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Campo Grande
Usuários sofrem com frota antiga, superlotação e falta de acessibilidade, enquanto consórcio acumula lucros bilionários
Publicado em 14/02/2025 10:56 - Semana On
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Por mais um ano, a renovação da frota de ônibus de Campo Grande está atrasada. Em 2025, o Consórcio Guaicurus terá que substituir 197 veículos para atender ao contrato de concessão firmado em 2012. A exigência inclui os 99 ônibus previstos para o próximo ano e os 98 que já deveriam ter sido renovados em 2024. O problema? A promessa de modernização vem se repetindo ao longo dos anos, enquanto os passageiros seguem enfrentando um transporte público precário.
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A realidade do transporte coletivo na capital sul-mato-grossense é bem diferente do que preveem os contratos e discursos oficiais. Ruídos de motores desgastados, bancos quebrados, elevadores para cadeirantes inutilizáveis e veículos superlotados são parte do cotidiano de quem precisa do serviço. Em meio a esse cenário, um dado chama atenção: o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte público na cidade, faturou mais de R$ 1,27 bilhão nos primeiros oito anos de concessão, conforme auditoria da própria prefeitura. Enquanto os ônibus envelhecem, os cofres do consórcio seguem cheios.
Promessas que não saem do papel
Segundo a Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg), a frota de Campo Grande conta com 460 ônibus. O contrato determina que a idade média dos veículos deve ser de, no máximo, 5 anos, mas basta olhar para as ruas para perceber que esse limite não é respeitado. Muitos ônibus ultrapassam 11 anos de uso, comprometendo a segurança e o conforto dos passageiros.
Em 2023, foram entregues 71 novos ônibus, mas a defasagem da frota permanece crítica. A cada ano que passa, os prazos são estendidos, e as justificativas se acumulam. A Agereg afirma que está monitorando a situação e que multas podem ser aplicadas caso o consórcio não cumpra as exigências, mas o histórico mostra que a impunidade tem prevalecido.
O preço do descaso
A situação se repete diariamente: ônibus lotados, atrasos constantes e veículos em estado lastimável. Há relatos de passageiros que ficaram presos dentro dos coletivos por conta de elevadores quebrados, além de episódios em que goteiras inundam os assentos durante chuvas. A acessibilidade, um direito garantido por lei, é praticamente inexistente para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
Um caso emblemático aconteceu em janeiro de 2024, quando Nelson Corrêa, de 63 anos, não conseguiu desembarcar de um ônibus na Avenida Júlio de Castilho porque o elevador estava estragado. Em outra situação, um passageiro ironizou a situação ao gravar um vídeo de dentro de um ônibus com um furo no teto, que transformava o transporte em uma verdadeira “chuveirada refrescante”.
Nos horários de pico, a superlotação transforma os ônibus em latas de sardinha sobre rodas. No Terminal Aero Rancho, às 5h30 da manhã, a cena já é caótica: filas enormes e passageiros espremidos dentro dos veículos, sem espaço para se movimentar.
Bilhões de lucro, mas onde está a renovação?
A precariedade do serviço contrasta com os ganhos expressivos do Consórcio Guaicurus. Entre 2012 e 2019, as planilhas analisadas pela prefeitura revelaram uma receita de R$ 1,27 bilhão. Apesar do alto faturamento, a qualidade do transporte público não acompanha esse crescimento. Em vez de investir na modernização da frota e na melhoria do atendimento, o consórcio reduziu a quantidade de ônibus circulando na cidade.
Segundo auditoria da Agereg, desde 2015 a idade média da frota está acima do permitido, e mesmo assim, os lucros do consórcio continuam aumentando. A explicação? Simples: enquanto os passageiros pagam tarifas cada vez mais caras, o serviço oferecido continua longe do ideal.
Consórcio blindado da fiscalização
Nos últimos 10 anos, tentativas de abrir CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) para investigar o Consórcio Guaicurus foram arquivadas ou ignoradas pela Câmara Municipal de Campo Grande. Foram pelo menos sete tentativas frustradas de levar adiante uma investigação sobre os contratos e serviços prestados pela empresa.
Enquanto isso, os problemas só se acumulam. Apesar de sucessivas reportagens, denúncias de usuários e estudos oficiais confirmando a precariedade do transporte, a fiscalização pouco avança e as cobranças acabam se diluindo no tempo.
O transporte que Campo Grande merece?
A situação do transporte público em Campo Grande reflete um problema estrutural que se repete em várias cidades brasileiras: concessões milionárias que favorecem empresas privadas, enquanto os usuários enfrentam um serviço cada vez mais caro e ineficiente. A renovação da frota prevista para 2025 é uma obrigação contratual, mas se depender do histórico de atrasos, pode facilmente se tornar mais uma promessa não cumprida.
O Consórcio Guaicurus precisa ser cobrado não apenas pelo cumprimento do contrato, mas também pela transparência em sua gestão financeira. Se há recursos para gerar lucros milionários, também deveria haver investimento para garantir um transporte público digno, acessível e eficiente para a população de Campo Grande. O desafio agora é garantir que, dessa vez, a renovação da frota saia do papel e chegue, de fato, às ruas.
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