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Brasil

Fome no Brasil tem cor, gênero e território

Lula: "A fome não é um problema econômico. É um problema político"

Publicado em 14/10/2025 9:51 - Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert - Abr

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Pretos e pardos chefiam quase três em cada quatro lares em situação de fome no Brasil em 2024. Os dados são da edição especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada na sexta-feira (10) pelo IBGE. A pesquisa mostra que, embora representem 45,1% dos 78,3 milhões de domicílios do país, pessoas pretas e pardas estão à frente de 73,8% dos 2,5 milhões de residências com insegurança alimentar grave — ou seja, aquelas onde a fome foi efetivamente vivida.

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Essa disparidade revela não apenas o recorte racial da fome no país, mas a profundidade das desigualdades estruturais que atravessam o acesso a direitos básicos, como a alimentação. Do total de domicílios em condição de fome em 2024, 1,4 milhão eram chefiados por pessoas pardas e 424 mil por pessoas pretas. Os brancos, que chefiam 41,5% dos lares brasileiros, representam apenas 24,4% dos endereços com fome.

A pesquisa do IBGE coletou informações em todo o território nacional, com base em entrevistas feitas nos domicílios, considerando os hábitos alimentares nos 90 dias anteriores. A classificação da “insegurança alimentar grave” inclui casos em que houve redução drástica ou total de alimentos disponíveis para os moradores, incluindo crianças.

Mulheres na linha de frente da insegurança alimentar

Outro dado alarmante é o recorte de gênero. As mulheres são chefes de 51,8% dos lares brasileiros, mas representam 57,6% dos lares com fome. Quando se considera qualquer grau de insegurança alimentar — leve, moderada ou grave — esse número sobe para 59,9%, indicando que seis em cada dez lares com algum grau de privação alimentar têm mulheres como responsáveis.

Segundo o IBGE, a insegurança alimentar leve é caracterizada pela preocupação com o acesso futuro aos alimentos; a moderada indica redução na quantidade de comida entre os adultos da casa; e a grave, o estágio final, quando a fome se instala.

Para Maria Lucia Vieira, pesquisadora do IBGE, a combinação entre raça, gênero e renda é determinante para entender a desigualdade no acesso à alimentação:

“A gente está falando de domicílios que costumam ter rendimentos mais baixos”, afirma.

Crianças são as mais vulneráveis

A Pnad Contínua revela ainda que 71,9% dos lares em situação de fome ou insegurança alimentar moderada têm renda mensal de até um salário mínimo por pessoa. Entre esses lares, as crianças são as mais afetadas:

– 3,3% das crianças de até 4 anos vivem em lares com fome;

– 3,8% das que têm entre 5 e 17 anos estão na mesma situação;

– Entre os adultos até 49 anos, o índice cai para 2,8%;

– Entre 50 e 64 anos, volta a subir para 3,3%;

– A menor taxa está entre idosos com 65 anos ou mais: 2,3%.

A explicação, segundo Maria Lucia, também passa pelas desigualdades regionais.

“As regiões Norte e Nordeste têm os menores índices de segurança alimentar. São domicílios que têm ainda taxas de fecundidade mais elevadas que as demais regiões”, explica.

Amazônia concentra o “novo foco” da fome

Para José Graziano da Silva, ex-diretor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e idealizador do programa Fome Zero, os dados refletem avanços recentes nas políticas sociais, mas alertam para um novo epicentro da fome no país: a Amazônia.

“O grande foco da fome hoje é a Amazônia. O garimpo e o mercúrio estão destruindo as condições de vida da população. Quando a natureza é devastada, as comunidades que dependem dela para pescar, caçar ou produzir seu alimento perdem a capacidade de se sustentar”, disse Graziano em evento realizado em 12 de outubro.

“Se você quiser salvar vidas, salve o meio ambiente primeiro. Sem floresta, não há alimento para quem vive dela”, afirmou.

Segundo ele, embora o Brasil tenha conseguido certa recuperação desde os piores índices da insegurança alimentar em 2022, sobretudo com a revalorização do salário mínimo e a retomada de políticas sociais, o desafio agora é enfrentar a fome localizada, que afeta comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

Ele aponta que regiões historicamente marcadas pela fome — como o Sertão e a Zona da Mata nordestina — têm apresentado melhora, especialmente com a ampliação do programa Bolsa Família. No entanto, na Amazônia, os fatores ambientais agravam o problema e tornam mais difícil a reversão do quadro.

Desigualdade estrutural e políticas públicas

A pesquisa do IBGE e os alertas de especialistas evidenciam que a fome no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco neutro. Ela segue uma lógica de exclusão que atravessa raça, gênero, classe e território. Apesar de o país estar entre os maiores produtores de alimentos do mundo, a distribuição da comida — e das condições para produzi-la e comprá-la — permanece profundamente desigual.

Os dados reforçam a urgência de políticas públicas que vão além do assistencialismo pontual, e que enfrentem as raízes históricas da fome: o racismo estrutural, a desigualdade de gênero, a concentração de renda e a devastação ambiental. Sem isso, o país continuará alimentando um paradoxo cruel: o de um celeiro que deixa seus próprios filhos com fome.

Queda no número de lares com fome não elimina desigualdades estruturais

Apesar dos dados alarmantes sobre o recorte racial, de gênero e territorial da fome no Brasil, os números gerais da Pnad Contínua 2024 revelam uma melhora significativa no cenário nacional: o número de lares com insegurança alimentar grave caiu 19,9% em um ano, passando de 3,1 milhões em 2023 para 2,5 milhões em 2024.

Com isso, o percentual de domicílios em que a fome foi uma experiência concreta caiu de 4,1% para 3,2%, retornando aos níveis mais baixos da série histórica iniciada pelo IBGE em 2004. Para o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, trata-se de uma conquista histórica:

“Em 2025, o Brasil celebra duas conquistas históricas: a saída do Mapa da Fome e a redução da insegurança alimentar grave ao menor nível da série histórica do IBGE”, afirmou o ministro em nota oficial. “Levamos dois anos para reconquistar uma marca que, no passado, levou dez anos (2003-2013) de construção de políticas públicas para ser alcançada.”, disse Wellington Dias, ministro do Desenvolvimento Social.

A edição especial da pesquisa confirma que 75,8% dos domicílios brasileiros vivem em segurança alimentar, contra 72,4% em 2023. Ao todo, 18,9 milhões de domicílios ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave), o que representa cerca de 54,7 milhões de pessoas. Ainda assim, é uma melhora: em 2023, eram 21 milhões de lares nessa situação.

Avanço depende de políticas públicas e mercado de trabalho

A pesquisadora do IBGE, Maria Lucia França Pontes Vieira, destaca que o avanço é reflexo de uma combinação de fatores: melhora no mercado de trabalho e fortalecimento das políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Segundo ela: “Para adquirir alimentos, vai ser através de renda. Essa renda ou vem do trabalho ou de programas [assistenciais].”.

Ainda que a pesquisa não permita identificar o peso exato de cada fator, há consenso entre os analistas de que a recomposição do salário mínimo, a ampliação da rede de proteção social e a retomada de políticas de segurança alimentar contribuíram de forma decisiva.

Brasil sai novamente do Mapa da Fome

Outro marco relevante é que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da FAO, que lista os países com mais de 2,5% da população em estado de subalimentação grave. A saída do mapa foi celebrada pelo governo federal e por organismos internacionais.

Em 2023, o país lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, buscando liderar, no plano internacional, uma frente multilateral contra a insegurança alimentar.

A mínima histórica em contexto

A Pnad Contínua mostra que, somadas, as duas formas mais graves de insegurança alimentar (moderada e grave) atingiram apenas 7,7% dos lares brasileiros em 2024, o menor índice desde que o levantamento começou. Veja a evolução histórica:

  • 2004: 16,8%
  • 2009: 11,5%
  • 2013: 7,8%
  • 2017/2018: 12,7%
  • 2023: 9,4%
  • 2024: 7,7%

Em paralelo, a segurança alimentar plena chegou a 75,8%, o segundo melhor índice da história, atrás apenas de 2013 (77,4%).

A pesquisadora do IBGE pondera, no entanto, que as metodologias variam entre os levantamentos, o que exige cautela nas comparações diretas. “Não são exatamente diretamente comparáveis, mas a gente consegue, a partir delas, ter uma ideia da evolução da segurança alimentar no país ao longo desse tempo.”

Disparidades persistem

Mesmo com os avanços, a pesquisa confirma que as desigualdades regionais e estruturais continuam marcando o mapa da fome no Brasil. Em áreas urbanas, 23,2% dos domicílios convivem com algum grau de insegurança alimentar. No campo, esse número sobe para 31,4%.

Isso desmonta o senso comum de que morar no meio rural garante o acesso à comida. Segundo Maria Lucia Vieira:

“Pelo conceito de segurança alimentar, a gente está falando de variedade, qualidade e quantidade de alimentos. Quem planta ou cria para se alimentar pode não ter essa variedade, nem quantidade adequada, principalmente em famílias com mais crianças e idosos.”

As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de insegurança alimentar moderada e grave:

  • Norte: 14,1%
  • Nordeste: 12,3%
  • Centro-Oeste: 6,1%
  • Sudeste: 5,5%
  • Sul: 3,8%

Nos extremos, há disparidades gritantes. Enquanto Santa Catarina tem os melhores índices de segurança alimentar (90,6% dos lares), Pará (55,4%) e Roraima (56,4%) apresentam os piores. Nos piores casos de fome (moderada e grave combinadas), os líderes são:

  • Pará: 17,1%
  • Amapá: 16,3%
  • Roraima: 15,9%
  • Amazonas: 14,5%

Avanço real, mas desigual

O recuo da fome no Brasil é um dado positivo e relevante, especialmente diante do retrocesso vivido entre 2015 e 2022, quando a insegurança alimentar voltou a crescer em razão da crise econômica, do desmonte de políticas sociais e da pandemia. No entanto, os recortes da pesquisa deixam claro que a fome não desapareceu — ela se reorganizou.

Ela continua a afetar de forma desproporcional pretos, pardos, mulheres, crianças, populações do campo e habitantes da Amazônia. Como advertiu José Graziano da Silva, criador do Fome Zero: “Quando a natureza é devastada, as comunidades que dependem dela para pescar, caçar ou produzir seu alimento perdem a capacidade de se sustentar.”

Portanto, embora o país tenha saído, mais uma vez, do Mapa da Fome, a fome ainda está no mapa social brasileiro. Combatê-la exige não apenas distribuir comida, mas reparar desigualdades históricas e proteger os territórios onde a vida insiste em resistir.

Lula: “A fome não é um problema econômico. É um problema político”

A melhora nos indicadores de insegurança alimentar no Brasil, embora significativa, está longe de resolver o problema em sua raiz. E para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa raiz é, acima de tudo, política. Durante o Fórum Mundial da Alimentação, promovido pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) em Roma, Lula afirmou que o combate à fome no mundo não esbarra na falta de recursos, mas na falta de vontade política dos governantes.

“Se houver interesse político dos governantes do mundo inteiro, se encontrará um jeito de colocar o café da manhã, o almoço e a janta para o povo pobre do mundo inteiro”, disse Lula.

Segundo o presidente, enquanto o mundo gasta US$ 2,7 trilhões em armamentos, apenas 12% desse valor — cerca de US$ 300 bilhões — seriam suficientes para alimentar os 763 milhões de pessoas que passam fome globalmente. Para ele, o que falta não é tecnologia nem produção de alimentos, mas justiça na distribuição: “Hoje, nós produzimos quase duas vezes o alimento necessário. Não basta produzir, é preciso chegar até as pessoas. E é preciso ter renda.”

Lula encerrou sua fala reafirmando que a desigualdade social será tema constante em sua agenda internacional: “O mundo é desigual porque a economia, tal como ela é pensada, leva a um mundo desigual. Podem gostar ou não gostar, mas, em todos os fóruns em que eu participar, os dirigentes políticos vão me ouvir falar da desigualdade racial, da desigualdade de comida, da desigualdade do salário, da desigualdade de tudo.”

Diplomacia da fome: Brasil assume protagonismo global

A defesa do combate à fome como eixo central da política externa brasileira não se restringe ao discurso. Durante a mesma viagem à capital italiana, o diplomata brasileiro Renato Godinho foi confirmado como diretor executivo da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa internacional lançada sob a presidência brasileira do G20 e que busca articular governos, bancos multilaterais e organizações da sociedade civil para o financiamento de programas sociais em países vulneráveis.

A Aliança funciona como uma espécie de “Tinder contra a miséria”, conectando países com políticas sociais desenhadas a doadores dispostos a financiá-las — modelo que lembra os sistemas de cooperação Sul-Sul com ênfase em protagonismo local.

Até agora, mais de 200 membros integram a iniciativa, entre eles 41 países, 13 organizações internacionais e 18 ONGs e fundações filantrópicas. Entre os países que já anunciaram planos de ação com apoio da Aliança estão Benin, Chile, Equador, Palestina, Peru, Zâmbia, Togo, Tunísia, Omã, Chade, Libéria, Burundi e Nigéria.

Algumas dessas iniciativas incluem a criação de cadastros nacionais de beneficiários — modelo semelhante ao CadÚnico brasileiro —, digitalização de pagamentos e programas de transferência de renda para populações em situação de calamidade, como os idosos e pessoas com deficiência em Gaza, conforme anunciado pela Autoridade Nacional Palestina.

Alvos ambiciosos: 500 milhões de pessoas até 2030

A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza tem metas claras e ambiciosas:

– Alcançar 500 milhões de pessoas com programas de proteção social e transferência de renda;

– Expandir a merenda escolar de qualidade para 150 milhões de crianças em países com fome e pobreza infantil endêmica;

– Oferecer cuidados em saúde materna e primeira infância para 200 milhões de mulheres e crianças de 0 a 6 anos;

– Promover inclusão socioeconômica para 100 milhões de pessoas, com foco especial nas mulheres.

Os aportes virão de múltiplas fontes. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já anunciou US$ 25 bilhões em crédito e mais US$ 200 milhões em doações para assistência técnica. O Brasil, como país anfitrião da iniciativa, já contribui com recursos financeiros e humanos para manter a Aliança em funcionamento.

Brasil tenta influenciar modelo global de combate à fome

A retomada do protagonismo brasileiro em fóruns internacionais sobre segurança alimentar marca o retorno de uma política de Estado iniciada nos anos 2000 com o programa Fome Zero e reforçada por sua atuação na FAO. Agora, com Lula à frente da presidência do país e com o G20 sob comando brasileiro em 2024, o discurso ganha novamente peso institucional e visibilidade internacional.

A presença do presidente brasileiro no Vaticano, onde se reuniu com o papa Leão XIV, reforça essa articulação entre política internacional, justiça social e combate à fome. Lula pediu apoio direto da Igreja Católica à causa da segurança alimentar global.

Avanços, contradições e desafios

A redução histórica da fome no Brasil em 2024, a saída do país do Mapa da Fome e a consolidação da Aliança Global contra a Fome são vitórias concretas em um campo onde as estatísticas, por muito tempo, andaram na contramão da dignidade.

Mas os dados revelados pelo IBGE também deixam claro que a fome não é apenas um problema de acesso a comida. É um reflexo direto das desigualdades raciais, econômicas, territoriais e de gênero. E como bem resumiu Lula em Roma, não se trata apenas de economia — trata-se de decisão política.

O combate à fome exige mais do que caridade: exige vontade política, redistribuição de recursos, proteção ambiental e um novo pacto social que não aceite que, num país capaz de alimentar o mundo, seus próprios filhos sigam dormindo com fome.

ARMADILHA PARA O PAÍS


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