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Campo Grande

Calor em Campo Grande afeta salas de aula e compromete aprendizado

Escolas sofrem com infraestrutura precária e falta de climatização

Publicado em 15/02/2025 10:37 - Semana On

Divulgação Paulo Francis - Campo Grande News

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O calor sufocante nas salas de aula de Campo Grande tem se tornado um obstáculo silencioso, mas devastador, para a educação. Com temperaturas frequentemente acima dos 35°C e baixa umidade do ar, estudantes e professores enfrentam condições insalubres que vão muito além do desconforto: a ciência comprova que o calor extremo reduz significativamente a capacidade cognitiva, prejudica a aprendizagem e pode ter efeitos duradouros no desempenho escolar. Apesar disso, a falta de climatização nas escolas municipais e estaduais segue como um problema negligenciado pelo poder público, expondo alunos a um ambiente que desafia a própria lógica da educação como um direito fundamental.

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O funcionamento do cérebro humano é diretamente afetado pelo calor. Em temperaturas extremas, o organismo prioriza a regulação térmica e redireciona energia para manter o corpo em equilíbrio, diminuindo a capacidade de concentração e raciocínio. Como explica a neurocientista Lívia Ciacci, “o corpo entra em estado de alerta e passa a focar no alívio do desconforto, deixando o aprendizado em segundo plano”.

Essa realidade se reflete nos dados. Um estudo do Centro sobre a Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard (EUA) revelou que, em dias letivos com temperaturas acima de 38°C, a perda de aprendizagem pode ser até 50% maior do que em dias mais amenos. Outra pesquisa do Banco Mundial demonstrou que 37 dias por ano acima de 25°C já são suficientes para impactar negativamente o desempenho em avaliações educacionais.

E os danos vão além do curto prazo. O impacto do calor no desempenho acadêmico pode se prolongar por anos. Em Nova York, estudos mostraram que estudantes que enfrentaram dias letivos excessivamente quentes tiveram notas inferiores em testes realizados três ou quatro anos depois.

Se nos Estados Unidos esse fenômeno já preocupa pesquisadores e gestores educacionais, no Brasil, e especialmente em Campo Grande – onde o calor é uma constante e a umidade do ar frequentemente despenca –, o problema é ainda mais grave.

Infraestrutura precária e o abandono

Nas escolas municipais de Campo Grande, a realidade dos estudantes vai muito além do calor sufocante. Professores relatam, sob anonimato, que a precariedade da infraestrutura escolar dificulta qualquer tentativa de minimizar o impacto das altas temperaturas. “Há escolas em que a fiação não suporta a instalação de ar-condicionado. Outras sequer possuem ventilação adequada. Em dias muito quentes, os alunos ficam extremamente agitados, querem sair da sala o tempo todo. E quem pode culpá-los? Até nós, professores, se pudéssemos, sairíamos”, conta um docente da rede municipal.

A falta de climatização é apenas a ponta do iceberg de um problema estrutural mais profundo. Além do calor extremo, as escolas enfrentam salas superlotadas, falta de laboratórios e insuficiência de recursos tecnológicos. A ausência de uma internet de qualidade e de equipamentos básicos inviabiliza práticas pedagógicas mais dinâmicas, como a gamificação, que poderia tornar o aprendizado mais atrativo e eficiente.

A situação evidencia não apenas um descaso com o conforto térmico, mas um descompromisso estrutural da administração pública com a qualidade da educação. Enquanto a gestão municipal não prioriza a modernização das escolas, estudantes e professores seguem enfrentando condições adversas que comprometem a aprendizagem e tornam a sala de aula um ambiente hostil.

Professores também sofrem os efeitos do calor

A precariedade da infraestrutura escolar não impacta apenas os alunos. Os professores, que precisam manter a atenção e a disciplina de turmas inquietas pelo desconforto térmico, também são duramente afetados.

Além da dificuldade de concentração e do estresse causado pelo calor, há impactos diretos na saúde vocal dos docentes. Em muitas escolas sem climatização, ventiladores barulhentos tornam necessário elevar a voz constantemente, o que pode causar lesões nas cordas vocais. “É um ambiente que adoece o professor, tanto pelo calor excessivo quanto pelo esforço adicional que ele precisa fazer para manter a ordem e seguir com o planejamento pedagógico”, explica Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Para especialistas em medicina do trabalho, como Daniel Bitencourt, da Fundacentro, a exposição prolongada ao calor extremo em ambientes fechados pode ser até mais prejudicial do que em locais abertos. “Sem ventilação adequada, a temperatura interna pode ser ainda mais alta do que do lado de fora. O estresse térmico aumenta e o impacto na saúde mental e física dos professores é significativo”, alerta.

Iniciativas pontuais expõem desigualdades na educação

Enquanto a maioria das escolas de Campo Grande segue sem qualquer política efetiva para climatização, algumas unidades em outras cidades começam a receber atenção. Um exemplo disso é a Escola Estadual Vereador Kendi Nakai, em Paraíso das Águas, onde a deputada Mara Caseiro (PSDB) solicitou a instalação de cinco aparelhos de ar-condicionado. A justificativa da parlamentar é que a sensação térmica elevada prejudica o desempenho acadêmico dos estudantes e compromete sua trajetória educacional.

Embora a iniciativa seja positiva para os alunos daquela unidade, a desigualdade no tratamento do problema salta aos olhos. Se a climatização é reconhecida como essencial para o aprendizado, por que a maior parte das escolas públicas segue sem qualquer estrutura para lidar com as altas temperaturas? Por que há um movimento apenas pontual e não uma política pública abrangente que contemple todas as escolas em regiões de calor extremo?

A urgência de políticas públicas para enfrentar o problema

O cenário climático global já não permite a negligência do problema. O ano de 2024 foi o mais quente da história, com um aumento médio de 1,6°C desde o início da era industrial. No Brasil, as ondas de calor se tornaram mais frequentes e intensas, tornando a climatização das escolas uma necessidade urgente, não um luxo.

No Rio Grande do Sul, onde as temperaturas chegaram a 43,8°C em janeiro, a Justiça determinou o adiamento do início do ano letivo na rede estadual para evitar riscos à saúde dos estudantes. Enquanto isso, em Campo Grande, crianças e adolescentes seguem enfrentando temperaturas extremas dentro de salas sem ventilação adequada, em um cenário que compromete não apenas seu aprendizado, mas sua saúde e bem-estar.

A solução para esse problema exige um compromisso real do poder público. Investimentos em infraestrutura, revisão da rede elétrica das escolas, instalação de aparelhos de ar-condicionado e alternativas como telhados ecológicos e ventilação cruzada são medidas urgentes para mitigar os impactos do calor na educação.

Se a educação é de fato prioridade, como tantas vezes se proclama em discursos políticos, é preciso que isso se traduza em ações concretas. O direito ao aprendizado não pode ser condicionado à resistência ao calor.

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Comente sobre essa publicação...

Uma resposta para “Calor em Campo Grande afeta salas de aula e compromete aprendizado”

  1. Ericleia Franco Dias disse:

    Na escola da moreninha 4 José Mauro Messias um calor as 7 h da manhã…sala pegando fogo com ventilador….imagine as 14 15 HS da tarde…
    Prefeita só marketing com essas salas realidade totalmente diferente

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