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Poder

Apesar do uso político da segurança pública, Lula venceria todos os adversários se a eleição fosse hoje

Genial/Quaest mostra variação de um ponto, mas mantém liderança do presidente

Publicado em 13/11/2025 9:46 - Semana On

Divulgação aa

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O presidente Lula (PT) lidera todos os possíveis cenários eleitorais de primeiro turno para 2026 e venceria qualquer possível adversário em uma disputa de segunda turno. É o que aponta a pesquisa da Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira (13).

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O levantamento aponta que Lula varia de 31% a 39% de intenções de voto nos testes de primeiro turno, com distância considerável para todos os possíveis adversários. A disputa mais apertada é contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está inelegível, quando soma apenas 5 pontos de vantagem.

Entre os candidatos aptos a concorrer, o mais competitivo é o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que aparece com 12 pontos a menos do que Lula em um cenário com apenas três candidatos. Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Eduardo têm desempenhos parecidos, com ampla vantagem para Lula.

No segundo turno, Lula venceria por diferenças entre 3 e 17 pontos percentuais. Contra o inelegível Jair Bolsonaro, teria 42%, ante 39%, o que configura empate técnico. A diferença era de 10 pontos percentuais há um mês.

A vantagem de Lula contra Ciro Gomes (PSDB), Tarcísio e o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), é de 5 pontos. Em outubro, ela era de 9 pontos, 12 pontos e 13 pontos, respectivamente. Lula em distância confortável, de mais de dez pontos, contra Eduardo Leite (PSD) e Eduardo Bolsonaro (PL).

A Quaest testou pela primeira vez o nome de Renan Santos (Missão), fundador do Movimento Livre Brasil (MBL), que teria 25% dos votos, contra 42% de Lula.

A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de novembro. O nível de confiabilidade da pesquisa é de 95% e a margem de erro é de 2 pontos percentuais.

Contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível, Lula marca 42% (eram 46%) e Bolsonaro, 39% (eram 36%). Indecisos são 2% (eram 2%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 17% (eram 16%). Contra Ciro Gomes, Lula tem 38% (eram 41%) e Ciro, 33% (eram 32%). Indecisos são 3% (eram 3%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 26% (eram 24%).

Disputando com Tarcísio de Freitas, Lula tem 41% (eram 45%) e o governador de São Paulo, 36% (eram 33%). Indecisos são 3% (eram 3%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 20% (eram 19%). Contra Ratinho Jr., Lula marca 40% (eram 44%) e Ratinho, 35% (eram 31%).  Indecisos são 3% (eram 3%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 22% (eram 22%).

Contra Romeu Zema (Novo), Lula marca 43% (eram 47%) e o governador de Minas, 36% (eram 32%). Indecisos são 3% (eram 3%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 18% (eram 18%). Contra Michelle Bolsonaro, Lula tem 44% (eram 46%) e  Michelle, 35% (eram 34%). Indecisos são 3% (eram 2%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 18% (eram 18%).

Disputando com Eduardo Bolsonaro, Lula tem 43% (eram 46%) e o deputado, 33% (eram 31%). Indecisos somam 3% (eram 3%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 21% (eram 20%). Contra Eduardo Leite, Lula marca 41% (eram 45%) e Leite, 28% (eram 22%) Indecisos são 4% (eram 4%) e Branco/Nulo/Não vai votar, 27% (eram 29%).

Rejeição

O levantamento também aponta que Lula e os principais adversários ficaram estáveis nos quesitos rejeição e potencial de voto, com números que oscilaram dentro da margem de erro do levantamento (2 pontos percentuais).

O mais rejeitado segue sendo Eduardo Bolsonaro, com 67% de eleitores que indicam que não votariam no deputado sob nenhuma hipótese.

Para 59% dos brasileiros, Lula não deve se candidatar à reeleição em 2026 (eram 56% em outubro), enquanto 38% pensam o contrário (eram 42%) e 3% não sabem ou não responderam. Questionados sobre o papel de Jair Bolsonaro na eleição, 67% acreditam que ele deve abrir a mão da candidatura e apoiar outro candidato (eram 76% em outubro). Já 26% acham que ele deve manter a candidatura (eram 18%), e 7% não sabem ou não responderam.

A Quaest também questionou os entrevistados sobre qual seria o melhor resultado da eleição presidencial de 2026 para o Brasil. Na liderança, aparecem empatados técnicos os que preferem um nome não ligado a Lula ou Bolsonaro (24%) e os que desejam a reeleição do petista (23%).

Direita foca em chacina, mas lula mantém estabilidade

No Brasil, o sangue ainda é capital político. Mas, desta vez, a lógica do terror não bastou. A operação policial que resultou em 121 mortos no Rio de Janeiro, no final de outubro, foi recebida com a expectativa de causar um abalo sísmico na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao contrário do que esperavam setores da direita — e da extrema direita —, a montanha pariu um rato. A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest revelou uma oscilação milimétrica dentro da margem de erro: a aprovação caiu de 48% para 47%, e a desaprovação subiu de 49% para 50%.

A operação em questão, realizada sob o comando do governador Cláudio Castro (PL-RJ), foi marcada por denúncias de execuções sumárias e mobilizou organismos internacionais de direitos humanos. Internamente, foi transformada em palanque político por parte da oposição bolsonarista, que tentou associar a escalada da violência à suposta leniência do governo federal na área de segurança. Contudo, a tentativa de capitalizar eleitoralmente sobre a tragédia não encontrou o eco esperado.

No imaginário político de parte significativa do eleitorado brasileiro, especialmente aquele alinhado à direita, a repressão policial violenta ainda exerce apelo. Contudo, os dados da Quaest mostram um país mais complexo e menos previsível: 55% dos entrevistados não gostariam de ver em seus estados uma ação semelhante à realizada no Rio. Entre os eleitores independentes — grupo decisivo em qualquer eleição —, 58% rejeitam esse tipo de abordagem. Apenas 42% aprovam operações como a de Castro, e somente 11% acreditam que mais policiais nas ruas resolveriam o problema da segurança pública.

Ou seja, há espaço para outro tipo de narrativa, menos baseada na força bruta e mais ancorada na inteligência e na desarticulação financeira das organizações criminosas. Esse é, em tese, o caminho que o governo Lula tenta trilhar, com operações da Polícia Federal contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) — inclusive com foco em seus tentáculos no sistema financeiro e na elite econômica da Faria Lima. O próprio governo viu sua rejeição no quesito segurança pública cair quatro pontos na pesquisa, enquanto a avaliação regular subiu na mesma proporção. Um movimento que vai além da margem de erro e sinaliza uma receptividade a abordagens alternativas.

O discurso e os tropeços

Nem tudo, porém, são acertos. Lula cometeu um deslize retórico ao afirmar que os traficantes são “vítimas dos usuários”. A fala foi amplamente rejeitada por 81% da população, o que acendeu alertas no Planalto. Além disso, 57% discordam da avaliação do presidente de que a operação no Rio foi desastrosa, o que sugere que o discurso oficial ainda precisa se conectar melhor com o sentimento da população.

No entanto, é preciso relativizar esse tropeço à luz de um cenário mais amplo. A pesquisa mostra que o temor da insegurança cresceu — 38% dos brasileiros apontam a violência como o maior problema do país, superando a economia, que caiu para o segundo lugar com 15%. Ainda assim, a narrativa de que “bandido bom é bandido morto” não se impôs como consenso nacional. O Brasil se encontra num limiar de tensões: a segurança é um tema sensível, mas o apoio a soluções violentas está longe de ser hegemônico.

O fator econômico e a memória eleitoral

A resiliência de Lula diante do massacre policial tem outra explicação: a economia. O alívio na inflação dos alimentos começa a ser sentido. Em março, 88% da população relatava alta no preço da comida. Hoje, esse número caiu para 58%. Produtos de base como arroz (-23%) e feijão preto (-32%) registraram deflação acumulada no ano, segundo o IPCA. Mesmo com altas pontuais em itens como picanha (+0,8%) e cerveja (+4,4%), a percepção de melhora no poder de compra é inegável — e eleitoralmente significativa.

É justamente aqui que se forma o esteio da popularidade do presidente. Em sociedades marcadas por desigualdades profundas, como a brasileira, o apelo da estabilidade econômica e do consumo cotidiano costuma pesar mais do que discursos de guerra interna. Foi assim nas eleições de 2006, 2010 e 2014 — e pode ser novamente em 2026.

Como escreveu o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, “em tempos de incerteza, a segurança se torna uma mercadoria”. Mas o que se percebe no Brasil de hoje é que essa segurança não é mais compreendida apenas como enfrentamento armado, e sim como qualidade de vida. Um ambiente de estabilidade econômica, com comida na mesa e sensação de futuro, ainda é a mais eficaz política de segurança pública.

A estratégia da extrema-direita e o recuo tático

A tentativa de parte da oposição de avançar sobre o terreno da segurança pública teve ainda outro revés. Durante a tramitação do projeto de combate ao crime organizado na Câmara, o relator Guilherme Derrite — secretário de Segurança de São Paulo e aliado de Tarcísio de Freitas — propôs alterações que limitavam a atuação da Polícia Federal e equiparavam crimes de facções a terrorismo. A reação foi fulminante. Pressionado, Derrite recuou de ambas as mudanças. A ideia de transformar organizações criminosas em “terroristas” nos moldes da doutrina Trump — usada, aliás, para justificar ações intervencionistas nos países do Sul Global — foi rejeitada até por setores conservadores, preocupados com o risco de sanções internacionais.

Esse episódio revelou um flanco vulnerável da extrema-direita: sua tentativa de se apropriar do discurso da ordem pode acabar expondo vínculos incômodos com os financiadores do crime organizado. Ao passo que o governo federal, ainda que de forma tímida e com tropeços, sustenta um projeto mais racional de enfrentamento à criminalidade, baseado na inteligência policial, no rastreamento de fluxos financeiros ilícitos e no corte de rotas de tráfico de armas e drogas.

A COP30 e o fator climático

Outro fator que ajuda a explicar a estabilidade de Lula é sua atuação no campo ambiental. A realização da COP30 em Belém, prevista para 2026, tem gerado repercussão internacional e fortalecido o papel do Brasil como liderança no Sul Global. A pauta ambiental, embora contraditória — com avanços no combate ao desmatamento e retrocessos na política de combustíveis fósseis —, tem sido bem recebida. Pesquisa do Datafolha de outubro de 2025 apontou que 61% da população rejeita a exploração de petróleo na Margem Equatorial, uma decisão que ainda divide o governo.

A presença de Lula em fóruns internacionais tem ajudado a compensar eventuais desgastes internos, ao mesmo tempo em que reforça sua imagem de estadista num cenário global de descrença nas instituições multilaterais. A convergência entre clima, segurança e economia está se tornando cada vez mais evidente — e estratégica.

O desafio da próxima curva

Lula não será o “candidato da bala”. Tampouco parece disposto a disputar com a direita o troféu da repressão. Seu desafio, até outubro de 2026, será consolidar uma política de segurança pública eficaz e humanista, ao mesmo tempo em que sustenta os avanços econômicos e ambientais. O discurso que se impõe é o da inteligência contra a barbárie — e, até aqui, tem encontrado respaldo moderado, porém estável, na opinião pública.

Em um país onde a morte é muitas vezes tratada como estatística, a sobrevivência da democracia depende, paradoxalmente, da recusa à naturalização da violência. A eleição será decidida menos pela pólvora do revólver e mais pela nota fiscal do supermercado.

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