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Poder

Brasil aguarda “acordo provisório” após reunião entre Vieira e Rubio

Etanol entra na pauta de negociação e preocupa setor no Nordeste

Publicado em 14/11/2025 10:17 - Semana On

Divulgação REUTERS/Evelyn Hockstein

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Em mais um capítulo da tensa relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reuniu-se na tarde de ontem (13) com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em Washington. O encontro, realizado na sede do Departamento de Estado, marcou a terceira vez em que ambos se encontraram na capital americana desde que o governo Trump impôs tarifas de 40% sobre produtos brasileiros e sancionou autoridades do país, em julho.

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Apesar da ausência de anúncios concretos, o chanceler brasileiro revelou que a expectativa do Itamaraty é pela formalização de um “acordo provisório” nos próximos dias. O entendimento incluiria, segundo Vieira, uma suspensão temporária das sobretaxas — idealmente por 60 dias — a fim de abrir caminho para uma rodada de negociações bilaterais setoriais. “Rubio reafirmou o interesse em chegar a um acordo até o fim deste mês ou início do próximo, estabelecendo um roteiro para negociações que podem durar dois ou três meses”, declarou o ministro.

Vieira classificou o encontro como um sinal claro de que o governo norte-americano está disposto a retomar o diálogo com o Brasil e resolver pendências acumuladas nos últimos meses. “É uma demonstração do interesse americano em virar essa página e construir soluções”, disse.

A reunião teve início por volta das 17h, no horário local (19h em Brasília), com uma breve conversa em espanhol, seguida por uma discussão mais extensa em inglês, na presença de assessores de ambos os lados. Os temas tratados extrapolaram o campo comercial: segundo fontes diplomáticas, os americanos manifestaram interesse em debater questões relacionadas às big techs, regulação digital e liberdade de expressão — temas nos quais o Brasil se disse aberto a dialogar paralelamente às discussões tarifárias.

A delegação brasileira foi a Washington com o objetivo de ouvir as prioridades americanas, mas também para cobrar respostas a um documento enviado no último dia 4 ao Representante Comercial dos EUA. O texto, descrito como um “mapa do caminho da negociação”, detalha os setores em que o Brasil vê potencial para acordos e investimentos mútuos.

Vieira relatou que Rubio se comprometeu a dar uma resposta breve. “Disse que estão examinando atentamente nossas propostas e querem resolver logo. A resposta virá muito em breve, amanhã ou na próxima semana”, afirmou. O chanceler também revelou que Rubio teria discutido a questão com o presidente Donald Trump na manhã de ontem, recebendo instruções para acelerar a resolução das disputas com o Brasil.

Atualmente, cerca de 60% das exportações brasileiras aos EUA são afetadas por tarifas adicionais de até 50%, atingindo especialmente setores como café e carne, o que tem provocado impactos nos preços ao consumidor americano. Tanto o presidente Trump quanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizaram disposição para um entendimento. Lula, inclusive, tem insistido na suspensão das sobretaxas como condição para o avanço das negociações — o que, até o momento, ainda não se concretizou.

No início da noite, o porta-voz adjunto do Departamento de Estado, Tommy Pigott, informou que os dois diplomatas discutiram “um quadro de reciprocidade para a relação comercial entre os EUA e o Brasil”. O diálogo, segundo Pigott, teria sido motivado pelo encontro entre Lula e Trump, ocorrido em outubro, durante a cúpula na Malásia.

Rubio também compartilhou nas redes sociais uma foto ao lado de Vieira, com um aperto de mão sorridente. Na legenda, destacou que discutiram “assuntos de mútuo interesse”.

Enquanto isso, a Casa Branca anunciou nesta quinta-feira novos acordos comerciais com quatro países latino-americanos — Argentina, El Salvador, Equador e Guatemala —, prevendo reduções de tarifas para produtos como café e banana. A movimentação diplomática aumenta a pressão para que o Brasil consiga garantir tratamento similar.

Durante o encontro, também foram mencionadas questões regionais. Venezuela e Haiti apareceram na pauta. Em relação ao Haiti, Brasil e Estados Unidos buscam formas de cooperação para ajudar o país a enfrentar o colapso institucional. Já o caso venezuelano foi tratado com cautela: o Brasil mantém posição crítica às ações militares unilaterais dos EUA, mas também não reconhece formalmente o governo de Nicolás Maduro. De acordo com uma fonte presente na reunião, o tema foi tratado brevemente, com ambas as partes expressando preocupações comuns.

O desfecho das negociações permanece em aberto, mas a sinalização de diálogo reabre uma janela de oportunidade para reverter o desgaste nas relações entre Brasília e Washington — e evitar que os efeitos econômicos da guerra tarifária se aprofundem ainda mais.

Etanol entra na pauta e preocupa setor no Nordeste

Enquanto o governo brasileiro tenta construir uma saída diplomática para a atual crise comercial com os Estados Unidos, um novo ponto de tensão desponta nas negociações: a pressão da Casa Branca por uma abertura do mercado de etanol. A exigência, vista como prioritária pelo governo Donald Trump, acendeu o alerta especialmente entre os produtores do Nordeste brasileiro, que temem ser os mais prejudicados por uma eventual redução nas tarifas de importação aplicadas ao combustível norte-americano.

Segundo fontes ouvidas pelo jornalista Jamil Chade, do UOL, a apreensão do setor sucroenergético nordestino já foi comunicada ao Itamaraty e a outras áreas estratégicas do governo em Brasília. O principal temor é que a entrada do etanol norte-americano — produzido a partir de milho e com subsídios robustos — sem a atual tarifa de 18% comprometa a competitividade da produção nacional, especialmente onde a conversão industrial para o açúcar é limitada ou inviável no curto prazo.

O pleito americano sobre o tema não é novo. Em abril, o próprio governo Trump já havia apontado a tarifa brasileira como exemplo das “injustiças” comerciais enfrentadas pelos EUA. A insatisfação cresceu com a decisão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que restabeleceu a alíquota de 16% em 2023 e a elevou para 18% em 2024 — após um período em que as importações estavam isentas dentro de um regime de cotas.

Enquanto alguns segmentos do setor, especialmente os usineiros do Centro-Sul, veem com mais flexibilidade uma eventual redução tarifária — apoiados na capacidade de migração para a produção de açúcar —, os produtores nordestinos argumentam que não têm a mesma margem de manobra. Essa assimetria regional impõe ao governo Lula o desafio de equilibrar interesses domésticos com pressões externas em um cenário diplomático já delicado.

Uma alternativa ventilada dentro do governo seria a redução parcial da tarifa — de 18% para algo em torno de 10% — como forma de demonstrar boa vontade nas negociações sem, no entanto, abrir mão de uma proteção mínima à indústria nacional.

Do lado americano, a questão é tratada como estratégica. Após o recrudescimento da guerra comercial com a China, que reduziu drasticamente as exportações agrícolas dos EUA, a abertura do mercado brasileiro para o etanol de milho é vista por Trump como uma possível “vitória diplomática”. Isso fortaleceria sua narrativa de eficiência nas negociações internacionais e agradaria diretamente os estados agrícolas que compõem sua base eleitoral — como Iowa, Nebraska, Missouri, Indiana e Kansas.

A Câmara de Comércio dos EUA também entrou na ofensiva. Em carta enviada ao governo Trump no primeiro semestre de 2025, a entidade criticou o aumento das tarifas brasileiras e ressaltou que os EUA aplicam apenas 2,5% sobre o etanol importado do Brasil. O texto também acusa desequilíbrio nas condições de mercado, apontando que o combustível brasileiro pode acessar programas federais e estaduais americanos — como o Renewable Fuels Standard e o Low Carbon Fuel Standard da Califórnia —, enquanto o etanol dos EUA não é contemplado pelo programa brasileiro RenovaBio.

O setor privado americano sustenta que a manutenção dessas barreiras tarifárias representa um obstáculo à cooperação energética entre as duas maiores potências mundiais na produção de biocombustíveis. “O Brasil deve reduzir as tarifas de etanol para garantir reciprocidade e permitir um acesso justo ao mercado pelos produtores dos EUA”, diz o texto, argumentando que o atual desequilíbrio “coloca os produtores americanos em desvantagem competitiva e afeta a estabilidade dos preços”.

Paralelamente, o Brasil tenta obter concessões dos EUA. No dia 4 de novembro, negociadores brasileiros enviaram uma proposta formal à Casa Branca sugerindo a suspensão temporária das tarifas de 40% aplicadas sobre produtos brasileiros — medida adotada por Trump como parte de uma política protecionista mais ampla. O objetivo é restaurar a taxa-base de 10%, adotada inclusive para aliados regionais como Argentina, El Salvador e Paraguai.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reforçou esse pleito na reunião desta quinta-feira com o secretário de Estado, Marco Rubio, buscando acelerar o processo iniciado após o encontro entre Lula e Trump na Malásia. Nos bastidores, contudo, diplomatas brasileiros apontam que Rubio tem demonstrado pouca disposição em acelerar as tratativas — uma postura que alimenta a percepção de que o governo Trump deseja capitalizar politicamente sobre cada etapa da negociação, utilizando-a como ativo eleitoral e geopolítico.

Com os usineiros do Nordeste sob tensão e o setor diplomático sob pressão, a questão do etanol ganha centralidade em uma negociação marcada por interesses assimétricos e sensibilidades eleitorais — tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A depender dos desdobramentos, o biocombustível pode deixar de ser apenas um item de pauta para se tornar o termômetro do sucesso — ou fracasso — da reaproximação entre Brasília e Washington.

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