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Brasil

STF investiga lucro bilionário antes de tarifaço de Trump

Movimentações de bilhões minutos antes das sanções levantam suspeitas

Publicado em 23/07/2025 2:04 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma nova investigação sigilosa para apurar operações de câmbio consideradas atípicas realizadas horas antes do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, em 9 de julho. A suspeita central: uso de informação privilegiada para manipular o mercado financeiro e lucrar com a valorização do dólar, em possível articulação com agentes políticos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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A ordem atende a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) e será incorporada ao Inquérito 4995, que já apura se o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro usou sanções comerciais como instrumento de coação contra o STF — parte de uma série de ofensivas institucionais promovidas pelo núcleo político bolsonarista durante e após o mandato de seu pai. Agora, a investigação entra em terreno sensível: o das operações cambiais envolvendo bancos, corretoras e possíveis insiders com acesso prévio a decisões geopolíticas tomadas em Washington.

Lucro de minutos, suspeita de meses

Às 16h17 do dia 9 de julho, o então presidente norte-americano Donald Trump anunciava a imposição de tarifas de 50% sobre determinados produtos brasileiros, em retaliação a políticas comerciais adotadas pelo Brasil. Mas o mercado parecia já saber de antemão: entre 11h30 e 12h45 daquele dia, foram negociados R$ 6,6 bilhões em contratos futuros de dólar — quase 10% do volume total do pregão, em um intervalo de apenas 75 minutos. O pico veio às 11h38, com o BTG Pactual intermediando 10 mil contratos, no valor de R$ 2,7 bilhões.

A escalada de ordens grandes e concentradas em curtíssimo espaço de tempo, num dia de baixa liquidez, chama atenção até dos especialistas mais acostumados com o sobe-e-desce do mercado. “Mil contratos já chamam atenção. Acima de 4 mil é raro. Uma sequência dessas não é comum”, observou a analista de câmbio Deborah Magagna, em entrevista ao g1.

Para a AGU, há indícios consistentes de que parte dos agentes envolvidos nessas movimentações tinha conhecimento prévio da decisão norte-americana — informação que só deveria se tornar pública à tarde. Trata-se, portanto, de uma potencial prática de insider trading, ou uso de informação privilegiada para obtenção de lucro, crime previsto na Lei nº 6.385/76 e na Instrução CVM 358.

Política externa como ferramenta de especulação

O caso remonta ao cenário político de aproximação entre a família Bolsonaro e a administração Trump, marcada por alinhamentos ideológicos e negociações bilaterais opacas. Eduardo Bolsonaro, que chegou a ser cotado para a embaixada brasileira em Washington, se consolidou como elo informal entre os dois governos. Agora, a investigação busca esclarecer se houve uso deliberado dessa posição para antecipar-se ao mercado e beneficiar operadores com acesso direto ou indireto ao núcleo político do Planalto.

O economista e ex-banqueiro Eduardo Moreira, fundador do Instituto Conhecimento Liberta, vê risco sistêmico na banalização do acesso desigual à informação. “Insider trading fere o princípio da isonomia: todos os participantes do mercado devem ter acesso às mesmas informações ao mesmo tempo”, explicou durante edição do ICL Notícias. E completou: “Esse tipo de manipulação, mesmo sem um ato formal de corrupção, compromete a confiança no sistema financeiro como um todo.”

A crítica remete a uma dimensão mais profunda: a instrumentalização da política externa e da instabilidade cambial como ferramentas de ação política. Segundo Moreira, “o grande lance para quem é insider é saber como usar essa informação sem que ela seja corruptível” — apontando que estratégias como as de Donald Trump, que em diversos momentos usou redes sociais para sinalizar variações no dólar, criam janelas de oportunidade para agentes atentos ou alinhados com o poder.

O mercado como palco e máscara

A movimentação do dólar não é só um fenômeno técnico. Em países com histórico de instabilidade econômica como o Brasil, ele atua como sensor de confiança, medidor de risco político e ferramenta de extração de riqueza. A economista norte-americana Susan Strange, em sua obra Casino Capitalism, já alertava que “os mercados financeiros deixaram de ser meros reflexos da economia real e passaram a moldá-la com base em apostas e percepções de poder”.

No episódio do tarifaço, essa lógica parece ter sido elevada à enésima potência. O dólar, símbolo da soberania financeira dos Estados Unidos, foi manipulado em duas pontas: como arma diplomática por Trump e como ativo de lucratividade por operadores que teriam recebido sinais precoces.

Ao rastrear as ordens gigantescas feitas por corretoras como BTG Pactual, BGC Liquidez, Tullett Prebon, Renascença e XP Investimentos, o STF quer descobrir quem se beneficiou e por que. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também foi acionada pela AGU para apurar o caso na esfera administrativa e civil, com possibilidade de punições a agentes e instituições envolvidas.

A estrutura das transações — com ordens gigantes feitas às vezes pelo mesmo player em ambos os lados da operação — pode ter sido usada para mascarar a identidade dos beneficiários finais. Trusts, holdings, fundos offshore e plataformas de intermediação complexas dificultam o rastreamento. “Toda operação financeira deixa rastros, mas identificar o dono final do lucro é uma tarefa que exige cooperação internacional e quebra de sigilos múltiplos”, diz Moreira.

Um caso exemplar do bolsonarismo econômico

O episódio reforça o padrão observado em outras frentes de investigação do bolsonarismo: o uso instrumental do Estado — e de sua influência — para fins particulares, financeiros ou políticos. A retórica antissistema conviveu com alianças profundas com o capital financeiro, que em momentos-chave soube operar as margens da legalidade para maximizar ganhos. O próprio Eduardo Bolsonaro já foi investigado por usar sua posição para intermediar contratos internacionais e beneficiar aliados políticos e econômicos.

Se confirmadas as suspeitas, o caso do tarifaço pode se tornar um dos episódios mais escandalosos da história recente do mercado financeiro brasileiro — não apenas por seu potencial de lucro indevido, mas por mostrar como decisões diplomáticas de alto impacto podem ser manipuladas com fins de enriquecimento privado.

A reconstrução da confiança pública

A gravidade da denúncia exige resposta firme das instituições. Em democracias maduras, a confiança no mercado financeiro depende da percepção de que as regras são iguais para todos. Insider trading rompe esse pacto e transforma a arena econômica em um jogo de cartas marcadas. Como lembra o jurista norte-americano Cass Sunstein, “transparência e justiça procedimental não são apenas virtudes administrativas — são pré-condições para a legitimidade democrática”.

Para o STF, a investigação entra agora na fase mais complexa: a rastreabilidade. Mas a dimensão simbólica já está dada. Se houve manipulação da política externa brasileira para beneficiar operadores em minutos de vantagem cambial, não se trata apenas de especulação: é captura de Estado.

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