15/06/2024 - Edição 540

Brasil

Umbanda completa 115 anos em meio à intolerância religiosa

Como jornalistas e policiais perseguiram cultos de matriz africana no Paraná

Publicado em 15/11/2023 10:45 - Cristina Índio do Brasil (Agência Brasil), Beatriz Drague Ramos (Ponte) – Edição Semana On

Divulgação Fernando Frazão - Abr

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O Dia Nacional da Umbanda será comemorado neste 15 de novembro, mas existe uma questão forte a enfrentar. A intolerância religiosa é uma preocupação entre seus seguidores. O pai Fernando D’Oxum, da Tenda Espírita São Lázaro, do bairro Pita, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, disse que nos anos 1980 houve uma expansão da religião no Brasil, mas a partir daí ocorreu um “grande processo negativo por parte de integrantes de algumas igrejas pentecostais, que começaram a demonizar esta religião”.

Segundo o babalorixá, dos anos 2000 para cá, a religião afro-brasileira vem ressurgindo. “Até por causa de uma escola muito poderosa, que é a escola paulista que nos ajudou muito na divulgação do culto no Brasil, e hoje está espalhada no país todo, com grande força em São Paulo, Rio de Janeiro e não posso tirar a grande força também que é a do Rio Grande do Sul”, afirmou.

A preocupação é dividida com o pai Wilker Jorge Leite Filho, do Templo Umbandista Estrela do Amanhã (Tueda), de Bangu, na zona oeste do Rio, para quem a intolerância atualmente não ocorre mais de uma forma velada. “Isso existe, e acho que vai existir sempre. Se estamos em um planeta de prova e expiação, se estamos ainda crescendo aqui no planeta Terra, ainda tem uma mistura muito grande de espíritos com entendimento, espíritos sem entendimento, então, essa ignorância ainda vai existir por muito tempo”, ressaltou.

Ocorrências

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro indicam que, em 2021, houve 33 ocorrências de ultraje a culto religioso em todo o estado do Rio de Janeiro. Em relação a 2020, representa um aumento de 10 casos.

Naquele ano, as delegacias da Secretaria de Estado de Polícia Civil fizeram 1.564 registros de ocorrência de crimes que podem estar relacionados à intolerância religiosa, o que significa mais de quatro casos por dia. No total, estão incluídos os casos de injúria por preconceito (1.365 vítimas); e preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional (166).

De acordo com o instituto, a injúria por preconceito “é o ato de discriminar um indivíduo em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional tem por objetivo a inferiorização de todo um grupo étnico-racial e atinge a dignidade humana”.

“A tipificação criminal é determinada pela ridicularização pública, impedimento ou perturbação de cerimônia religiosa”, destacou o ISP, que tem o objetivo de mostrar para a sociedade que intolerância religiosa é crime e tem que ser denunciada.

Tendas

Outra dificuldade desta religião é saber quantas tendas e casas de santo existem no Brasil. Pai Fernando D’Oxum disse que não tem a informação de quantas estão instaladas no país, mas, atualmente, em São Gonçalo são cerca de 400. O líder espiritual defendeu a realização de uma pesquisa que possa identificar a localização das casas de santo e qual é a população de povos de terreiros de umbanda no país

“Seria maravilhoso se a gente conseguisse mapear, mas por conta da violência, alguns terreiros escolhem ficar absolutamente escondidos, porque têm medo de que, uma vez expostos, esses grupos neopentecostais agressivos possam ir lá e depredar o patrimônio. Tem uma discussão sobre violência a ser feita ainda”, ressaltou.

Segundo Fernando D’Oxum, é difícil verificar o número de umbandistas no Brasil. “As pessoas, em um censo, por exemplo, não dizem que são umbandistas, elas se dizem espíritas, e aí já começa uma grande confusão. Esta tem sido uma batalha nossa para que o umbandista se reconheça como umbandista e não como espírita. Fora os que no censo se dizem católicos, porque têm um acesso mais facilitado.

Para o pai Fernando D’Oxum, a Umbanda é uma religião que nasceu na cidade de São Gonçalo e foi anunciada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, no dia 16 de novembro de 1908, embora, na véspera, o médium tenha feito uma manifestação na cidade vizinha Niterói, data que acabou sendo marcada como Dia da Umbanda.

“É uma religião brasileira que a gente entende como 100% brasileira, com influências do povo indígena, dos hindus e de várias vertentes da religiosidade brasileira e, logicamente, do catolicismo. É uma religião que se predispõe à caridade, à prática de ajuda ao outro e que hoje está presente em quase todos os continentes. Uma religião que avançou mundo à fora”, disse pai Fernando.

Sincretismo

Na visão do babalorixá, a umbanda toma um pouco a vertente da matriz africana do candomblé quando começa a reconhecer e adaptar os orixás, que são os guias, e que chegaram com os negros do povo da áfrica no Brasil.

Além disso, tem o sincretismo, que surgiu da necessidade das pessoas escravizadas associarem um orixá a um santo da igreja católica. Foi assim que São Sebastião é Oxossi, São Jorge é Ogum, Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá, Nossa Senhora da Conceição é Oxum e Santa Bárbara é Iansã, entre outros. Assim, os escravizados podiam professar a sua fé nas fazendas onde viviam.

De acordo com pai Fernando, o sincretismo vem se modificando ao longo dos anos e, atualmente, algumas casas não fazem mais altares com santos católicos. “Algumas casas de Umbanda não fazem mais sincretismo nos altares, ou seja, os santos católicos em algumas casas já não estão mais presentes nos altares.”

Por considerar São Gonçalo como o berço da umbanda, que é muito poderosa na cidade, diante dos desafios desta religião, o babalorixá propõe a criação de uma lei municipal que determine a inclusão dela no calendário oficial da cidade.

Preservação

Pensando em preservar o patrimônio histórico, a tenda espírita criou o projeto do Museu da Umbanda, que ainda não tem uma sede física, mas vem avançando desde 2009. Pai Fernando destacou que uma peça importante desse patrimônio foi perdida com a demolição da casa do médium Zélio Fernandino de Moraes, em Neves, bairro de São Gonçalo, onde a Umbanda foi anunciada em 1908. A prefeitura da época não realizou a desapropriação do imóvel.

Renovação

A Tenda Espírita São Lázaro não faz iniciação de crianças e adolescentes. Lá, somente aos 18 anos podem ser iniciados, mas antes disso, a partir dos 13 anos podem participar do grupo jovem Bala e Pimenta onde recebem informações sobre a Umbanda e a doutrina espírita.

“A missão do grupo é sempre difundir a nossa doutrina. O que a Umbanda é realmente com seus preceitos tudo que realmente prega até mesmo para nós, jovens, espalharmos no nosso meio o que é a Umbanda realmente e tirar um pouco do preconceito. O grupo é para expandir a nossa doutrina entre os jovens do nosso terreiro”, afirmou o estudante Samuel Salustiano da Costa, 17 anos, o coordenador do grupo.

“Nesse momento, de descobrir o que eu quero ser, qual o caminho que vou seguir na minha vida, a umbanda me ajuda muito nessa fase de jovem, O que a religião passa e mais me representa é a inclusão, o estender a mão a todos, o amor incondicional e a caridade”, revelou Samuel.

O contato do pai Wilker com a umbanda foi com a própria família que seguia esta religião. Com 16 anos ele começou a desenvolver a mediunidade e com 19 anos fez a coroação para babalorixá. “Sempre foi permitido a mim olhar, ter contato com outras crenças religiosas, mas eu já nasci umbandista. Sempre gostei desde pequenininho. Não me lembro com interesse em outras. Pela minha criação e o que meus pais me passaram sempre respeitei, visitei Igreja Católica, protestante por convite, mas a minha convicção sempre foi umbandista”.

Celebrações

A umbanda tem também muito a celebrar pelos seus 115 anos. Para isso, foi elaborada uma longa programação para comemorar sua participação entre as representações religiosas no Brasil.

Em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, a prefeitura, por meio da Comissão da Semana da Umbanda, criada para organizar as celebrações, preparou uma agenda que começou na segunda-feira (13) com o debate Legalização e Justiça – um caminho possível para o fim das violências contra os povos de terreiro. O evento foi realizado na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), naquele município.

A programação tem ainda a exposição Pelos Caminhos da Umbanda, no hall principal da Câmara Municipal de São Gonçalo, promovida pelo Instituto Carta Magna da Umbanda. A ideia da mostra, que vai até amanhã (16), foi apresentar a construção da religião brasileira de matrizes africanas e indígenas, a partir de suas práticas, ritos, territórios e historicidade.

Também amanhã, às 17h, durante uma sessão solene em homenagem às lideranças da umbanda na Câmara Municipal de São Gonçalo, os homenageados receberão a medalha Zélio Fernandino de Moraes.

Na sexta-feira (17), haverá um show do cantor e compositor gonçalense Altay Veloso, no Teatro Municipal de São Gonçalo, às 19h. A apresentação vai terminar com a bateria da escola de samba Porto da Pedra. Os shows serão gratuitos e sujeitos à lotação.

Encerrando a programação da semana, no sábado (25), será o momento do Encontro dos Povos de Terreiros de São Gonçalo, das 14h às 20h, na Praça Zélio Fernandino de Moraes, Marco Zero da Umbanda, no bairro de Neves. Lá, as homenagens serão dirigidas a lideranças religiosas, com o Banda com Banda, cerimônia de hasteamento da bandeira da umbanda e uma feira de artesanato e gastronomia.

Rádio Parágrafo 2 aborda a relação da imprensa com cultos de Matriz Africana ao longo da história | Foto: Arquivo Rádio Parágrafo 2.

Como jornalistas e policiais perseguiram cultos de matriz africana no Paraná

A relação da imprensa com os cultos de matriz africana foi a pior possível desde sempre”: a constatação é de José Pires, editor chefe do Parágrafo 2, veículo de jornalismo independente que desde 2015 cobre temas ligados aos direitos humanos. Pires é um dos idealizadores e diretores de Caso Athanásio, uma série do programa Podcast Rádio Parágrafo 2. O programa explora a relação da imprensa brasileira com o racismo e a intolerância religiosa contra cultos de matriz africana, a partir da prisão de um babalorixá ocorrida no Paraná em junho de 1984.

O babalorixá Athanásio de Souza Bueno foi preso na cidade de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, no Paraná. Nos jornais da época, Athanásio era comparado ao demônio: “Descoberto o templo do diabo” e “Valia de tudo na seita do demônio” diziam as manchetes, que o acusavam de promover orgias, incesto e violência sexual.

O podcast ouviu jornalistas que cobriram o caso, personagens que vivenciaram a história e pesquisadores, entre outras fontes. Serão cinco episódios, dos quais o primeiro já está disponível no Spotify, na Deezer e na Amazon Music. A direção é de Rafael Pires de Melo, professor de história e filosofia da rede estadual do Paraná.

“O caso Athanásio é um exemplo emblemático de como a imprensa foi extremamente intolerante e racista”, explica José Pires, que também explorou fragilidades nas acusações publicadas pelos jornais da época. “Não se sabia o endereço correto onde Athanásio foi preso. O endereço que os jornais divulgavam ficava a mais ou menos 10 quilômetros de distância de onde o pai de santo foi realmente preso. Isso significa que a polícia passou esse endereço para os jornalistas e ninguém checou, simplesmente reproduziram. Se eles não checaram nem o endereço, imagina as outras acusações.”

Sangue de animais usado para sacrifícios, além de objetos sexuais supostamente usados nas mulheres, revistas pornográficas e meio quilo de maconha foram as evidências encontradas pela polícia para justificar a prisão de Athanázio, explica Pires. “A imprensa era uma espécie de assessoria de imprensa da Polícia Civil e da Polícia Militar, os jornalistas eram muito amigos dos delegados e dos policiais”, afirma.

Pires entrevistou jornalistas da época, que alegaram que a polícia pagava a repórteres para que algumas histórias fossem publicadas. “Isso promovia as delegacias e os jornalistas que se negavam a aceitar esse suborno eram muito mal vistos entre os policiais e entre os colegas da imprensa.”

Num cenário em que a formação em jornalismo ainda era muito limitada, muitos desses profissionais eram ex-policiais. “Existiam apenas duas universidades que ofereciam um curso de jornalismo, a PUC [Pontifícia Universidade Católica] e a Universidade Federal do Paraná. Entrar no curso de jornalismo era mais concorrido do que ser aprovado no curso de medicina, então pouquíssimos jornalistas tinham formação profissional com acesso a disciplinas, a textos e a livros de sociologia, de filosofia e de antropologia.”

Nesse sentido, as histórias sobre os cultos de matriz africana eram um banquete para a imprensa da época. “Os jornalistas seguiam uma cartilha de colaboração com a polícia e uma cartilha comercial, que era orientação dos empresários donos dos jornais. A imprensa refletia uma visão moral da sociedade, principalmente no caso do Athanázio a sociedade consumia aquilo para satisfazer os seus preconceitos”, aponta Pires.

O Estado, por sua vez, tinha uma tradição de opressão contra os praticantes de cultos de matriz africana. O podcast aborda que mulheres negras foram condenadas por supostas práticas de feitiçaria ainda no século XVI. “Mulheres escravizadas, ou que tinham ganhado alforria e estavam tentando sobreviver de alguma maneira, eram perseguidas e condenadas”, afirma.

Na primeira metade do século XX, Curitiba vivia um cenário ambíguo com relação a essas religiões, analisa José Pires. Por um lado havia a perseguição da polícia, da imprensa e de outros setores da sociedade, mas ao mesmo tempo muitos políticos buscavam atendimento e ajuda espiritual.

Temendo represálias, alguns pais e mães de santo utilizaram diversas estratégias para conseguir manter os seus terreiros abertos, nas décadas de 1950 e 1960. “Existiam algumas operações chamadas ‘Fura Tambor’, nelas a polícia da ditadura militar invadia os terreiros, parava os trabalhos e cobrava propina para que esses cultos pudessem manter essas casas de rezas. Quem não pagasse esse suborno estaria fadado a ter o seu terreiro fechado.”

Dentre os exemplos de veículos que incentivaram a visão racista e intolerante sobre a umbanda e o candomblé, Pires destaca a atuação do jornal Diário da Tarde, sediado em São Paulo e que também circulava em Curitiba, e que promoveu, no começo do século passado, o que o jornalista considera “uma verdadeira cruzada contra os cultos de matriz africana”.

“Tem por exemplo, matéria do Diário da Tarde, de 1931, que traz uma suposta reportagem investigativa sobre ‘macumba’ e ‘feitiçaria’. O título era mais ou menos assim: ‘O mal de todos os tempos aumenta assustadoramente’. O texto destacava que Curitiba estava ‘infestada’ de ‘macumbeiros’”, relata. “O texto pedia o combate e a repressão sobre os cultos, já que as famílias curitibanas estavam assustadas e oprimidas pela ‘feitiçaria’.”

Mesmo hoje, Pires avalia que a cobertura midiática sobre as religiões de matriz africana está longe de ser a adequada, exemplo disso é o tratamento jornalístico ao caso Lázaro Barbosa, um assassino procurado pela polícia em 2021, em Goiás. “Tem um episódio bem marcante que é quando um jornalista visita uma casa onde Lázaro teria morado, isso enquanto ele era caçado pela polícia, e lá esse jornalista encontra alguns assentamentos de Exu, uma simbologia do candomblé, e isso foi divulgado como satanismo.”

Como resultado disso, terreiros de umbanda e candomblé foram invadidos pela polícia, recorda o jornalista. “Os policiais agrediram pais e mães de santo, tem diversos relatos. Isso é reflexo puro da atuação desastrosa e preconceituosa da imprensa.”

A atuação do apresentador Sikear Jr, também é lembrada por Pires. “Ele faz chacota com pontos que são considerados sagrados na umbanda, ele dança e dá risada, com certeza a gente não vai ver ele fazendo chacota com pastor evangélico ou com padre, por exemplo. Ele é um reflexo de tudo isso que a imprensa trouxe e até hoje está ali, discreto, incrustado, mas vivo.”

“O que fez o Estado mudar a sua postura foi uma mudança gradual na sociedade, o acesso das pessoas à educação e ao desenvolvimento do pensamento crítico, e a criação de políticas como as cotas raciais e sociais, assim como o endurecimento e criação de leis que garantem a liberdade religiosa”, afirma o criador do podcast. “Hoje existem mecanismos legais para reprimir e punir quem pratica intolerância religiosa, mas ela ainda é muito grande, o caminho é muito longo.”


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Uma resposta para “Umbanda completa 115 anos em meio à intolerância religiosa”

  1. João disse:

    Gostei do podcast. Obrigado pela dica. Parabéns pela matéria.

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