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Brasil
Apesar dos benefícios ao agro brasileiro, governo resiste a exigências unilaterais, evita compromissos desproporcionais e reafirma soberania na área digital
Publicado em 15/11/2025 10:02 - Semana On
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Num gesto que carrega tanto pragmatismo econômico quanto cálculo eleitoral, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a redução parcial de tarifas sobre produtos como carne bovina, café e frutas tropicais — medida que, à primeira vista, parece beneficiar diretamente o Brasil. Mas a movimentação esconde uma arquitetura de negociações complexas, tensões geopolíticas e interesses divergentes entre duas das maiores economias das Américas. Em pleno ciclo de rearranjos no comércio internacional e em meio à pressão inflacionária nos EUA, o anúncio acendeu alertas no Itamaraty e evidenciou a necessidade de cautela diante da insistência americana por concessões assimétricas.
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A medida, assinada na sexta-feira (14), reduz apenas parte das tarifas impostas em abril no chamado “tarifaço” — especificamente os 10% incluídos nas “tarifas recíprocas”, com efeito retroativo a 13 de novembro. A sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros, no entanto, permanece. A flexibilização parcial atende sobretudo a uma tentativa da Casa Branca de mitigar a inflação nos alimentos: o café acumula alta de cerca de 20% no mercado americano, e a carne bovina registra inflação entre 12% e 18% no ano, segundo dados do CPI (Consumer Price Index) e do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA).
Para o Brasil, maior fornecedor de café aos EUA em 2024, com US$ 1,96 bilhão exportados, a medida chega como um alívio tímido. Desde a imposição das tarifas de 50%, em agosto, as vendas do grão despencaram — queda de 54,4% em outubro, segundo o Cecafé. No setor da carne, a situação é semelhante: o Brasil, segundo maior exportador global do produto, enfrenta barreiras mesmo diante da escassez do rebanho americano.
A decisão foi recebida com entusiasmo moderado por entidades brasileiras. A Abiec celebrou a medida como sinal de confiança e parceria técnica, enquanto a AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) apontou a limitação do gesto. “Mudou pouco. Esperavam-se medidas melhores que essas”, criticou José Augusto de Castro, presidente-executivo da entidade.
Cenários distintos, pressões semelhantes
Se, por um lado, a redução parcial sinaliza reaproximação, por outro ela evidencia a assimetria de interesses. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, em tom diplomático, celebrou o gesto de Trump como reflexo da retomada de boas relações com os EUA. “Por mais que o anúncio tenha sido genérico, o Brasil é o maior beneficiário”, afirmou, apontando o país como líder nas exportações de carne, café e suco de laranja.
Mas a suavidade retórica do ministro contrasta com a firmeza da diplomacia brasileira em bastidores. Em outubro, a Casa Branca tentou forçar a divulgação de uma declaração conjunta com o Brasil, apresentando um texto considerado “desequilibrado” pelo Itamaraty. O documento continha exigências de abertura comercial e compromissos unilaterais que o governo Lula não aceitou. A iniciativa foi rejeitada, e uma versão mais branda foi proposta como alternativa. Desde então, as negociações seguem em ritmo cauteloso, em meio a reuniões entre os chanceleres Mauro Vieira e Marco Rubio, nos EUA.
Para o governo brasileiro, a situação exige mais que pragmatismo: exige soberania. A comparação inevitável com os acordos recentemente firmados entre os EUA e países como Argentina, Equador, Guatemala e El Salvador causou desconforto em Brasília. Os pactos, sob a batuta protecionista de Trump, incluem cláusulas que vetam a criação de impostos sobre big techs, além de obrigar os países parceiros a se comprometerem com livre transferência de dados, combate à pirataria, desmatamento e abertura de mercados internos. O Canadá, por exemplo, aceitou suspender a implementação de seu imposto digital em troca de alívio tarifário — um precedente perigoso aos olhos do Brasil.
O nó digital e a soberania regulatória
Aqui reside um dos principais impasses das negociações: a pressão americana sobre o Brasil para barrar qualquer tipo de regulação ou taxação das big techs. Desde 2023, os EUA vêm tentando impor a cláusula como condição para acordos comerciais, argumentando que a responsabilização das plataformas por conteúdo fere a liberdade de expressão. A investigação da seção 301, aberta pelo Escritório de Comércio dos EUA, citou nominalmente o Marco Civil da Internet brasileiro e decisões do STF que endureceram a responsabilização das plataformas.
O governo Lula, no entanto, considera a regulação das big techs uma questão de soberania e segurança democrática — posição alinhada com a crescente preocupação global com o poder desmedido das plataformas digitais sobre a esfera pública. Como ressalta a filósofa política Shoshana Zuboff, em seu clássico The Age of Surveillance Capitalism (2019), “o poder sem supervisão das big techs ameaça corroer os alicerces democráticos das sociedades”. Regulamentar esse setor, portanto, não é apenas uma decisão econômica, mas civilizatória.
A tributação, por outro lado, não é considerada inegociável pelo governo brasileiro. Segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, o imposto digital não está na agenda prioritária atual, e poderia ser objeto de barganha. A estratégia, contudo, é clara: negociar sem se submeter a imposições.
Democracia comercial ou hegemonia estratégica?
A postura brasileira de recusa a acordos “leoninos” — como foram chamados os tratados com Argentina e países da América Central — insere-se num contexto mais amplo de reorganização geopolítica. A busca de Trump por reindustrializar os EUA, garantir cadeias de suprimento mais confiáveis e enfrentar o déficit comercial se entrelaça com sua política externa assertiva, que prioriza acordos bilaterais com alto grau de exigência e baixo nível de concessões.
No plano regional, a estratégia é clara: reconfigurar o mapa das alianças econômicas nas Américas, afastando países da influência chinesa e ampliando a dependência comercial em relação aos EUA. O Brasil, neste tabuleiro, aparece como um ator estratégico — mas também como um país que resiste a ser peça manipulável.
Como escreveu o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “a periferia tem direito ao seu próprio centro”. A diplomacia brasileira, ao recusar pressões unilaterais e reafirmar o valor da reciprocidade, sinaliza que as relações internacionais não devem reproduzir lógicas coloniais sob vestes neoliberais. O comércio, numa era de interdependência global, deve ser ferramenta de desenvolvimento compartilhado, e não instrumento de submissão.
O realismo estratégico como bússola
No balanço final, a redução parcial de tarifas por Trump revela tanto as fissuras quanto as potencialidades da relação Brasil-EUA. Se por um lado há ganhos concretos para setores do agronegócio, por outro permanece a cautela diante de exigências assimétricas e tentativas de ingerência sobre políticas públicas nacionais.
O Itamaraty, ao manter o diálogo aberto, mas firme, atua com uma visão realista — consciente de que a política internacional é, como já observava Maquiavel, o terreno onde convivem interesse e virtude, poder e cálculo. Em tempos de incerteza global, preservar a soberania e negociar com inteligência talvez sejam os maiores trunfos da diplomacia brasileira.
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