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Campo Grande
Sem reajuste há quatro anos, servidores acumulam perdas enquanto prefeitura anuncia obras milionárias
Publicado em 12/04/2026 1:04 - Semana On
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A contradição que marca a administração pública em tempos de escassez raramente se apresenta de forma tão explícita quanto em Campo Grande: de um lado, servidores acumulando perdas salariais e enfrentando o quarto ano consecutivo sem reajuste; de outro, sucessivos anúncios de pacotes milionários de obras que, em grande parte, não se concretizam. No centro desse paradoxo está a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP), cuja condução fiscal e política expõe tensões clássicas entre austeridade, prioridades administrativas e legitimidade democrática.
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Desde 2023, mais de 30 mil servidores municipais convivem com salários congelados. A inflação acumulada no período já ultrapassa os 15%, corroendo o poder de compra da categoria. O último reajuste ocorreu ainda em 2022, quando o então prefeito Marquinhos Trad (PV) concedeu aumento de 10%. Desde que assumiu, Adriane Lopes não autorizou qualquer recomposição salarial.
A situação se agrava com a adesão, em 2025, ao Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF), iniciativa do governo federal que impõe controle rigoroso de gastos. Na prática, a medida consolidou o congelamento salarial sob o argumento de responsabilidade fiscal — discurso recorrente na tradição econômica brasileira desde os anos 1990, especialmente após a Lei de Responsabilidade Fiscal (2000), que redefiniu os limites da gestão pública.
No entanto, a austeridade não se distribui de maneira homogênea dentro da própria administração. Enquanto servidores enfrentam perdas reais, a prefeita promoveu um reajuste de até 66% em seu próprio salário e no da cúpula do Executivo municipal. Atualmente, Adriane recebe R$ 31.912,56, com previsão de alcançar R$ 35.462,22 até 2027. Secretários também foram beneficiados com aumentos de até 41%, além de gratificações — algumas delas associadas ao episódio conhecido como “folha secreta” durante a campanha eleitoral de 2024.
Esse tipo de assimetria não é novo na história política brasileira. O cientista político Fernando Abrucio aponta que “a desigualdade interna no setor público, quando não justificada por critérios transparentes, corrói a legitimidade do Estado perante seus próprios agentes e a sociedade”. Em Campo Grande, a percepção de injustiça é amplificada pelo contraste entre o discurso de crise e a prática administrativa.
O presidente do Sisem (Sindicato dos Servidores Municipais), Willian Freitas, afirma que há negociações em curso para a data-base de maio, mas sem qualquer definição concreta. Paralelamente, categorias como a Guarda Municipal se mobilizam, com assembleia marcada para 25 de abril, reivindicando não apenas reposição inflacionária, mas também direitos acumulados judicialmente, como adicional de periculosidade e quinquênios.
Se a política salarial evidencia tensões internas, a gestão da infraestrutura urbana revela um problema mais visível — e, para a população, mais imediato. Em meio a uma semana marcada por fortes chuvas, a precariedade das ruas de Campo Grande voltou ao centro do debate público. Buracos, crateras e falhas de drenagem transformaram o cotidiano em risco: um carro chegou a cair em uma abertura encoberta por água na Rua Fidélis Bucker, no bairro Ramez Tebet.
Apesar disso, a prefeitura anunciou um novo pacote de obras de R$ 143 milhões, prometendo asfalto para 28 bairros. O anúncio, porém, se soma a outros dois anteriores — um de R$ 250 milhões em 2025 e outro de R$ 544 milhões no fim do mesmo ano — que ainda não se traduziram em melhorias concretas. Obras como a da Lagoa Itatiaia seguem inacabadas, enquanto intervenções prometidas desde 2023 sequer começaram.
A repetição de anúncios sem execução efetiva levanta questionamentos sobre planejamento e capacidade administrativa. Na literatura de políticas públicas, esse fenômeno é frequentemente associado ao que o sociólogo Max Weber descreveu como “dominação carismática fragilizada”: quando o poder político depende mais de promessas e símbolos do que de resultados concretos (Economia e Sociedade, 1922).
A crise se aprofunda quando se observa que, em março, a prefeitura homologou R$ 10,7 milhões em contratos de recapeamento com empresas denunciadas por corrupção e fraude. Até agora, as obras não começaram, reforçando a percepção de ineficiência e alimentando desconfiança institucional.
Enquanto isso, os efeitos sociais são tangíveis. Buracos não são apenas um incômodo urbano: eles geram custos econômicos, danos a veículos, acidentes e até mortes — especialmente entre motociclistas, grupo mais vulnerável no trânsito urbano brasileiro. Segundo dados do Ministério da Saúde, acidentes de trânsito figuram entre as principais causas de morte no país, com impacto direto nas redes públicas de saúde e na economia.
No campo simbólico, a ausência de manifestações públicas de solidariedade às vítimas agrava o distanciamento entre gestão e sociedade. Em uma democracia, a empatia institucional não é um detalhe — é parte do contrato social.
O cenário de Campo Grande, portanto, não é apenas administrativo; é político e estrutural. Ele expõe um dilema clássico: como conciliar responsabilidade fiscal com justiça social e eficiência na entrega de serviços públicos. Quando essa equação falha, o resultado não é apenas insatisfação — é erosão da confiança nas instituições.
E, como ensina o historiador Eric Hobsbawm, “as crises de legitimidade são frequentemente mais perigosas do que as crises econômicas, porque minam os fundamentos sobre os quais o sistema se sustenta”.
Em Campo Grande, a conta dessa equação segue aberta — e, ao que tudo indica, cada vez mais difícil de fechar.
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Observação:Marquinhos trad em 2022 deu somente10% de reposição para os servidores mas dividido em duas etapas uma em junho e outra no final do ano de 2022. E agora com essa prefeita 4 anos sem reposição de salários