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Brasil
Polícia Civil de SP apura suspeitas de fraude em contrato de internet pública, possível desvio de recursos para produção audiovisual e expansão patrimonial
Publicado em 02/06/2026 9:04 - Semana On
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A Polícia Civil de São Paulo deflagrou, na manhã de ontem (1º), uma operação que colocou no centro das investigações o Instituto Conhecer Brasil (ICB), sua presidente, Karina Ferreira da Gama, e a produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, obra biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
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A ação policial cumpriu mandados de busca e apreensão em quatro endereços considerados estratégicos pelos investigadores: a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo, a residência de Karina Ferreira da Gama, a sede do Instituto Conhecer Brasil e os escritórios da Go UP Entertainment.
A operação foi autorizada pela Vara de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo e tem origem em uma investigação sobre um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil para implantação e manutenção de pontos de internet Wi-Fi gratuita em comunidades da capital.
Segundo os investigadores, há indícios de que o instituto tenha sido contratado por valores superiores aos praticados pelo mercado e que parte dos pagamentos possa ter ocorrido sem a efetiva prestação dos serviços contratados.
Os dados levantados pela investigação apontam uma diferença significativa entre os custos pagos ao ICB e aqueles praticados pela Prodam, empresa pública municipal de tecnologia. Enquanto cada ponto de Wi-Fi contratado junto ao instituto teria custado cerca de R$ 1.800, a Prodam oferece serviço semelhante por R$ 230 de implantação e R$ 306 mensais de manutenção.
A apuração policial envolve suspeitas de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas públicas.
Coaf identificou movimentações consideradas atípicas
Como parte da investigação, a Polícia Civil solicitou acesso a dados financeiros sigilosos de Karina Ferreira da Gama e do Instituto Conhecer Brasil.
O pedido inclui relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que teriam apontado movimentações classificadas como atípicas e operações consideradas suspeitas envolvendo tanto o CPF da empresária quanto o CNPJ da entidade.
Os investigadores trabalham com a hipótese de que recursos públicos vinculados ao contrato de internet tenham sido transferidos para outras organizações controladas pela própria Karina.
Entre essas organizações está a Go UP Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse.
Suspeita alcança financiamento do filme sobre Bolsonaro
Um dos principais eixos da investigação busca esclarecer se recursos oriundos do contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo foram utilizados para financiar a produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
De acordo com elementos reunidos pela polícia, existe a suspeita de ocorrência de financiamento cruzado ilícito entre o Instituto Conhecer Brasil e a Go UP Entertainment.
Os investigadores também apuram possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro envolvendo empresas subcontratadas e outras entidades administradas pela empresária.
Karina Ferreira da Gama nega qualquer irregularidade. Segundo ela, o filme não recebeu recursos de pessoas físicas ou jurídicas brasileiras e sua produção não possui relação com o contrato firmado pelo instituto junto à Prefeitura de São Paulo.
A administração municipal, por sua vez, informou que vem colaborando integralmente com as investigações, sustentando que toda a documentação solicitada já havia sido disponibilizada às autoridades e que o processo de contratação observou critérios de legalidade, transparência e economicidade.
Questionado sobre a operação, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) rejeitou qualquer vínculo entre a investigação e a produção cinematográfica.
“Não tem nada a ver com o filme”, declarou a jornalistas ao chegar a um evento no Rio de Janeiro.
A declaração ocorre após revelações do portal The Intercept indicando que Flávio Bolsonaro teria trocado mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em busca de apoio financeiro para o projeto audiovisual dedicado à trajetória política de seu pai.
Contrato de R$ 5 milhões no Distrito Federal amplia alcance das apurações
Paralelamente às investigações em São Paulo, documentos públicos mostram que o Instituto Conhecer Brasil também firmou contratos relevantes com o Governo do Distrito Federal durante a gestão do governador Ibaneis Rocha (MDB).
Karina Ferreira da Gama figura como representante da entidade que celebrou um contrato de aproximadamente R$ 5 milhões para execução do programa Steam Maker em escolas públicas do DF.
A parceria foi formalizada por meio do Termo de Colaboração nº 02/2023, vinculado ao Programa Desafio DF e administrado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
O projeto previa a instalação de laboratórios maker em 16 escolas públicas, além de ações voltadas à educação tecnológica e à capacitação de professores.
Entre os recursos previstos estavam impressoras 3D, kits de eletrônica, plataformas digitais, laboratórios móveis denominados Smart Labs e ferramentas de monitoramento pedagógico.
O plano de trabalho também previa utilização de sistemas como Google Analytics, Tableau, Google Forms, Zoom e Microsoft Teams.
Firmado originalmente em dezembro de 2023 por valor superior a R$ 4 milhões, o contrato recebeu em janeiro de 2025 um aditivo de R$ 1 milhão, elevando o montante total para R$ 5 milhões.
Registros da própria FAPDF indicam que R$ 4 milhões já haviam sido repassados ao projeto até dezembro de 2024, enquanto a prestação de contas permanecia classificada como “TC em execução”.
A reportagem questionou o Governo do Distrito Federal e a Secretaria de Educação sobre as escolas beneficiadas, os equipamentos efetivamente entregues, os valores executados, as empresas participantes da implementação do projeto e os motivos que justificaram o aditivo contratual.
Também foram solicitadas informações sobre eventuais auditorias, investigações ou procedimentos de controle relacionados ao programa e ao Instituto Conhecer Brasil.
Até a publicação da reportagem, não havia resposta dos órgãos questionados.
Ascensão empresarial coincide com aproximação de Mario Frias
A trajetória empresarial de Karina Ferreira da Gama passou por uma transformação significativa a partir de 2020, período que coincide com sua aproximação do deputado federal Mario Frias (PL-SP), então secretário especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro.
Moradora da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, Karina administra atualmente uma estrutura empresarial diversificada, composta por empresas e associações que atuam em áreas que vão da cultura à construção civil.
Segundo relatos obtidos pela reportagem, a empresária e Mario Frias foram apresentados quando o ex-ator assumiu o comando da área cultural do governo federal. A afinidade política teria aproximado ambos e aberto espaço para novos projetos ligados ao campo conservador.
Após esse período, empresas ligadas a Karina passaram a prestar serviços em campanhas eleitorais do Partido Liberal, incluindo a campanha de Mario Frias à Câmara dos Deputados, além de receber recursos provenientes de emendas parlamentares.
O próprio Instituto Conhecer Brasil foi beneficiado por verbas destinadas a projetos de letramento digital e atividades esportivas.
Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que, até 2019, Karina mantinha uma rotina profissional compatível com a de uma trabalhadora assalariada, com rendimentos inferiores a R$ 25 mil mensais.
Formada em Jornalismo pela Universidade Paulista (Unip), ela registra experiência na presidência de associações privadas, participação no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo e atuação como secretária-executiva.
Antes de sua expansão empresarial, mantinha a K F da Gama Produções, empresa aberta em 2005 com capital social de R$ 1 mil e voltada a atividades culturais e de marketing.
Em 2020, a empresa passou por reformulação societária e transformou-se na Conhecer Brasil Assessoria Produção e Marketing Cultural, em movimento que indicaria aumento de sua capacidade operacional.
No mesmo período surgiu a Academia Nacional de Cultura (ANC), associação privada que também recebeu recursos oriundos de emendas parlamentares de políticos alinhados ao bolsonarismo.
Em 2021, Karina criou a Go UP Entertainment, produtora responsável por Dark Horse. Apesar do projeto cinematográfico, a empresa não possui filmes registrados na Agência Nacional do Cinema (Ancine).
A empresária também figura como sócia-administradora da empresa nos Estados Unidos, ao lado de Michael Brian Davis.
Escritórios virtuais, feira financiada pela prefeitura e expansão para novos setores
Os registros da Receita Federal mostram que o Instituto Conhecer Brasil, a Academia Nacional de Cultura, a Conhecer Brasil Assessoria e a Go UP Entertainment compartilham como endereço formal um escritório virtual localizado na Avenida Paulista.
O imóvel oferece principalmente serviços de recebimento de correspondência.
Já o endereço operacional utilizado por Karina fica na Rua Haddock Lobo, nos Jardins. Segundo relatos colhidos pela reportagem, o local teria recebido visitas frequentes de Mario Frias e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Frias nega qualquer irregularidade envolvendo recursos públicos destinados às empresas ligadas à empresária.
Em 2025, a Academia Nacional de Cultura lançou a Connect Faith, feira voltada aos temas de fé e tecnologia.
O evento sofreu dois adiamentos sucessivos antes de ocorrer no Expo Center Norte, em São Paulo. Inicialmente previsto para outubro de 2024, foi remarcado para novembro e posteriormente transferido para junho de 2025 sob alegações de força maior e proximidade do calendário eleitoral.
A principal atração foi o cantor gospel norte-americano Kirk Franklin. Os ingressos variavam entre R$ 300 e R$ 500.
A Prefeitura de São Paulo destinou R$ 3,5 milhões para custear parte da infraestrutura da feira por meio da Secretaria Municipal de Turismo.
Entre as despesas financiadas estavam serviços de limpeza, brigadistas, recepcionistas, produção executiva, fornecimento de água e café.
Segundo a administração municipal, a expectativa de público era de 60 mil pessoas.
Novos negócios incluem holding e empresa de construção civil
A ampliação das atividades empresariais de Karina continuou em 2026.
Em fevereiro daquele ano, ela constituiu a Gama Participações Ltda., sediada em Aracaju (SE), com capital social de R$ 100 mil e atuação voltada à administração de participações societárias, compra, venda e locação de imóveis.
No mesmo mês, ingressou na Upcon Serviços Especializados Ltda., empresa do setor de construção civil sediada em Salvador (BA).
A operação ocorreu após a transferência gratuita de quase metade das cotas por parte do então único sócio, Ademar de Sena Sampaio, o que permitiu à empresária assumir isoladamente a administração da companhia.
Criada em 2016, a empresa havia sido originalmente registrada em Brasília.
Patrimônio, disputas judiciais e relações políticas
Apesar de comandar negócios que movimentam milhões de reais, Karina não possui imóveis registrados em seu nome em cartórios paulistas, segundo levantamento citado na reportagem.
Ela chegou a solicitar a concessão de uso do imóvel onde vive com a família, por meio de programa habitacional destinado à população de baixa renda, mas teve o pedido negado por não atender aos critérios legais.
Em outra frente, responde a uma disputa judicial relacionada à compra de um imóvel avaliado em mais de R$ 2 milhões em Santana de Parnaíba. O contrato foi firmado em 2023 juntamente com Wemerson Marinho, de quem está se divorciando, mas os pagamentos teriam sido interrompidos no ano seguinte.
Evangélica desde a adolescência e frequentadora do Templo de Salomão da Igreja Universal, Karina afirma que seu envolvimento com projetos sociais nasceu da atuação religiosa.
Em declaração anterior sobre Dark Horse, ela atribuiu parte do sucesso do projeto ao deputado Mario Frias.
“Posso dizer que o Mario Frias é um homem da cultura e das artes cênicas, um gênio do audiovisual e que, efetivamente, trabalhou muito para o sucesso do nosso filme”, afirmou, acrescentando que acredita que a produção possa chegar ao Oscar.
Enquanto a investigação avança, a Polícia Civil busca determinar se a expansão empresarial da produtora e das entidades comandadas por Karina Ferreira da Gama foi sustentada exclusivamente por contratos regulares ou se parte desse crescimento teve origem em recursos públicos utilizados de forma irregular.
Evolução das empresas e associações de Karina Gama
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