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Brasil

Soja brasileira em alta

Com escalada nas tarifas sino-americanas e produção histórica, Brasil assume protagonismo estratégico no setor

Publicado em 11/04/2025 3:21 - Semana On

Divulgação Semana On

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A guerra comercial entre China e Estados Unidos, reacendida por novos embates tarifários, vem remodelando o tabuleiro do comércio internacional — e o Brasil, com uma safra recorde de soja em mãos, desponta como peça-chave neste novo arranjo geopolítico. Em um movimento acelerado e atípico, Pequim aumentou substancialmente suas compras do grão brasileiro, desviando-se da produção americana em meio às incertezas impostas pela política protecionista de Washington. Combinando colheita farta, câmbio favorável e condições climáticas positivas, o país vive um momento de virada estratégica no agronegócio global.

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Segundo a Bloomberg, pelo menos 2,4 milhões de toneladas de soja brasileira foram contratadas por compradores chineses no início de abril — volume equivalente a quase um terço da demanda mensal da China. O movimento foi classificado pela agência como “excepcionalmente grande e rápido”, sinalizando uma reorganização das cadeias globais de abastecimento diante da crescente tensão entre as duas maiores economias do planeta.

Esse redesenho no comércio da soja insere-se numa conjuntura em que o Brasil, já líder mundial em exportação do grão, amplia ainda mais sua oferta ao mercado externo. O 7º Levantamento da Safra 2024/25, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), projeta uma produção recorde de 167,9 milhões de toneladas de soja, um salto de mais de 20 milhões de toneladas em relação à safra passada. Esse crescimento é sustentado por uma área plantada ampliada (81,7 milhões de hectares) e produtividade média em alta — 3.808 kg/ha no Centro-Oeste, com destaques como Goiás (4.122 kg/ha) e Mato Grosso (3.897 kg/ha).

Entre o campo e a geopolítica

O pano de fundo dessa transformação passa pela reconfiguração das relações econômicas internacionais. Desde 2018, a rivalidade entre China e EUA deixou de ser apenas uma disputa comercial para se tornar uma luta por hegemonia global. A política de tarifas iniciada por Donald Trump e mantida com nuances por Joe Biden intensificou o processo de desacoplamento econômico sino-americano. Neste cenário, a segurança alimentar tornou-se uma dimensão estratégica, como observam estudiosos das relações internacionais.

“O comércio de commodities é hoje um instrumento de poder. Controlar a oferta de alimentos básicos, como a soja, é tão estratégico quanto controlar chips ou petróleo”, avalia o historiador e cientista político Odd Arne Westad, professor da Universidade de Yale, em artigo publicado na Foreign Affairs.

Para a China, maior consumidor mundial de soja, garantir um fornecimento estável do grão é essencial, sobretudo para manter sua gigantesca produção de suínos e aves. E diante da instabilidade nos EUA, a preferência por fornecedores como o Brasil tende a se intensificar. Contudo, há limitações estruturais a essa substituição. Como a safra brasileira é colhida no primeiro semestre, e a americana no segundo, Pequim ainda dependerá de compras nos EUA para garantir seu abastecimento anual completo.

Safra histórica e força cambial

Do lado brasileiro, os dados reforçam o bom momento. Segundo a Conab, até 6 de abril, 85% das lavouras de soja da safra 2024/25 já haviam sido colhidas, com destaque para Mato Grosso (99,5%) e Goiás (97%). Mesmo no Rio Grande do Sul, onde o ritmo ainda é mais lento (35%), a perspectiva é de avanço nas próximas semanas.

Esse cenário é reforçado pela análise do Cepea/USP, que aponta crescimento significativo nas negociações no mercado spot no fim de março. A valorização do dólar frente ao real tem ampliado a competitividade da soja brasileira no exterior, ao mesmo tempo em que os produtores buscam liquidez para financiar o próximo ciclo. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior indicam que, só até 21 de março, o Brasil já havia exportado 10,25 milhões de toneladas, um aumento de 59,5% em relação a fevereiro, com média diária 25,2% maior que a do mesmo mês em 2024.

Esse dinamismo não se restringe à soja. A Conab projeta uma produção total de grãos de 330,3 milhões de toneladas na safra 2024/25, um crescimento de 10,9% sobre a safra anterior. O milho deve alcançar 124,7 milhões de toneladas e o algodão, 3,9 milhões — ambos com estimativas de aumento tanto no consumo interno quanto nas exportações. Até mesmo culturas menos visadas, como o arroz e o feijão, apresentam incrementos relevantes na produtividade e na oferta.

O dilema da dependência e o risco ambiental

Apesar do otimismo do setor, o fortalecimento da posição brasileira no comércio global de grãos carrega dilemas importantes. O primeiro deles é a dependência crescente da demanda chinesa. Hoje, mais de 70% das exportações brasileiras de soja têm a China como destino. Essa concentração, embora lucrativa no curto prazo, expõe o país a riscos geopolíticos e de mercado, caso haja mudanças abruptas nas políticas de importação chinesas.

Outro ponto crucial é o impacto ambiental da expansão do agronegócio. O avanço da fronteira agrícola para áreas de cerrado e floresta amazônica continua sendo motivo de alerta para ambientalistas e cientistas. “A produtividade brasileira é notável, mas precisa estar acompanhada de práticas sustentáveis. Caso contrário, os ganhos econômicos de hoje podem ser ofuscados por sanções comerciais e danos irreversíveis ao meio ambiente”, afirma Carlos Nobre, climatologista e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Um gigante no espelho

A ascensão da soja brasileira no mercado internacional, catalisada pela crise sino-americana, é um reflexo do novo papel que o Brasil pode — e deve — desempenhar no sistema internacional. Mas esse protagonismo exige responsabilidade. As decisões políticas, econômicas e ambientais tomadas agora determinarão se o país será reconhecido apenas como um celeiro do mundo ou como uma liderança global comprometida com a sustentabilidade, a democracia e a equidade.

Em tempos de turbulência nas grandes potências, o Brasil encontra, no campo, uma oportunidade de se posicionar não apenas como exportador, mas como ator estratégico no futuro das cadeias globais de alimentos. Cabe a nós decidir como aproveitar essa chance — e com quais valores.

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