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Brasil

Relatório aponta média de 12 mulheres vítimas de violência por dia no país

Sete em cada dez mulheres relatam já terem sofrido assédio, diz estudo

Publicado em 06/03/2026 9:25 - Agência Brasil

Divulgação Agência Brasil

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A cada 24 horas, 12 mulheres, em média, são vítimas de violência em nove estados acompanhados pela Rede de Observatórios da Segurança: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

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Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (6) e foram produzidos a partir de um monitoramento diário do que circulou nas mídias sobre violência e segurança no ano de 2025.

Ao todo, 4.558 mulheres sofreram algum tipo de violência nos locais incluídos pela pesquisa, número que representa aumento de 9% em relação a 2024.

O levantamento também aponta crescimento expressivo da violência sexual. Foram 961 registros de estupro ou violência sexual em 2025, um aumento de 56,6% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizados 602 casos. Entre as vítimas, 56,5% eram meninas de 0 a 17 anos.

Outro ponto do relatório é a relação entre vítimas e agressores: 78,5% das violências foram cometidas por companheiros ou ex-companheiros. Ou seja, segundo o relatório, a maior parte dos casos acontece “dentro de relações afetivas”.

O estudo contabilizou 546 casos de feminicídio e sete de transfeminicídio. No total, são 1.004 mortes quando considerados homicídios, feminicídios e transfeminicídios.

A publicação também chama atenção para a falta de informações raciais nos registros de violência na mídia. Em 86,7% dos casos, não havia identificação de raça ou cor das vítimas, o que, segundo os pesquisadores, dificulta a elaboração de políticas públicas direcionadas.

Divisão regional

No recorte regional, alguns estados apresentaram indicadores específicos preocupantes. No Amazonas, por exemplo, 78,4% das vítimas de violência sexual eram crianças e adolescentes.

Já o Pará registrou aumento de 76% nos casos de violência, o maior crescimento entre os estados monitorados. No Rio de Janeiro, chama a atenção que 39,1% das ocorrências foram registradas na capital.

Recomendações

O relatório conclui que é necessário ampliar as políticas de prevenção, indo além de respostas policiais e judiciais. Segundo os pesquisadores, as medidas atuais costumam atuar apenas depois que a violência já ocorreu.

Entre as recomendações, estão investimentos em educação sobre equidade de gênero nas escolas, além de ações para desconstruir padrões culturais que naturalizam a violência contra mulheres. A avaliação do estudo é que, sem enfrentar essas estruturas, o ciclo de violência tende a se perpetuar.

“Evocar a vida, em vez da morte, em um documento estatístico que compõe um perturbador inventário das violações, cumpre o papel paradoxal e necessário de romper as ‘máscaras silenciadoras’ e de amplificar vozes de denúncia e resistência que transbordam os números”, comenta Flávia Melo, autora do principal texto desta edição.

Como denunciar

É possível pedir ajuda e denunciar casos de violência doméstica e contra a mulher na Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, um serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

O serviço está disponível também no WhatsApp: (61) 9610-0180 e pelo e-mail [email protected].

Denúncias de violência contra a mulher também podem ser apresentadas em delegacias especializadas de atendimento à mulher (Deam) ou em delegacias comuns e nas Casas da Mulher Brasileira.

Ainda é possível pedir ajuda por meio dos números Disque 100, que recebe casos de violações de direitos humanos, e 190, de ocorrências policiais.

Sete em cada dez mulheres relatam já terem sofrido assédio

Sete em cada dez mulheres dizem já ter sofrido assédio moral ou sexual, principalmente em ruas e espaços públicos. Os dados fazem parte da pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres, lançada na quinta-feira (5).

O levantamento é de autoria do Instituto Cidades Sustentáveis e da Ipsos-Ipec, empresa especializada em pesquisa sociais e de mercado. Foram entrevistadas 3,5 mil pessoas, em dezembro de 2025, nas cidades de Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

“A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, alertou Patrícia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec, durante o lançamento da pesquisa, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP.

Considerando o total de mulheres da amostra (2.066), 71% delas disseram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis locais pesquisados: ruas e espaços públicos, transporte público, ambiente de trabalho, ambiente doméstico, bares/casas noturnas ou transporte particular.

“O espaço público e o transporte público se destacam como os lugares mais hostis para as mulheres, sendo esse um problema recorrente e que limita a nossa liberdade, o nosso direito à cidade”, ressaltou Patrícia.

Apesar da queda em relação a 2014, quando o índice ficou em 74%, e das variações de acordo com as capitais, as entidades realizadoras do estudo consideram que a proporção de mulheres que sofreram assédio permanece elevada e persistente nas dez cidades.

Assédio nas ruas

Ruas e espaços públicos – como praças, parques e praias – são os lugares onde mais ocorrem assédios, sendo citados por 54% das mulheres. Em seguida, aparece o transporte público (citado em 50% das respostas) e, em outro patamar, o ambiente de trabalho (citado por 36% mulheres).

Bares e casas noturnas foram citados por 32%; o ambiente familiar aparece em 26% das menções; e transporte particular como táxi e ou por aplicativo, em 19% das respostas.

A parcela de 5% das mulheres relatou que já sofreu assédio em todos os seis espaços mensurados na pesquisa.

“Embora pareça pouco, a gente está falando de mulheres que vivem em 10 capitais que [concentram] 33 milhões de habitantes, e 5% delas dizem que já sofreram algum tipo de assédio em todos os locais [mencionados]”, acrescentou.

Punição e rede de apoio

A pesquisa abordou ainda ações e medidas prioritárias que devem ser adotadas para combater a violência contra as mulheres.

Aumentar as penas contra os agressores aparece em primeiro lugar, com 55% das menções, seguida da ampliação dos serviços de proteção às vítimas, com 48%. Agilizar o andamento da investigação das denúncias foi uma ação citada por 37% das pessoas.

“A pesquisa aponta para gente um caminho que combina esse desejo da punição e da justiça, mas há necessidade de uma rede de apoio mais robusta”, explicou Patrícia Pavanelli, da Ipsos-Ipec.

Para ela, é preciso aproximar a população dos agentes de segurança e promover treinamento dos funcionários para que possam acolher melhor as mulheres.

“Vale a pena destacar que a gente tem quase três em cada 10 homens hoje dizendo que é prioritário criar políticas de segurança comunitária, aproximando a população dos agentes de segurança.”

Debate com especialistas

A promotora Fabíola Sucasas, titular da Promotoria de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de SP, avalia que o combate à violência contra mulheres não se resolverá pela “via punitivista”.

“Essa ideia de que o direito penal vai dar conta de tudo, de que o homem precisa ser preso, ele precisa ser punido, é uma visão que é patriarcal.”

Ela ressaltou que, embora haja uma demanda por aumento de penas, conforme mostrou a pesquisa, o feminicídio já tem a maior pena prevista no código penal – 40 anos – e isso não tem se refletido na redução desse tipo de crime.

“Isso não tem intimidado [os agressores], muito pelo contrário, o feminicídio tem aumentado e tem aumentado também o descumprimento das medidas protetivas de urgência.”

Para Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, é essencial repensar, a partir de dados como os apresentados na pesquisa, intervenções públicas e mecanismos de proteção para mulheres.

“Muitas mulheres não estão seguras no lar e, quando ela vai para o espaço público, para a rua, o transporte público, ela enfrenta uma insegurança ainda maior.”

A coordenadora destacou o quanto as mulheres estão desprotegidas, apesar das ferramentas já existentes para o combate à violência de gênero.

“Sair de casa tendo que observar que horas que eu estou saindo, que horas que eu vou chegar. Eu saio do meu trabalho pensando nisso: não posso chegar muito mais que dez da noite na minha região. É inseguro para mim, é inseguro para muitas mulheres.”

Tarefas domésticas

O levantamento apurou ainda como homens e mulheres percebem a divisão de tarefas domésticas. No total da amostra, quatro em cada dez entrevistados (39%) disseram que os afazeres de casa são responsabilidade de todos, mas as mulheres fazem a maior parte. Para parcela semelhante (37%), as atividades são divididas igualmente entre homens e mulheres.

Os números variam pouco entre as capitais, mas a percepção muda de forma significativa quando se observa o recorte por gênero: 47% dos homens acham que as atividades domésticas são divididas igualmente, percentual que cai para 28% entre as mulheres.

Além disso, 32% dos homens reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, embora a responsabilidade seja de ambos, enquanto, entre as mulheres, esse percentual sobe para 44%.

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