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Brasil
Salários abaixo do piso e invisibilidade: o peso da desvalorização estrutural
Publicado em 15/10/2025 10:03 - Semana On
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Pressão, violência e adoecimento: o retrato do magistério no Brasil em 2024 é de colapso psicológico. Entre 2023 e 2024, houve um aumento de 66% na concessão de benefícios previdenciários relacionados à saúde mental para professores da educação infantil ao ensino médio, segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. Por trás dessa estatística, histórias como a de Patrícia*, professora paulista afastada quatro vezes por transtornos mentais, revelam uma crise estrutural ignorada pelo poder público: o magistério está adoecendo — e rapidamente.
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Patrícia, que leciona biologia e ciências há 28 anos, vive hoje em readaptação funcional, longe da sala de aula. Afastada pela última vez em 2023 por Transtorno Misto Ansioso e Depressivo, ela se diz frustrada. “É frustrante, pois me preparei tanto para ser uma boa professora e agora nem professora eu sou mais.” O caso não é isolado. Uma pesquisa da Nova Escola com mais de 5 mil docentes mostrou que 72% relataram sintomas de ansiedade, estresse ou depressão nos últimos dois anos.
A rotina escolar se transformou em um ambiente de alta tensão emocional. Casos de violência verbal e física são frequentes. “Feminista filha da puta” foi a frase ouvida por Laura*, professora de Santa Catarina, após retirar da sala um aluno por mau comportamento. Patrícia também guarda lembranças traumáticas: em 2012, foi agarrada pelo pescoço por uma aluna de 11 anos. “Precisei sair da sala para chorar”, relata. Essas experiências traumáticas muitas vezes são seguidas de silenciamento institucional e ausência de apoio psicológico.
A violência vivida em sala é, muitas vezes, reflexo da violência doméstica. Rafaella Pamela Ferreira, professora em Palhoça (SC), relembra o caso de um aluno de 3 anos que encenava ataques com uma faca de brinquedo. Ao investigar, descobriu que a criança havia presenciado uma tentativa de feminicídio. “Você fica pensativo, com aquele aperto, aquela angústia, achando que não é um profissional bom suficiente”, desabafa. Segundo o Atlas da Violência 2024, 67,8% dos casos de violência contra crianças de 0 a 4 anos acontecem dentro de casa; entre 5 e 14 anos, o índice é de 65,9%.
Para o psicólogo Andrés Eduardo Aguirre Antunez, vice-diretor do Instituto de Psicologia da USP, é preciso compreender a violência escolar como reflexo de uma sociedade adoecida. “A violência que acontece na sala de aula é a que acontece na vida e a criança leva para a escola”, afirma. Segundo ele, o sofrimento psíquico docente é agravado pela sobrecarga e pela constante sensação de fracasso profissional. “Quando não há mais felicidade em dar aula, o risco de adoecimento se multiplica.”
Antes do último afastamento, Patrícia trabalhava 11 horas às terças-feiras e dava 48 aulas semanais. Sentia tremores, fraqueza e crises de ansiedade — um diagnóstico que partiu, ironicamente, de uma aluna do 8º ano. “Ela me disse que eu estava tendo uma crise. Foi quando percebi a gravidade.”
Além da violência, o sucateamento da infraestrutura escolar e as reformas educacionais sem respaldo técnico aprofundam o esgotamento. “Cultura digital é uma das competências do Novo Ensino Médio. A minha escola não tem nem internet. Como é que eu vou aplicar isso?”, questiona Laura. O descompasso entre as exigências pedagógicas e as condições materiais das escolas é recorrente.
Outro fator crítico é o tamanho das turmas. “Não tem como dar conta da demanda emocional e cognitiva de 35 ou 40 alunos por sala”, alerta Ana Luiza Siqueira, professora de sociologia da rede estadual paulista. Ela deixou o magistério por dois anos entre 2007 e 2009, mas retornou. “Não tem como ficar 40 anos trabalhando sem se arrebentar”, diz, referindo-se às mudanças na aposentadoria.
A sensação de abandono se estende à ausência de suporte psicológico institucionalizado. Ferreira aponta o paradoxo: “Temos que entender a criança, a família, os traumas… mas ninguém nos entende. Esse é o maior desafio hoje: a saúde mental.”
As histórias narradas apontam para um problema estrutural e não individual. O sofrimento dos professores não decorre apenas da vocação posta à prova, mas de um modelo educacional que cobra, exige, mas não sustenta. O psiquiatra de Patrícia foi taxativo: “Essa atividade que você exerce vai sempre fazer você piorar.” Ela, no entanto, não vislumbra alternativas. “Eu só sei ser professora.”
Como alerta Antunez, não se trata apenas de cuidar da mente, mas de entender o corpo, o contexto, a política pública. “A gente costuma falar em saúde mental como se o problema estivesse no cérebro. Os problemas mentais acontecem no corpo todo. Eles envolvem uma complexidade maior.”
Diante da escalada de adoecimento, o Brasil precisa encarar a realidade: sem professores saudáveis, não há educação possível.
Salários abaixo do piso e invisibilidade: o peso da desvalorização estrutural
A crise de saúde mental entre professores não se resume à sobrecarga e à violência. A desvalorização profissional — econômica, simbólica e institucional — também adoece. Um levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com a plataforma Equidade.info, revela que um terço dos municípios brasileiros não paga o piso nacional do magistério, hoje fixado em R$ 4.800.
A desigualdade regional agrava o cenário. No Sudeste, 45% dos municípios descumprem o piso — a pior taxa do país. Em contraste, o Nordeste e o Norte apresentam índices mais positivos, com 80% e 73% dos municípios, respectivamente, cumprindo a lei. Ainda assim, o desrespeito à legislação federal escancara o descaso com a valorização docente.
A precarização é ainda mais aguda na educação infantil, onde os profissionais enfrentam um tipo específico de apagamento. “Muitos desses profissionais sequer são considerados professores. Isso afeta diretamente a valorização e o cumprimento dos direitos salariais”, afirma Guilherme Lichand, professor da Stanford Graduate School of Education e coordenador do Equidade.info. A constatação se reflete nos dados: apenas 48% dos gestores escolares de unidades com creche e pré-escola reconhecem formalmente esses educadores como professores.
A maior parte dos gestores (52%) ainda usa termos como “tia” ou “pedagogo”, reforçando um imaginário social que subestima a função docente nas etapas iniciais da educação. No Sul, 99% dos gestores adotam o termo “professor(a)”. No Sudeste, nenhum dos entrevistados fez esse reconhecimento.
Para a deputada Professora Luciene Cavalcante (PSOL-SP), integrante da Frente Parlamentar Mista da Educação, o problema é tanto simbólico quanto estrutural. “Os dados revelam a necessidade urgente de reconhecimento das educadoras que atuam nas creches, assegurando enquadramento na carreira do magistério, formação permanente e um terço da jornada dedicada à capacitação. A valorização deve ser salarial e também incluir outros direitos”, defende.
As disparidades entre as redes de ensino também são marcantes. Enquanto 100% dos gestores das escolas estaduais utilizam a nomenclatura correta, apenas 33% da rede privada fazem o mesmo. Na rede municipal, o índice é de 51%.
Os dados vêm de uma pesquisa aplicada entre maio e setembro de 2025, com 280 gestores escolares de todas as regiões do país. A amostra abrange escolas públicas e privadas, urbanas e rurais, com margem de erro de 5,1 pontos percentuais. O recorte da educação infantil representa 36% das instituições entrevistadas — sendo 4% apenas creche, 6% com creche e pré-escola, e 26% com pré-escola apenas. O Nordeste se destaca na oferta combinada de etapas: 15% das escolas oferecem tanto creche quanto pré-escola.
O desrespeito ao piso, o apagamento simbólico e a precarização das condições de trabalho evidenciam um problema que ultrapassa a sala de aula: a educação infantil, majoritariamente exercida por mulheres, é historicamente invisibilizada. Isso impõe um desafio político e social urgente. Afinal, como alertou o educador Paulo Freire, “ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando”. Mas, para isso, é preciso garantir que os que ensinam possam caminhar com dignidade.
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