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Brasil

Redução da pobreza infantil no brasil contrasta com desigualdades persistentes

Relatório revela avanços significativos em políticas públicas, mas desigualdades raciais, regionais e econômicas ainda desafiam direitos básicos de milhões de crianças

Publicado em 20/01/2025 11:08 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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O Brasil encerrou 2023 com avanços significativos na redução da pobreza infantil, mas os números ainda são emblemáticos de um país profundamente desigual. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou que, embora a pobreza monetária tenha caído de 25,44% para 19,14% entre 2017 e 2023, mais de 28,8 milhões de crianças e adolescentes seguem privados de direitos essenciais, representando 55,9% da população de até 17 anos.

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Essa melhoria, impulsionada por programas de transferência de renda como o Bolsa Família, contrasta com a realidade de persistentes desigualdades raciais e regionais. Entre crianças negras, 63,6% vivem em situação de pobreza multidimensional, em comparação com 45,2% das crianças brancas. Na região Norte, 90,6% das crianças enfrentam privações de direitos, contra 31,8% no estado de São Paulo. Esses dados revelam um abismo que transcende o aspecto monetário, remetendo a dinâmicas históricas e estruturais de exclusão.

A Raiz Histórica da Desigualdade e a Pobreza Infantil

A desigualdade social no Brasil não é um fenômeno contemporâneo. Desde o período colonial, a estrutura econômica do país foi erguida sobre bases excludentes, com trabalho escravo, concentração fundiária e acesso desigual a recursos. Esse legado moldou um modelo de sociedade em que privilégios são hereditários, enquanto vulnerabilidades se perpetuam por gerações.

A filósofa alemã Hannah Arendt alertava para os riscos de sociedades que negligenciam os direitos básicos de seus cidadãos. Em Origens do Totalitarismo, Arendt argumenta que a privação de direitos fundamentais desumaniza populações e destrói o tecido social. No Brasil, a privação de água potável, saneamento e educação para milhões de crianças reflete não apenas falhas administrativas, mas a persistência de um projeto de sociedade que naturaliza a exclusão.

Entre 2017 e 2023, as reduções nos índices de pobreza multidimensional infantil mostraram avanços importantes, como a queda no número de crianças sem acesso à informação (de 17,5% para 3,5%) e à água potável (de 6,8% para 5,4%). Contudo, a dimensão mais estável no período, o trabalho infantil, que afeta 1,7 milhão de crianças, demonstra como certas formas de exploração permanecem profundamente enraizadas no tecido social brasileiro.

O Papel das Políticas Públicas e Seus Limites

Os programas de transferência de renda foram centrais para a redução da pobreza. Entre 2019 e 2023, cerca de 4 milhões de crianças deixaram a pobreza extrema graças ao Bolsa Família, cuja ampliação elevou o número de beneficiários em 20%. Essa estratégia demonstrou que políticas públicas baseadas em evidências podem mitigar vulnerabilidades imediatas e gerar impactos positivos.

Mas os desafios permanecem. A crise gerada pela pandemia de Covid-19 ampliou retrocessos em áreas como alfabetização, cuja taxa entre crianças de 7 a 8 anos caiu de 86% em 2019 para 70% em 2023. Isso expõe a fragilidade de conquistas sociais quando não há investimentos sustentados em infraestrutura e educação.

Em termos globais, a economia brasileira reflete um problema maior: a relação entre desigualdade e concentração de renda. Segundo o relatório da Oxfam, os bilionários do mundo enriqueceram a uma velocidade alarmante em 2024, acumulando, em média, US$ 2 milhões por dia. No Brasil, menos de 100 bilionários concentram R$ 146 bilhões, enquanto milhões de pessoas vivem na pobreza extrema.

Desigualdade Global e o Brasil no Contexto do Norte-Sul

O economista francês Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, descreve a desigualdade como uma “falha estrutural do capitalismo”, que tende a aumentar na ausência de políticas redistributivas. No cenário global, as disparidades entre o Norte e o Sul refletem a manutenção de sistemas coloniais modernos. O Brasil, apesar de ser uma potência emergente, permanece subordinado a dinâmicas econômicas que concentram riquezas no Norte Global.

O relatório da Oxfam destaca que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial impõem políticas fiscais que favorecem países desenvolvidos em detrimento de economias emergentes. Taxas de juros elevadas, cobrança de dívidas externas e a taxação de insumos básicos afetam desproporcionalmente os países do Sul Global, perpetuando o ciclo de pobreza.

Ao mesmo tempo, a lógica interna do Brasil reproduz desigualdades por meio de um sistema tributário regressivo. Como Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, ressalta: “A população pobre tem 70% de sua renda comprometida com impostos sobre o consumo, enquanto os mais ricos continuam a se beneficiar de um sistema que favorece a elisão fiscal.”

Perspectivas e Caminhos para a Justiça Social

Embora a situação pareça intransponível, há alternativas concretas para enfrentar essas desigualdades. A Oxfam propõe uma agenda ambiciosa que inclui a taxação progressiva de grandes fortunas, o fortalecimento da cooperação Sul-Sul e a reparação histórica pelos crimes do colonialismo.

No Brasil, seria imprescindível ampliar o financiamento de políticas públicas voltadas para a infância, como enfatiza Liliana Chopitea, do Unicef: “Garantir que cada criança tenha acesso aos direitos na idade certa é um investimento que traz retornos sociais e econômicos a longo prazo.”

Além disso, a redistribuição de recursos exige enfrentar interesses consolidados. Como Miguel de Cervantes escreveu em Dom Quixote: “Mudar o mundo não é loucura, é justiça.” Esse princípio deve orientar políticas que visem não apenas a mitigação da pobreza, mas a construção de uma sociedade verdadeiramente equitativa.

Para Além da Renda, a Dignidade

A pobreza infantil no Brasil, embora em declínio, é um lembrete constante da dívida histórica que o país tem com suas populações mais vulneráveis. Mais do que políticas paliativas, é necessário adotar um modelo de desenvolvimento que coloque a dignidade humana no centro.

Isso requer coragem política para enfrentar elites econômicas, repensar o sistema tributário e priorizar investimentos em saúde, educação e infraestrutura básica. É uma tarefa monumental, mas, como os dados mostram, não impossível. Afinal, o futuro de uma nação é moldado pelas escolhas que ela faz em relação às suas crianças.

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