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Brasil
Financial Times associa medida à aproximação do país a padrões trabalhistas das economias desenvolvidas
Publicado em 08/05/2026 9:06 - Semana On
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A nova pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quinta-feira reforça um cenário que vem se consolidando nos últimos meses: a ampla maioria da população brasileira apoia o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo o levantamento, 73,7% dos eleitores são favoráveis à proposta em debate no Congresso Nacional, enquanto apenas 21,5% defendem a manutenção do modelo atual. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.
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Embora pesquisas de institutos distintos não possam ser comparadas de forma direta devido às diferenças metodológicas, os números convergem com levantamentos recentes realizados pela Quaest e pelo Datafolha. Em dezembro, a Quaest apontou 72% de apoio ao fim da escala, com margem de erro de dois pontos. Já em março, o Datafolha registrou 71% de aprovação à mudança, também com margem de dois pontos. Na prática, os três estudos indicam um consenso raro no debate público brasileiro: aproximadamente três em cada quatro brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso por semana e uma jornada limitada a 40 horas semanais sem redução salarial.
O dado ganha relevância política porque surge após meses de intensa mobilização contrária à proposta por parte de setores empresariais. Grandes companhias, entidades patronais, grupos de lobby e parcelas da imprensa vêm atuando para barrar o avanço da pauta, frequentemente sustentando argumentos ligados ao impacto econômico da redução da jornada. Até o momento, contudo, a campanha não produziu efeito perceptível na opinião pública.
A persistência desse apoio popular cria um dilema para o Congresso Nacional, especialmente para parlamentares alinhados ao centro político e dependentes de forte conexão eleitoral com suas bases. Deputados e senadores ampliaram significativamente o envio de emendas parlamentares nos últimos anos como estratégia de fortalecimento político regional. Agora, diante de um tema com respaldo social expressivo, cresce o risco de desgaste para quem optar por se posicionar contra a proposta.
Entre parlamentares ligados ao bolsonarismo, a resistência ao projeto já se tornou explícita. A oposição conservadora passou a atuar abertamente contra o fim da escala 6×1, transformando a discussão trabalhista também em disputa política. A pesquisa Meio/Ideia mostra que a pauta pode produzir dividendos eleitorais para o governo federal: 46% dos entrevistados afirmaram que a aprovação da proposta melhoraria sua avaliação sobre a gestão Lula. Outros 19,6% disseram que a medida não alteraria sua percepção do governo, enquanto 24,1% declararam que sua avaliação pioraria.
Os números sugerem que a rejeição ao projeto tende a se concentrar em segmentos que já demonstram oposição consolidada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto parte significativa da população vê na proposta um ganho concreto para a qualidade de vida. Nesse contexto, o tema deixa de ser apenas uma discussão trabalhista e passa a ocupar espaço estratégico na disputa política e eleitoral.
A pesquisa também investigou como os brasileiros acreditam que utilizariam o tempo livre adicional caso a jornada fosse reduzida. Para 33,7% dos entrevistados, o principal benefício seria passar mais tempo com a família. Outros 24% afirmaram que utilizariam o período extra para descanso. Já 11% disseram que aproveitariam para estudar, se especializar ou buscar qualificação profissional.
O levantamento ainda aponta que 9,6% pretendem utilizar o tempo livre para buscar uma segunda fonte de renda, enquanto 7% destacaram a possibilidade de cuidar melhor das tarefas domésticas. A prática religiosa apareceu como prioridade para 3,5% dos entrevistados, que afirmaram que frequentariam mais igrejas ou cultos. Outros 2,3% mencionaram maior participação em atividades culturais e esportivas.
Os resultados confrontam diretamente declarações recentes do deputado federal e presidente do Republicanos, Marcos Pereira. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o parlamentar afirmou que um dia adicional de descanso poderia expor trabalhadores “a drogas” e “a jogos de azar”. Na mesma entrevista, questionou quais seriam as opções de lazer para pessoas pobres vivendo em comunidades periféricas ou no sertão nordestino.
Enquanto o debate público se intensifica, o centro da disputa permanece no Congresso. A expectativa de defensores da proposta é que a matéria avance para votação em plenário, onde acreditam que o forte apoio popular possa pressionar parlamentares a evitar desgaste eleitoral.
Há, porém, obstáculos regimentais importantes. Propostas de emenda à Constituição podem ser engavetadas ou ter sua tramitação interrompida pelas presidências das Casas legislativas. Para contornar esse risco, o governo federal também encaminhou um projeto de lei com urgência constitucional sobre o tema. Nesse modelo, caso a proposta não seja apreciada em até 90 dias, ela passa a travar a pauta do Congresso Nacional.
O prazo coloca deputados e senadores diante de uma decisão com potencial impacto eleitoral. De um lado, setores empresariais mantêm pressão contra a redução da jornada. De outro, as pesquisas indicam que a defesa do fim da escala 6×1 reúne um dos níveis mais elevados de apoio popular registrados atualmente no debate político nacional.
Financial Times associa fim da escala 6×1 à aproximação com padrões trabalhistas das economias desenvolvidas
A discussão sobre o fim da escala 6×1 no Brasil ultrapassou o debate doméstico e passou a chamar atenção da imprensa econômica internacional. Em reportagem publicada na quinta-feira, o jornal britânico Financial Times afirmou que a eventual adoção de uma jornada com dois dias de descanso semanais colocaria o Brasil “em linha com grande parte do mundo ocidental”, onde modelos de trabalho menos extensos já se consolidaram ao longo das últimas décadas.
Sob o título “Lula propõe o fim da semana de trabalho de seis dias no Brasil”, a publicação enquadra a proposta brasileira dentro de uma transformação mais ampla nas relações de trabalho contemporâneas. O texto observa que, enquanto países desenvolvidos discutem experiências de semana de quatro dias impulsionadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial, o Brasil ainda busca reduzir jornadas consideradas historicamente extensas para milhões de trabalhadores.
O jornal destaca que a proposta apoiada pelo governo federal prevê a substituição do modelo de seis dias consecutivos de trabalho por uma estrutura com dois dias de folga semanal, além da redução do teto da jornada de 44 para 40 horas semanais sem diminuição salarial. Segundo dados apresentados pela reportagem, o governo estima que cerca de 15 milhões de trabalhadores formais seriam diretamente impactados pelo fim da escala 6×1, enquanto outros 37 milhões poderiam ser beneficiados pela redução da carga horária semanal.
A análise do periódico britânico situa o debate brasileiro em perspectiva histórica. A reportagem lembra que este ano marca o centenário da decisão da Ford de implementar fins de semana de dois dias para seus funcionários nos Estados Unidos, iniciativa considerada um marco na reorganização moderna das jornadas de trabalho industriais.
Ao comparar indicadores internacionais, o Financial Times chama atenção para a distância entre o Brasil e países europeus em relação ao tempo dedicado ao trabalho. Dados citados da plataforma científica Our World in Data mostram que brasileiros trabalharam, em média, quase 2 mil horas em 2023 — aproximadamente 50% a mais do que os trabalhadores alemães, cuja média anual ficou em 1.335 horas.
O texto também apresenta os principais argumentos mobilizados pelos setores empresariais contrários à proposta. Entidades privadas afirmam que a redução da jornada poderia elevar custos operacionais e comprometer a geração de empregos. A reportagem menciona estimativas da Fecomércio-SP segundo as quais a diminuição da carga horária para 40 horas semanais resultaria em aumento de cerca de 10% no custo por hora trabalhada.
Por outro lado, o periódico registra que estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) contestam projeções mais alarmistas. Segundo o instituto, os custos decorrentes da mudança seriam administráveis e não haveria evidências concretas de impacto significativo sobre o nível de emprego.
A publicação britânica também relaciona o debate à discussão internacional sobre produtividade e remuneração. O Financial Times observa que a cultura de jornadas extensas nos Estados Unidos é frequentemente apontada como um dos fatores associados aos salários mais elevados pagos aos trabalhadores americanos em comparação com seus equivalentes europeus.
Ainda assim, a reportagem ressalta avaliações de pesquisadores ligados ao Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo as quais o aumento da produtividade econômica não depende necessariamente da ampliação do tempo de trabalho individual. Em vez disso, especialistas defendem políticas voltadas à ampliação da participação no mercado de trabalho, incluindo mecanismos de licença parental mais abrangentes e incentivos para permanência da população economicamente ativa por mais tempo.
Enquanto o debate internacional repercute o tema, a tramitação da proposta segue avançando no Congresso Nacional. No fim de abril, duas iniciativas relacionadas ao fim da escala 6×1 avançaram em comissões legislativas. Os textos serão agora analisados por uma comissão especial antes de eventual votação nos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado.
Conheça países da América Latina que reduziram as jornadas de trabalho
A proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x 1 pode fazer o Brasil se juntar à Colômbia, ao Chile e ao México na lista dos países da América Latina que, na atual década, reduziram o tempo dedicado ao trabalho.
Com exceção da Argentina, governada por Javier Milei, que recentemente permitiu jornadas de até 12 horas diárias de trabalho, países importantes da região vêm reduzindo as jornadas a favor dos trabalhadores.
Na Colômbia, a redução da jornada de 48 para 42 horas semanais foi promulgada em julho de 2021 pelo presidente Iván Duque, um governo de direita. O projeto foi apresentado pelo então senador – e ex-presidente do país – Álvaro Uribe, uma das figuras mais proeminentes da direita latino-americana.
A lei prevê a redução gradual da jornada sem redução de salário. A primeira redução foi em 2023, quando caiu para 47 horas semanais. Apenas agora, em julho de 2026, é que a jornada semanal de trabalho na Colômbia deve chegar as 42 horas semanais, cinco anos após a promulgação da lei.
O professor de direito e relações internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), o colombiano Sebastián Granda Henao, explica que a direita colombiana tentava dar uma resposta à revolta social que estourou no país em 2019, com protestos em massa.
“Foi um processo, de certa maneira, para apaziguar os ânimos, sendo uma resposta à revolta social de 2019, aos anseios populares, evitando uma reforma maior”, explicou.
Henao lembrou ainda que a redução da jornada para 42 horas contou com aval do empresariado, apesar de ter recebido algumas críticas, passando no congresso colombiano sem grandes reações.
“Justamente porque foi proposta pela direita, acabou que não houve tanta oposição. Mas eu digo que essa reforma é conservadora. Era também para acompanhar as diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, completa.
A OIT recomenda a redução das jornadas para 40 horas semanais e tempo máximo de trabalho de até 48 horas na semana, desde que mediante pagamento de horas-extras.
O professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Dari Krein, destaca que a Colômbia era um ponto “fora da curva” por ainda permitir jornadas de 48 horas semanais. No Brasil, a redução da jornada de 48 para 44 horas foi realizada em 1988, durante a Constituinte, mais de 30 anos antes da Colômbia.
“Era um contexto em que a direita estava muito fragilizada politicamente. Foi uma forma de buscar apoio na sociedade com a discussão do processo eleitoral já iniciado, com possibilidade mesmo do [esquerdista Gustavo] Petro ganhar a eleição, pois ele já era favorito nas pesquisas eleitorais”, explica Krein.
Em abril de 2021, meses antes da promulgação da nova lei, outra onda de manifestações, ainda mais intensa que a primeira mobilizou a Colômbia, abalando as estruturas políticas do país. Para analistas, foram esses protestos que permitiram a chegada do primeiro governo de esquerda da história colombiana, com Gustavo Petro.
Eleito em junho de 2022, Petro ainda aprovou uma reforma trabalhista em junho 2025, com novos direitos, como pagamento de adicional noturno a partir das 19h, e não das 21h, como era antes. Foi instituído ainda pagamento de hora extra, valendo até 100% do valor da hora normal, para trabalho em domingos e feriados e limitação de 8 horas de trabalho por dia.
México
No México, a redução da jornada de trabalho das atuais 48 horas semanais para 40 horas foi promulgada em março deste ano, em um contexto bastante diferente da Colômbia, por meio do popular governo da esquerdista Claudia Sheinbaum. Ela sucedeu Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), também do partido Morena, que rompeu um ciclo de décadas de governos de direitas no México.
O professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Daniel Enrico Martuscelli, especialista em política mexicana, explica que o Morena herda uma crise de representação dos partidos de direita.
“Esses governos de esquerda se constituíram como governos de reformas. Atualmente, Sheinbaum tem entre 70% e 80% de aprovação, e sua coalizão tem dois terços do Parlamento, com o Morena com maioria simples. Isso dá uma grande capacidade para realizar reformas no México”, explica.
A redução da jornada começa a ser aplicada, sem redução de salário, em janeiro de 2027, de forma gradual, até chegar às 40 horas semanais em 2030.
Martuscelli acrescentou que a popularidade do governo permitiu avançar na reforma com uma limitada reação dos setores empresariais, que criticaram a redução da jornada semanal.
“A extrema-direita e a direita tradicional ocupam um papel muito residual na política mexicana, com dificuldade de se apresentar como uma força significativa, se comparado ao Brasil. Portanto, qualquer enfrentamento às iniciativas do governo tem alguma dificuldade”, avalia o especialista da UFU.
Chile
No Chile, a redução da jornada de trabalho foi levada a cabo pelo governo de centro-esquerda de Gabriel Boric. Sancionada em abril de 2023, a lei prevê a redução gradual da jornada das atuais 45 horas para 40 horas semanais, sem redução de salário.
Em 2024, a jornada foi para 44 horas. Em abril de 2026, baixou para 42, devendo chegar às 40 horas somente em 2028.
O professor da Unicamp José Dari Krein, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (CESIT), destacou que, assim como na Colômbia, a redução da jornada de trabalho no Chile é um dos efeitos da revolta social chilena que estourou em 2019.
“O ponto de virada é o ‘estalido’ social de 2019, que foi um momento de grande mobilização na sociedade chilena, especialmente da juventude, com uma crítica bastante intensa ao projeto neoliberal chileno”, explica.
O especialista acrescentou que a eleição do Boric, em dezembro de 2021, foi um resultado dessa revolta social que sacudiu o país dois anos antes.
“Ela passou no Congresso por causa da coalizão mais progressista, assim como tinha grande adesão popular e teve pressão dos movimentos sociais e sindicais”, afirma.
José Dari Krein diz ainda que houve certa pressão do empresariado contra a medida, com discurso de que isso inviabilizaria a economia do país. Ao mesmo tempo, o projeto acolheu demandas do setor produtivo, como a flexibilidade para distribuição das horas de trabalho ao longo dos dias.
“Os setores empresariais, como em qualquer lugar, se mobilizaram contra, sempre fazendo contas de que isso traria custos. O discurso é muito parecido sempre em todos os contextos e lugares”, concluiu.
No Brasil, a redução da jornada atual de 44 horas para 40 ou 36 horas semanais, com o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1), sofre oposição de setores empresariais, com pesquisas divergindo sobre os efeitos da mudança no Produto Interno Bruto (PIB) e inflação.
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