estado brasileiro. Com salários que variam entre R$ 4.403,97 e R$ 9.567,09, as nomeações reforçam a percepção de uma proximidade estratégica entre instituições religiosas e a administração pública municipal.
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A Assembleia de Deus Missões não é uma mera espectadora no cenário político local. Frequentada pela prefeita Adriane Lopes, a igreja celebrou publicamente a sua vitória nas urnas em 2022, destacando seu papel histórico como a primeira mulher eleita para comandar a capital sul-mato-grossense. No entanto, a trajetória da igreja na política municipal não se limita à comemoração: ela se reflete no preenchimento de cargos estratégicos por seus líderes.
Religião e poder: cargos comissionados sob análise
Levantamento do site Campo Grande News cruzou os dados da diretoria da igreja — presentes em atas judiciais — com informações do Diogrande (Diário Oficial do Município) e o Portal da Transparência da Prefeitura. Entre os nomeados, destacam-se líderes e membros diretos da instituição religiosa. Hemerson Ortiz da Mota, primeiro vice-presidente da igreja, assumiu em 2023 a coordenação de um Centro de Referência de Assistência Social (Cras) com remuneração mensal de R$ 4.403,97. Já o pastor Marcos Ferreira Chaves de Castro, com um histórico de nomeações e exonerações, atualmente ocupa cargo na Secretaria Municipal de Assistência Social, recebendo R$ 9.567,09.
Essas nomeações não ocorrem no vácuo. O Brasil possui uma longa história de relações complexas entre instituições religiosas e o poder público. Embora a Constituição de 1988 consagre o país como um Estado laico, a prática política revela um cenário ambíguo, onde a religião frequentemente atua como uma força de mobilização eleitoral e de governabilidade. O caso de Campo Grande exemplifica essa sobreposição.
A escolha dos pastores, majoritariamente para cargos comissionados nas áreas de assistência social, saúde e administração pública, levanta questionamentos sobre critérios técnicos e meritocráticos. Pastores como Julinei Herao Ferreira, com função em cargos na Secretaria Municipal de Saúde e salário de R$ 6.459,59, e Jusley Gonçalves Lopes, gestor de processos na prefeitura, ilustram a continuidade de uma prática que remonta às origens da chamada “política de cooptação”, em que cargos públicos são preenchidos com aliados políticos e religiosos.
Quando a laicidade entra em conflito com a prática política
O filósofo francês Henri Pena-Ruiz, estudioso da laicidade, argumenta que “um Estado laico não é aquele que ignora as religiões, mas aquele que as trata sem privilégios”. No entanto, as nomeações de lideranças religiosas, especialmente em contextos onde a governante possui vínculos diretos com a denominação, suscitam dúvidas sobre a neutralidade administrativa.
O Brasil já testemunhou casos semelhantes em outras esferas. O governo de Jair Bolsonaro, por exemplo, estabeleceu uma relação próxima com lideranças evangélicas, integrando figuras religiosas em posições estratégicas de ministérios e agências federais. Na esfera municipal, Campo Grande pode estar seguindo um padrão que transcende ideologias políticas: a crescente influência de grupos religiosos na gestão pública, que não se restringe a cargos honoríficos, mas penetra áreas sensíveis, como saúde, educação e assistência social.
Para o sociólogo Ricardo Mariano, especialista na ascensão política evangélica no Brasil, a “teia de interesses entre igrejas e políticos resulta em um ciclo de retroalimentação: os políticos recebem apoio eleitoral enquanto os líderes religiosos asseguram espaços na máquina pública”. Essa relação é reforçada pela capilaridade das igrejas em comunidades periféricas, onde elas exercem forte influência social.
Crise e protestos: o histórico de conflitos internos
A Assembleia de Deus Missões, presidida pelo pastor Antônio Dionízio da Silva desde 1991, também acumula polêmicas. Uma das mais emblemáticas ocorreu em 2020, quando Dionízio foi filmado dando um “tapa no bumbum” de uma ex-funcionária da igreja, o que gerou uma crise interna que transbordou para o espaço público. O episódio ilustra a fragilidade das fronteiras entre questões internas religiosas e repercussões políticas, sobretudo em contextos onde líderes da igreja estão diretamente envolvidos na administração pública.
Além disso, a igreja possui 20 subsedes em bairros de Campo Grande, fortalecendo sua influência regional. Moacir Frank e Julinei Herao, pastores nomeados para cargos públicos, também ocupam posições de liderança nas congregações locais, o que ilustra como essa rede de poder se estende tanto no plano espiritual quanto no político.
Reflexões sobre a transparência e os limites institucionais
A presença de líderes religiosos na administração pública não é, por si só, ilegal, mas expõe um terreno pantanoso onde questões éticas e legais se cruzam. A Constituição brasileira determina que o Estado não pode favorecer ou discriminar grupos religiosos. No entanto, quando nomeações se dão sem justificativas claras de competência técnica, a transparência administrativa pode ser comprometida.
A prefeita Adriane Lopes, ao adotar essa estratégia de nomeações, pode estar trilhando um caminho arriscado, onde o capital político obtido pelo apoio evangélico pode se transformar em desgaste público. Em um momento em que a sociedade brasileira enfrenta debates sobre pluralidade, diversidade religiosa e respeito à laicidade, a administração de Campo Grande pode se tornar um exemplo paradigmático de como essas tensões se manifestam no cotidiano da gestão pública.
Uma questão que transcende Campo Grande
O episódio lança luz sobre um fenômeno nacional: a politização da fé. A presença de líderes religiosos em cargos públicos, como ocorre na prefeitura de Campo Grande, não é isolada. Ela reflete um movimento mais amplo de instrumentalização mútua entre líderes políticos e religiosos, com efeitos diretos na administração pública e nos valores democráticos que sustentam o país.
Como afirmou o jurista e ex-ministro do STF Celso de Mello: “A laicidade estatal não é um adorno constitucional, mas uma garantia fundamental de que as políticas públicas sejam regidas pela razão pública, e não pela fé privada”. Resta saber até que ponto a população de Campo Grande — e do Brasil — aceitará essa coexistência, que cada vez mais coloca o Estado na esfera de influência das igrejas.
Quem escreveu isso não entende nada de Direito Administrativo nem do artigo 37 da CF. ????????????????