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Brasil

Taxa de desemprego no Brasil é a menor já registrada: 5,8%

Nível de emprego resiste a impacto do juro alto, dizem especialistas

Publicado em 01/08/2025 11:14 - Agência Brasil

Divulgação Semana On - IA

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O Brasil atingiu no segundo trimestre do ano a taxa de desemprego de 5,8%. É o menor patamar já registrado pela série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. O dado faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta quinta-feira (31). O levantamento mostra ainda que o país bateu recorde de emprego com carteira e salário do trabalhador.

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A menor taxa de desocupação pertencia a novembro de 2024, com 6,1%. No primeiro trimestre de 2025, o índice estava em 7%. Já no segundo trimestre de 2024 era 6,9%.

No conjunto de três meses encerrado em junho, o país tinha 102,3 milhões de trabalhadores ocupados e cerca de 6,3 milhões desocupados. O número de pessoas à procura de trabalho representa recuo de 17,4% (menos 1,3 milhão de pessoas) ante o primeiro trimestre. Já o número de ocupados subiu 1,8% de um trimestre para o outro, o que significa 1,8 milhão de pessoas a mais trabalhando no país.

O contingente de pessoas com carteira assinada no setor privado atingiu 39 milhões de pessoas, crescimento de 0,9% ante o primeiro trimestre do ano e o maior já registrado pelo IBGE. O número de trabalhadores sem carteira também cresceu (+2,6%), chegando a 13,5 milhões.

Brasil tem saldo positivo de 148,9 mil empregos com carteira assinada

O Brasil fechou o mês de maio com saldo positivo de 148.992 postos de trabalho com carteira assinada. O balanço é do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) divulgado na segunda-feira (30), em Brasília, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

No acumulado do ano, de janeiro a maio, o país gerou 1.051.244 mil novas vagas, um crescimento de 2,3%. O estoque de empregos formais no país é de 48.251.304.

O resultado do mês passado decorreu de 2.256.225 admissões e de 2.107.233 desligamentos no período. Os cinco grupamentos principais resultaram em geração positiva de empregos, liderado pelo setor serviços com saldo de 70.139, seguido por comércio, com 23.258.

Na indústria, foram 21.569 novos empregos gerados, enquanto na agropecuária o saldo positivo foi de 17.348 e, na construção civil, o número de novos empregos gerados é de 16.678.

Entre os estados, os maiores geradores de emprego foram São Paulo (+33.313), Minas Gerais (+20.287) e Rio de Janeiro (+13.642). O maior crescimento relativo ocorreu no Acre, com variação de 1,24%. O saldo negativo foi verificado apenas no Rio Grande do Sul, com total negativo de 115 vagas de emprego.

No mês de maio, a geração de postos foi mais positiva para mulheres (78.025) do que para os homens (70.967). O crescimento também foi verificado para os jovens de 18 a 24 anos (98.003), sendo maior a geração de empregos no comércio (35.901) e na indústria da transformação (20.287).

“Dos 148 mil [postos de trabalho], nós temos a esmagadora maioria de jovens. Então, derruba por terra essa certeza de muita gente de que os trabalhadores jovens não estão aceitando ir para o mercado de trabalho”, disse o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho.

Segundo ele, o que mais afasta os jovens do mercado formal são os baixos salários oferecidos. O ministro defendeu uma revisão dos pisos salariais para atrair mais os jovens ao mercado de trabalho com carteira assinada.

O emprego também foi maior para pessoas com nível médio (113.213) e para pardos (116.476). Ao grupo PCD (Pessoas com Deficiência), o saldo ficou positivo em 902 postos de trabalho.

O salário médio real de admissão em maio foi de R$ 2.248,71, uma queda de meio por cento no salário médio do mês anterior.

Pesquisa atualizada

A Pnad divulgada ontem (31) é a primeira que apresenta ponderação com base em dados apurados pelo Censo 2022. A mudança consiste em um ajuste da amostra representativa de domicílios visitados pelos pesquisadores do IBGE. A atualização é praxe de órgãos de estatísticas em todo o mundo.

A pesquisa do IBGE apura o comportamento no mercado de trabalho para pessoas com 14 anos ou mais e leva em conta todas as formas de ocupação, seja emprego com ou sem carteira assinada, temporário e por conta própria, por exemplo. Só é considerada desocupada a pessoa que efetivamente procura emprego. São visitados 211 mil domicílios em todos os estados e no Distrito Federal.

A taxa de informalidade – proporção de trabalhadores informais na população ocupada – foi de 37,8%. É a menor registrada desde igual trimestre de 2020 (36,6%). O IBGE aponta como informais os trabalhadores sem carteira e os autônomos e empregadores sem CNPJ. Essas pessoas não têm garantidas coberturas como seguro-desemprego, férias e décimo-terceiro salário.

O contingente de desalentados, pessoas que sequer procuram emprego por avaliarem que não conseguirão, fechou o segundo trimestre em 2,8 milhões, menor nível desde 2016.

Salários

O mercado de trabalho aquecido pode ser sentido no bolso do trabalhador. O IBGE revelou que o rendimento médio mensal atingiu R$ 3.477, o maior já apurado. Esse valor fica 1,1% acima do recebido no primeiro trimestre do ano e 3,3% maior que o do segundo trimestre do ano passado.

O maior número de pessoas ocupadas e o recorde no rendimento fizeram com que a massa de rendimentos – o total de dinheiro que os trabalhadores recebem – também atingisse o ponto mais alto já alcançado, R$ 351,2 bilhões. É dinheiro que termina movimentando a economia, seja em forma de consumo ou poupança. Esse patamar supera em 5,9% (R$ 19,7 bilhões) o montante do mesmo trimestre de 2024.

Nível de emprego resiste a impacto do juro alto, dizem especialistas

A economia brasileira permanece aquecida, o que faz com que o mercado de trabalho ainda não tenha sofrido os efeitos contracionistas da política monetária, representada pelos juros altos. Pelo contrário, o Brasil está criando empregos, avaliam economistas, com base em dados da Pnad Contínua.

O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec, disse que a taxa de desocupação pela primeira vez abaixo de 6% foi uma “bela surpresa”. Esperava-se crescimento, e não diminuição, afirmou.

Braga considerou o índice surpreendente pelo fato de ser alcançado em período de alta dos juros, especificamente da Selic, que impacta as demais taxas de juros da economia. Atualmente a Selic está em 15% ao ano.

“O resultado é surpreendente na medida que, não apenas com relação ao desemprego absoluto, mas, em todas as formas de cruzamento, veio muito positivo: houve aumento da contratação de pessoas com carteira assinada, diminuição da informalidade e aumento da remuneração média do trabalhador.”

A Pnad Contínua apontou taxa de informalidade ─ proporção de trabalhadores sem direitos trabalhistas na população ocupada – de 37,8% no segundo trimestre, a menor taxa, desde igual trimestre de 2020 (36,6%).

Freio do BC

A taxa de juros básicos da economia (Selic) é decidida a cada 45 dias pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) e consiste na principal forma de a instituição perseguir a meta de inflação estipulada pelo governo, atualmente em 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p.) para mais ou para menos.

Desde setembro de 2024, a inflação oficial calculada pelo IBGE está acima do limite máximo da meta, de 4,5%. Em junho, o acumulado de 12 meses do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 5,35%. O estouro da meta explica por que o BC tem deixado a Selic em níveis elevados.

A trajetória ascendente começou em setembro de 2024, quando o Copom começou a subir a Selic, até então em 10,5% ao ano. Em junho, o juro chegou a 15%, maior patamar desde julho de 2006 (15,25%). A mais recente reunião do Copom, na última quarta-feira (30), manteve a taxa neste patamar.

Uma face do juro alto é o efeito contracionista, que combate a inflação. A elevação da taxa faz com que empréstimos fiquem mais caros – seja para pessoa física ou empresas ─ e desestimula investimentos, uma vez que pode valer mais a pena manter o dinheiro investido, rendendo juro alto, do que arriscar em atividades produtivas.

Esse conjunto de efeitos freia a economia. Daí vem o reflexo negativo: menos atividade tende a ser sinônimo de menos emprego e renda. De acordo com o BC, o efeito da Selic na inflação leva de seis a nove meses para se tornar significativo.

Resistência

O economista Rodolpho Tobler, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que o cenário econômico se comporta de forma “contraditória”.

“Parece um pouco contraditório esse resultado, dado que a gente vive um momento macroeconômico muito complexo, com taxa de juros em patamar bastante elevado, mas o mercado de trabalho tem seguido o ritmo do que se tem visto da atividade econômica. Enquanto a economia gira em ritmo forte, a taxa de desemprego e o mercado de trabalho vão na mesma linha”, completa Tobler.

Motores

O economista Sandro Sacchet, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão ligado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, considera “normal o mercado de trabalho demorar a responder as variações na Selic, tanto para baixo quanto para cima”.

Sacchet aponta dois motivos que ajudam a explicar a demora para o nível de emprego sentir os freios do juro alto. Um deles é a manutenção dos valores mais altos do programa de transferência de renda Bolsa Família em R$ 600. A quantia era paga de forma emergencial durante a pandemia de covid-19 e tornou-se definitiva em 2023.

“Isso faz com que o mercado de trabalho responda mais ao consumo das famílias e menos ao investimento das empresas”, explica. “O mercado de trabalho consegue se sustentar por causa do consumo das famílias e da manutenção da renda por conta de um benefício do Bolsa Família maior”, completa.

Outro fator, na visão do pesquisador especializado em temas como emprego e renda, é a maior inserção de trabalhadores por conta própria na economia. Segundo a Pnad, o contingente de pessoas que trabalham por conta própria soma 25,7 milhões, o maior já apurado.

Segundo a coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, Adriana Beringuy, entre 75% e 80% deles não têm CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), são informais. “Isso torna também o mercado de trabalho mais dependente do consumo das famílias e menos de investimento de empresas formais”, assinala.

“Essa mudança estrutural do mercado de trabalho ajuda a explicar um pouco por que a ocupação e a renda têm respondido de forma ainda mais devagar aos movimentos da taxa de juros”, complementa.

Entretanto, Sacchet ressalta que o nível de emprego não é imune à Selic mais alta. “Com o tempo, vai acabar afetando a taxa de desemprego”.

Próximos meses

Para o economista Rodolpho Tobler, ao longo dos próximos seis meses, e também em 2026, talvez não se consiga manter esse ritmo de crescimento do mercado de trabalho, pois a economia tende a “esfriar”.

De acordo com Tobler, já existem alguns dados mostrando um início de desaceleração da atividade econômica. “Então, é natural que o mercado de trabalho desacelere um pouco”, diz o coordenador das sondagens empresariais e de indicadores de mercado de trabalho do Ibre.

“A gente não espera que a taxa de emprego suba muito, que o comércio tenha uma grande demissão em massa. A gente espera só que o emprego não continue nesse mesmo ritmo tão forte, como se observa desde 2023, especialmente 2024, e agora essa primeira metade do ano”, conclui.

Sandro Sacchet diz esperar “pequena elevação” na taxa de desemprego, que já voltaria a cair no fim do ano, com as contratações de Natal. “A taxa de desemprego deve permanecer em níveis menores que do ano passado até o final de 2025”, estima.

Entidades do setor produtivo criticam manutenção dos juros em 15%

A manutenção da Taxa Selic (juros básicos da economia) em 15% ao ano recebeu críticas do setor produtivo. Para entidades da indústria, do comércio e centrais sindicais, a alta prejudicará a produção e o investimento.

Em nota, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, classificou de “insuficiente e equivocada” a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo ele, os juros altos vão sufocar a economia. Segundo ele, medidas como a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) equivalem, na prática, a um aumento de juros, e o tarifaço dos Estados Unidos pode resultar em menos inflação no Brasil.

“Já tivemos o aumento do IOF sobre as operações de crédito e câmbio e a elevação das tarifas dos EUA sobre as nossas exportações. A alta do IOF sobre o crédito vai aumentar em R$ 4,9 bilhões o custo para as indústrias, enquanto as tarifas dos EUA podem causar queda na produção industrial e a perda de milhares de empregos no país. O momento pede uma política monetária mais favorável. Precisamos de menos juros e mais crescimento”, destacou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Para a Associação Paulista de Supermercados (Apas), as tensões internacionais tornam a política monetária mais desafiadora. Mesmo assim, a entidade considera alto o nível dos juros atuais.

“Diante dessa conjuntura, a nossa preocupação é a manutenção da taxa de juros nesse patamar. O Brasil tem uma das maiores taxas reais de juros do mundo. A manutenção da taxa Selic em 15% nessa conjuntura irá prejudicar os investimentos, o consumo das famílias; aumentará o custo do crédito e afetará diretamente o nível de atividade econômica do país”, ressaltou o economista-chefe da entidade, Felipe Queiroz, em comunicado.

A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) informou que a decisão do Banco Central veio em linha com as expectativas de mercado. Apesar de reconhecer que os juros estão altos, a entidade avalia que a inflação continua acima da meta de 4,5% em 12 meses.

“Apesar da desaceleração gradual da atividade econômica interna e da valorização do real, que tendem a diminuir a pressão sobre os preços, a inflação acumulada se mantém muito acima da meta anual, num contexto de expansão fiscal, expectativas inflacionárias ainda desancoradas e maiores incertezas externas, derivadas da política comercial norte-americana, justificando uma política monetária mais cautelosa”, explicou o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da ACSP.

Centrais sindicais

A decisão do BC também foi mal recebida pelas centrais sindicais. Para a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o BC dificulta a vida das famílias com a nova elevação da Selic e mantém o esquema que transfere recursos dos consumidores, das empresas e do Estado para o setor financeiro.

“O Banco Central diz que tem que manter a taxa de juros alta para controlar a inflação. Mas a Selic não é o único instrumento de controle de preços e nem funciona para os tipos de inflação que o Brasil enfrenta. O que a Selic elevada faz é manter o Brasil na liderança do ranking com os maiores juros do mundo, penalizando a população”, destacou a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira.

Em nota, a Força Sindical, destacou que os juros altos favorecem apenas os especuladores e prejudicam o trabalhador. “Lamentamos e consideramos absurdo manter a taxa em patamar tão elevado. Entendemos que o Banco Central perdeu uma ótima oportunidade de aproveitar-se do encolhimento da demanda mundial para fazer uma drástica redução na taxa de juros, que poderia funcionar como um estímulo para a criação de novos empregos e para o aumento da produção no país”, criticou o presidente da entidade, Miguel Torres.

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