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Brasil
Envelhecimento da população desafia um país ainda desigual
Publicado em 28/04/2025 9:45 - Semana On
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Em 2024, enquanto o Brasil celebrava a criação de quase 1,7 milhão de novos postos de trabalho — crescimento de 16,5% em relação ao ano anterior, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) —, um dado sombrio passou quase despercebido: entre trabalhadores com mais de 50 anos, 160 mil vagas foram extintas. A contradição expõe um abismo geracional: ao mesmo tempo que a economia se recupera, uma parcela crescente da população se vê “sem-sem” — sem emprego e sem aposentadoria.
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O envelhecimento populacional, já documentado pelo Censo de 2022 do IBGE, é acelerado: o número de idosos cresceu 57,4% em 12 anos. Até 2100, mais de 50% dos brasileiros serão idosos. No entanto, o mercado de trabalho continua refletindo padrões de exclusão. Como resume o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, “estamos fazendo uma transição demográfica em 50 anos, algo que levou 200 anos na França” (Fonte: Agência IBGE Notícias).
Essa velocidade impõe pressões inéditas sobre políticas públicas, previdência, saúde e relações sociais. Para Alves, trata-se de um desafio que exige reconfiguração do pacto social: “para os gestores, para as famílias e para as próprias pessoas”.
A substituição de trabalhadores 50+ por mão de obra jovem e barata é uma das manifestações mais cruéis do etarismo no Brasil. A pandemia de Covid-19 agravou esse processo, acelerando demissões e marginalização de profissionais mais velhos. Ana Karla Cantarelli, pesquisadora em desenvolvimento de pessoas, alerta: “Além do etarismo, há forte exigência por atualização profissional. O futuro do trabalho não tem idade, ele exige competência” (Fonte: Valor Econômico, 2024).
Geisomar Pires, contador de 58 anos, viveu essa realidade. Após perder seu emprego de gerente administrativo, tentou empreender, sofreu com a pandemia e voltou ao mercado formal, mas com salários muito inferiores aos que recebia. Sua história ilustra um dilema estrutural: mesmo com experiência e qualificação, trabalhadores maduros encontram portas fechadas.
A promessa (ainda distante) da economia prateada
Com um potencial de consumo de 2 trilhões de reais anuais no Brasil, segundo a consultoria Data8, a chamada “economia prateada” representa uma das maiores oportunidades de mercado no mundo. Globalmente, movimenta 7,1 trilhões de dólares por ano.
Empresários atentos já começam a explorar o nicho. Fábio Alves, fundador da 3i Residencial Sênior, criou uma rede de moradias assistidas para idosos, expandindo o conceito de cuidado integrado com qualidade de vida. Segundo Alves, “a pessoa contrata o serviço de hospedagem e tem suporte clínico, fisioterápico e atividades recreativas”. A iniciativa revela como a transformação demográfica pode, também, gerar inovação econômica e social.
Entretanto, como adverte José Dari Krein, professor da Unicamp, “não basta apostar no consumo; é preciso assegurar condições dignas de trabalho para os 50+, aproveitando sua experiência em um mercado cada vez mais precarizado”.
Previdência: um futuro de exclusão
Enquanto os postos de trabalho desaparecem, o sonho da aposentadoria também se distancia. Eduardo Fagnani, economista da Unicamp e autor de Previdência: o Debate Desonesto (Ed. ContraCorrente), é categórico: “Grande parte da população formal não conseguirá atingir o tempo de contribuição exigido pelas novas regras. O cenário para 2060 é o de uma massa de velhos desassistidos frequentando viadutos e semáforos”.
O problema é estrutural: 50% da população economicamente ativa está fora da contribuição previdenciária — entre desempregados e trabalhadores informais — e a rotatividade do mercado formal impede a consolidação de períodos contínuos de contribuição. “Com a reforma de 2019, o sistema de aposentadoria se tornou ainda mais excludente”, destaca Fagnani.
Além da precarização laboral, outro entrave é o baixíssimo investimento em políticas públicas para idosos: apenas R$ 15 milhões em 2024, segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa.
Saúde pública sob pressão
O envelhecimento também altera profundamente a demanda por serviços de saúde. Como aponta o ex-ministro Arthur Chioro, dois terços dos óbitos no Brasil já decorrem de doenças crônico-degenerativas — hipertensão, diabetes, Alzheimer, Parkinson e câncer —, resultado da longevidade recém-conquistada. “Precisaríamos priorizar cuidados desde a infância para garantir envelhecimento saudável”, defende Chioro (Fonte: Agência Senado).
Para o também ex-ministro José Gomes Temporão, há urgência em reorganizar o sistema de saúde: “Hoje ele é voltado para emergências. Precisamos de atenção primária forte, programas de controle de doenças crônicas e uso intensivo de tecnologias como telessaúde e inteligência artificial”.
Além disso, Temporão reforça a necessidade de uma política industrial estratégica para a produção nacional de medicamentos, reduzindo a atual dependência de insumos estrangeiros.
Se medidas estruturantes não forem tomadas, o Brasil enfrentará uma crise social de dimensões inéditas. Como alerta Fagnani, “não se trata de um colapso fiscal, mas de um colapso social gravíssimo”. Sem empregos, sem aposentadoria e sem políticas públicas eficazes, milhões de idosos estarão condenados à pobreza extrema.
A metáfora dos “sem-sem” ilustra a falência de um pacto geracional que, até agora, preferiu fechar os olhos para a urgência do envelhecimento populacional. A resposta a esse desafio definirá o futuro não apenas da terceira idade, mas da própria democracia brasileira.
Envelhecimento da população desafia um Brasil ainda desigual
A aposentada Maria Aparecida Mendonça Leite, 88 anos, é uma imagem viva da revolução silenciosa que atravessa o Brasil: um país que envelhece rapidamente sem ter construído, de fato, a estrutura econômica e social para acolher sua nova maioria. “Minha vida é ocupada. Não tenho tempo de ficar muito à toa, não”, afirma, com a disposição de quem ainda pratica ginástica, lê, viaja e mantém vida espiritual ativa. Mas o caso de Maria, moradora independente de Belo Horizonte, está longe de ser a regra. O avanço da idade no Brasil lança luz sobre desigualdades históricas, revela a fragilidade dos sistemas de proteção social e expõe a necessidade de repensar a própria ideia de velhice em uma sociedade ainda obcecada pela juventude.
Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), a proporção de idosos no Brasil praticamente dobrou em duas décadas, saltando de 8,7% para 15,6% da população. A projeção é que, em 2070, cerca de 38% dos brasileiros terão mais de 60 anos. A pirâmide etária, tradicionalmente larga na base e estreita no topo, caminha para uma inversão definitiva. Para o sociólogo José Pastore, da Universidade de São Paulo (USP), o cenário é desafiador: “O Brasil ficou velho antes de ficar rico” — ou seja, envelhecemos sem alcançar o desenvolvimento econômico que permitiria assegurar qualidade de vida à maioria dos idosos.
Esse descompasso se reflete nas tensões que já pressionam o sistema de saúde, a previdência social e o mercado de trabalho. A historiadora Mary Del Priore, autora de Uma história da velhice no Brasil, ressalta que o Estado brasileiro terá que fazer “malabarismos” para garantir aposentadorias, reforçar o Sistema Único de Saúde (SUS) e investir em formação de especialistas em gerontologia, uma ciência que, como lembra Priore, “tem pouco mais de cem anos”.
Raízes de uma desigualdade histórica
As bases da previdência social no Brasil já nasceram marcadas pela exclusão. Inspirado em modelos europeus, o monarca João VI criou no início do século XIX sistemas de pensão restritos aos militares. A previdência pública propriamente dita só surgiu em 1888, ainda de forma seletiva, beneficiando servidores considerados essenciais para o Império. A Lei Eloy Chaves, de 1923 — considerada o embrião da previdência moderna no país — também nasceu voltada a um grupo específico: os ferroviários, cuja importância estratégica para a economia forçou o governo a agir.
Como analisa a socióloga Natalia Negretti, da Universidade Estadual de Campinas, a aposentadoria “já nasceu desigual” no Brasil, favorecendo apenas trabalhadores formais e ignorando a enorme massa de trabalhadores informais, realidade que, em parte, persiste até hoje.
A Constituição de 1988 e o Estatuto do Idoso, de 2003, representaram avanços fundamentais no reconhecimento dos direitos da população idosa. No entanto, sua implementação prática ainda esbarra em déficits históricos de recursos e políticas públicas.
A batalha contra o etarismo e a cultura “jovencêntrica”
Além dos desafios estruturais, há barreiras simbólicas e culturais a serem enfrentadas. O envelhecimento da população evidencia o fenômeno do etarismo — o preconceito contra pessoas idosas —, que se manifesta tanto na exclusão social quanto na limitação de oportunidades. A psicóloga e socióloga Gisela Grangeiro da Silva Castro, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing, alerta: “Ainda temos uma ideia muito preconceituosa sobre envelhecer, com verdadeira obsessão pela juventude, que deixou de ser um valor social para ser um imperativo social”.
Essa “jovencentrismo” cultural marginaliza os idosos, impondo estereótipos que vão de julgamentos sobre capacidade intelectual até a imposição de padrões estéticos e comportamentais. “A velhice está no olhar da juventude”, resume Mary Del Priore, apontando para uma construção social que subestima a experiência e a diversidade do envelhecer.
A invisibilidade dos idosos — paradoxalmente, em expansão demográfica — também revela a falta de adaptação dos espaços urbanos, serviços financeiros e plataformas digitais às necessidades desse público. Melhorar a acessibilidade, a comunicação e o respeito à autonomia são medidas urgentes para garantir a inclusão social dos mais velhos.
Escolha política e social
O envelhecimento da população brasileira não é uma “bomba-relógio”, como às vezes se propaga no debate público, mas um fenômeno natural que exige escolhas políticas maduras. A trajetória histórica mostra que a cidadania plena do idoso no Brasil sempre foi fruto de lutas e avanços lentos. Hoje, a demanda é por uma revolução silenciosa que transforme não apenas leis, mas mentalidades.
Investir em políticas públicas inclusivas, fortalecer o SUS, garantir educação para o envelhecimento e combater o etarismo são caminhos fundamentais. Como escreveu o filósofo Norberto Bobbio, em A Era dos Direitos (1992): “A luta pela efetividade dos direitos é a nova fronteira da democracia.”
Envelhecer no Brasil, em 2025, é resistir contra o esquecimento social e afirmar, dia a dia, o direito humano à dignidade em todas as fases da vida.