Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Brasil
Levantamento revela 531 mortes em nove estados
Publicado em 14/03/2025 10:00 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Um levantamento da Rede de Observatórios da Segurança revela um cenário alarmante: ao menos uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 17 horas em 2024 nos nove estados monitorados pela organização. Ao todo, 531 assassinatos motivados por gênero foram registrados no Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Os dados indicam que 75,3% dos crimes foram cometidos por pessoas próximas às vítimas. Considerando apenas parceiros e ex-parceiros, esse percentual chega a 70%.
Os números integram o boletim Elas Vivem: um caminho de luta, divulgado nesta quinta-feira (13) pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) voltada ao monitoramento de políticas públicas e fenômenos de violência e criminalidade.
Violência de gênero segue em ascensão
Além dos feminicídios, o relatório aponta que, ao menos, 13 mulheres foram vítimas de violência por dia em 2024 nos estados analisados. No total, foram registradas 4.181 ocorrências, um aumento de 12,4% em relação a 2023. O crescimento se deu mesmo com a entrada tardia do Amazonas no monitoramento, em janeiro de 2024.
“Continuamos chamando a atenção, ano após ano, para um fenômeno muito maior do que essa amostragem. A sociedade e o Poder Público normalizaram essas mortes como apenas mais uma pauta social. Enquanto isso, os números seguem aumentando e as políticas de assistência são enfraquecidas”, alerta a Rede de Observatórios.
Para a pesquisadora Edna Jatobá, que assina o relatório, mesmo com avanços como as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, a realidade da violência contra mulheres no Brasil permanece alarmante. “Os mecanismos de proteção deveriam estar mais consolidados e funcionando melhor”, afirma.
Feminicídio e violência nos estados monitorados
Em seu primeiro ano no monitoramento, o Amazonas registrou 604 casos de violência contra mulheres, ficando atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. O estado contabilizou 33 feminicídios, sendo 15 cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
Outro dado preocupante diz respeito à violência sexual: 84,2% das vítimas tinham entre 0 e 17 anos. Além disso, 97,5% dos casos não tiveram a identificação racial das vítimas.
A Bahia apresentou uma redução de 30,2% nos registros de violência (de 368 para 257). No entanto, a subnotificação é um problema: em 73,9% dos casos não houve identificação de raça ou cor das vítimas. Entre os 46 feminicídios, 34 não tiveram essa informação registrada.
Salvador lidera o ranking estadual, com 68 ocorrências. No total, a Bahia registrou 96 mortes de mulheres (somando feminicídios e homicídios).
Com 207 registros, 2024 foi o pior ano em sete anos para a violência contra mulheres no Ceará. Em relação a 2023, houve um aumento de 21,1% nos casos gerais, e os feminicídios saltaram de 42 para 45. Parceiros e ex-parceiros foram responsáveis por 56 das ocorrências.
O Maranhão teve o maior crescimento percentual nos casos de violência contra mulheres, com alta de quase 90% (de 195 para 365 registros). Foram contabilizados 54 assassinatos de mulheres, 31 delas entre 18 e 39 anos.
Assim como em outros estados, a ausência de dados raciais é preocupante: 93,7% dos casos não tiveram essa informação registrada.
O Pará também apresentou alta expressiva, com um aumento de 73,2% nos registros de violência (de 224 para 388 casos). Em 63,4% das ocorrências, os crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
O uso de armas de fogo e armas brancas foi recorrente: 96 casos envolveram disparos, e 95 foram cometidos com facas ou objetos cortantes.
Apesar de uma leve redução nos registros de violência (-2,2%), Pernambuco foi o segundo estado com mais mortes de mulheres, atrás apenas de São Paulo. Foram 167 assassinatos, dos quais 69 foram classificados como feminicídios.
O Piauí registrou um crescimento de 17,8% nos crimes de gênero (de 202 para 237 ocorrências). Teresina concentrou 101 dos casos, seguida por Parnaíba, com 14. Foram contabilizadas 57 tentativas de feminicídio e 36 feminicídios consumados.
A transparência dos dados também foi um problema: 52,7% dos casos não tiveram a motivação registrada, e 97,2% não incluíram informações sobre raça e etnia das vítimas.
No Rio de Janeiro, os crimes de violência de gênero cresceram 1,9% (de 621 para 633). Do total, 197 foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Feminicídios e tentativas de feminicídio também apresentaram números preocupantes: 63 e 261, respectivamente.
O estado ainda registrou 103 casos de violência sexual e 13 crimes cometidos por agentes de segurança pública.
São Paulo liderou o ranking de violência contra mulheres entre os estados monitorados. Foram 1.177 casos, um aumento de 12,4% em relação a 2023.
A capital paulista concentrou a maior parte das ocorrências, com 149 registros, seguida de São José do Rio Preto (66) e Sorocaba (42).
O estado também teve o maior número de feminicídios: 144 no total, sendo 125 cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
Violência de gênero exige resposta mais eficaz
O relatório da Rede de Observatórios da Segurança expõe a urgência de medidas mais efetivas no combate à violência de gênero. Apesar de avanços legislativos e institucionais, a realidade demonstra que a proteção às mulheres ainda enfrenta desafios estruturais.
A falta de dados detalhados sobre raça e motivação dos crimes, bem como a alta incidência de feminicídios cometidos por parceiros e ex-parceiros, reforça a necessidade de políticas públicas mais robustas e da ampliação dos mecanismos de prevenção e acolhimento às vítimas.
Enquanto medidas eficazes não forem implementadas, a estatística seguirá brutal: uma mulher assassinada a cada 17 horas apenas nos estados monitorados.
Deixe um comentário