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Brasil
Fraude de R$ 6,3 bilhões expõe conivência de governos e revela que o topo do sistema político ainda está longe de ser alcançado
Publicado em 13/11/2025 10:18 - Semana On
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Era previsível, mas não menos revoltante. Com a prisão do ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto e do ex-ministro bolsonarista José Carlos Oliveira, a Polícia Federal revelou um dos rostos de um esquema criminoso que, ao longo de anos, sangrou silenciosamente os benefícios de aposentados e pensionistas brasileiros.
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O valor estimado do rombo – R$ 6,3 bilhões – não é apenas contábil: ele simboliza a falência moral de gestões públicas que, sob diferentes bandeiras ideológicas, permitiram a montagem de uma engrenagem de rapinagem institucionalizada, com ramificações em partidos, entidades de fachada e até no primeiro escalão do poder político.
Não se trata de um escândalo isolado, mas de uma engrenagem cuidadosamente azeitada por meio da captura de instituições públicas por interesses privados e partidários. A operação “Sem Desconto”, da Polícia Federal, é o momento em que as cortinas se abrem para revelar um palco já conhecido do público brasileiro: o da promiscuidade entre o Estado e grupos que vivem da pilhagem do bem comum.
A Conafer, o coração da engrenagem
No centro da teia está a Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), entidade que deveria representar agricultores, mas que tornou-se epicentro de um esquema que aplicava “descontos associativos” em aposentadorias e pensões sem autorização dos beneficiários. Segundo relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), só entre 2022 e 2025, a Conafer movimentou valores atípicos que somam R$ 796,8 milhões. Esse valor, por si só, já seria alarmante. Mas é a rede de proteção política que sustenta o escândalo que mais causa espanto.
Entre gabinetes e depósitos, a corrupção avança
A operação da PF revelou que o ex-ministro do Trabalho e Previdência no governo Bolsonaro, José Carlos Oliveira – hoje convertido ao islamismo e rebatizado como Ahmed Mohamad Oliveira Andrade – foi alvo de mandados de busca e apreensão e teve que usar tornozeleira eletrônica. Embora tenha negado envolvimento durante depoimento à CPMI do INSS em setembro, a PF identificou ligações diretas suas com os operadores da Conafer. Oliveira foi presidente do INSS entre 2021 e 2022, e, ironicamente, se aposentou pelo próprio instituto no mês passado, no topo da carreira e com salário integral.
Também foram alvos da operação dois parlamentares: o deputado federal Euclydes Petterson (Republicanos-MG) e o deputado estadual Edson Araújo (PSB-MA), ambos suspeitos de integrarem a cadeia de proteção política do esquema. As ações foram autorizadas pelo ministro do STF André Mendonça e abrangem 14 estados, com 63 mandados de busca e apreensão e 10 de prisão preventiva.
O senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS, afirmou que a operação prendeu “o núcleo principal da quadrilha que tomou de assalto as aposentadorias brasileiras” e que o “primeiro escalão político” começa agora a ser alcançado. Para ele, parte desses políticos recebeu recursos para nomear servidores que operavam o esquema por dentro da máquina pública. Segundo o senador, a PF já identificou tentativas de destruição de provas e há delações em curso que podem comprometer ainda mais figuras de destaque.
Lula e Bolsonaro: um sistema que permite, facilita e protege
Os dois presidentes diretamente implicados pela proximidade de seus indicados — Bolsonaro, ao nomear Oliveira, e Lula, ao endossar Stefanutto por meio do ministro Carlos Lupi (PDT) — compartilham, neste caso, mais do que um revés: compartilham a responsabilidade por manter um sistema frágil, aparelhado e vulnerável à corrupção. Stefanutto, por exemplo, foi escolhido por Lupi em julho de 2023, atuava como consultor previdenciário na transição de governos e era conhecido dos círculos políticos. Quando vieram à tona as denúncias, Lupi ainda tentou defendê-lo, alegando que não se podia “queimar um servidor extremamente qualificado na fogueira”. Mas, como noticiou o jornalista Josias de Souza, essa “qualificação” arde hoje, momentaneamente, na cadeia.
A analogia com um time de futebol é eloquente: se há craques da corrupção em campo, há também técnicos, dirigentes e patrocinadores fora dele — todos cúmplices na engrenagem que move o jogo. A prisão de nomes intermediários pode iludir o público com uma falsa sensação de justiça, mas é no topo da hierarquia que se encontram as engrenagens decisivas da política que tornou esse escândalo possível.
O padrão de sempre: corrupção estrutural
A sociologia brasileira, especialmente nas leituras de Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, já havia diagnosticado a formação patrimonialista do Estado brasileiro: um sistema em que o público é confundido com o privado, e onde os aparelhos do Estado são capturados para servir a interesses particulares. O caso do INSS é expressão plena dessa lógica.
Como alertou o filósofo Achille Mbembe em sua análise sobre o “necropoder”, quando o Estado deixa de proteger vidas e passa a administrá-las com base em interesses espúrios, ele deixa de ser apenas negligente: torna-se cúmplice da destruição. Roubando dos aposentados, os operadores do esquema não apenas cometeram um crime — assinaram uma sentença contra os mais vulneráveis da sociedade, aqueles que sustentaram por décadas a máquina pública com seu trabalho e que agora colhem desprezo.
Rumo à responsabilização?
A CPMI do INSS promete novas convocações. O senador Viana já fala em delações que podem atingir o primeiro escalão da política. Mas, como mostra a história recente das CPIs brasileiras, muitas vezes o que começa com estardalhaço termina em anistia informal. Sem reformas profundas nos mecanismos de controle e transparência, e sem responsabilização efetiva de agentes públicos, esse escândalo será apenas mais um na longa lista de saques à cidadania promovidos por dentro do próprio Estado.
Como lembrou certa vez o historiador Eric Hobsbawm, “a corrupção não é um problema moral, é um problema estrutural”. E no Brasil, essa estrutura permanece intacta, alimentada pela impunidade e protegida por conveniências partidárias.
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