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Brasil
Trump quer definir com países seus vizinhos se comportam e se governam: a China observa
Publicado em 02/04/2026 1:02 - Semana On
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu às críticas formuladas pelo governo dos Estados Unidos ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, adotando um tom de defesa enfática da autonomia nacional sobre a ferramenta. Sem mencionar diretamente autoridades americanas, Lula afirmou que o Pix “pertence ao Brasil” e não será alterado por pressões externas, embora tenha admitido a possibilidade de aperfeiçoamentos para ampliar seu alcance social.
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A manifestação ocorre após a divulgação de um relatório do United States Trade Representative, que identifica práticas brasileiras consideradas potencialmente prejudiciais a interesses comerciais norte-americanos. Entre os pontos levantados, o documento questiona o modelo institucional do Pix, desenvolvido e operado pelo Banco Central do Brasil, sugerindo que a centralização poderia favorecer a plataforma pública em detrimento de empresas privadas estrangeiras.
Gigantes do setor financeiro e tecnológico — como Visa, Mastercard e PayPal — aparecem, ainda que indiretamente, no pano de fundo dessas preocupações, uma vez que atuam globalmente no mercado de meios de pagamento e poderiam ser impactadas por soluções nacionais amplamente adotadas.
O relatório integra a fase final de uma investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos EUA — instrumento que permite a imposição de sanções unilaterais. Caso as conclusões avancem, o Brasil pode enfrentar novas tarifas sobre suas exportações nos próximos meses, ampliando a tensão comercial entre os dois países.
Não se trata de um episódio isolado. Ainda sob a administração de Donald Trump, o Pix já havia sido classificado como possível prática desleal, dentro de um conjunto mais amplo de críticas às políticas brasileiras. Na ocasião, o escopo incluía desde questões ambientais até barreiras sanitárias e regras de propriedade intelectual.
O novo documento reforça essa agenda ao incorporar outros temas sensíveis. Entre eles, a chamada “taxa das blusinhas” — cobrança sobre compras internacionais de baixo valor — e propostas de regulação das plataformas digitais. Nesse último caso, o foco recai sobre o projeto de lei que amplia os poderes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), prevendo regras mais rígidas para grandes empresas de tecnologia, classificadas como agentes de relevância sistêmica.
A avaliação americana sustenta que tais medidas podem atingir de forma desproporcional companhias estrangeiras, sobretudo norte-americanas, ao impor exigências operacionais e sanções que podem chegar a até 20% do faturamento global.
Além disso, o relatório retoma críticas recorrentes à estrutura tarifária brasileira e a entraves regulatórios em áreas como importação, propriedade intelectual e acesso a mercados específicos — como etanol e carne suína. Também aponta inconsistências entre tarifas registradas na Organização Mundial do Comércio e aquelas efetivamente aplicadas, o que, segundo Washington, gera insegurança jurídica para exportadores.
A resposta de Lula, inserida em um discurso mais amplo sobre temas econômicos e energéticos, foi articulada após intervenção do ministro da Secretaria de Comunicação Social. O episódio evidencia não apenas a sensibilidade do tema no plano doméstico, mas também o potencial de escalada nas disputas comerciais entre Brasil e Estados Unidos, agora ancoradas em tecnologias financeiras e regulação digital — áreas cada vez mais centrais na geopolítica econômica contemporânea.
Trump quer redesenhar parte da América Latina
A formulação estratégica apresentada por integrantes do governo de Donald Trump indica uma inflexão relevante na forma como Washington passa a enquadrar a América Latina em sua política de segurança. Mais do que retomar princípios históricos, a proposta sugere uma redefinição conceitual do próprio mapa geopolítico hemisférico, com implicações diretas sobre soberania, defesa e alinhamentos internacionais.
No centro dessa reinterpretação está a ideia de uma “Grande América do Norte”, expressão já em circulação em setores do aparato de defesa dos EUA. O conceito abrange uma extensa faixa territorial que vai do Ártico até a linha do Equador, incluindo áreas tradicionalmente classificadas como parte da América Latina e do Caribe. Na prática, trata-se de reposicionar essa região como zona prioritária de interesse estratégico norte-americano, sob a lógica de segurança ampliada.
A diretriz foi detalhada pelo secretário de Defesa Pete Hegseth durante encontro com o Comando Sul dos Estados Unidos. Em sua exposição, o argumento central associa a presença de atores externos — especialmente a China — ao risco de perda de controle sobre pontos considerados sensíveis, como rotas comerciais e infraestruturas críticas, a exemplo do Canal do Panamá.
A retórica mobilizada pelo Pentágono amplia o escopo das ameaças ao incluir organizações criminosas transnacionais e fluxos migratórios, enquadrando esses fenômenos como elementos de instabilidade comparáveis a disputas interestatais. Essa abordagem reforça a tendência de militarização de temas tradicionalmente tratados no campo da segurança pública ou da cooperação regional.
Outro eixo da estratégia é o enfrentamento explícito à noção de “Sul Global”, vista por Washington como um arranjo que dilui a influência ocidental e favorece a aproximação de países latino-americanos com potências emergentes. Ao rejeitar essa categorização, o governo Trump busca reativar uma lógica hemisférica centrada na dicotomia Norte-Sul, reposicionando os Estados Unidos como polo organizador dessa relação.
A delimitação geográfica proposta — com a Amazônia e a Cordilheira dos Andes funcionando como marcos naturais — não é apenas descritiva, mas normativa. Ela estabelece, na prática, uma linha simbólica entre áreas de influência direta e zonas de cooperação condicionada, sugerindo uma hierarquização das responsabilidades em matéria de defesa.
Nesse arranjo, países ao norte do Equador seriam incorporados a um perímetro de segurança imediato, com maior presença e coordenação militar dos EUA. Já as nações ao sul assumiriam um papel complementar, voltado à proteção de rotas marítimas e recursos estratégicos, em parceria com Washington e aliados ocidentais.
Ao evocar precedentes históricos como a atuação conjunta no Segunda Guerra Mundial, o discurso oficial procura conferir legitimidade à proposta, apresentando-a como continuidade de uma tradição de cooperação hemisférica. No entanto, a ênfase na centralidade da segurança e na redefinição espacial do continente sugere uma agenda mais assertiva — e potencialmente controversa — de reorganização da ordem regional.
Para analistas, a iniciativa revela uma tentativa de responder a mudanças no equilíbrio global de poder por meio da revalorização do espaço geográfico imediato dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, reacende debates históricos sobre soberania, influência externa e os limites da atuação americana na América Latina — agora sob uma nova moldura conceitual e estratégica.
China como parceira
A escalada militar no Oriente Médio começa a produzir efeitos sistêmicos sobre a segurança energética asiática, abrindo espaço para rearranjos geopolíticos que vão além da região diretamente afetada pelo conflito. O impacto mais imediato recai sobre o Estreito de Ormuz, cuja instabilidade compromete fluxos essenciais de petróleo e gás, pressionando economias altamente dependentes de importações.
Diante desse cenário, países do Sudeste Asiático têm sido forçados a adotar respostas emergenciais. Medidas que combinam subsídios, racionamento e busca por novos fornecedores refletem não apenas a urgência da crise, mas também a fragilidade estrutural das cadeias de abastecimento regionais. Mesmo nações exportadoras de hidrocarbonetos enfrentam efeitos inflacionários e gargalos logísticos, evidenciando a interdependência do mercado energético.
A situação atingiu um ponto crítico nas Filipinas, que decretaram estado de emergência energética e passaram a implementar restrições diretas ao consumo. Outros países, como Vietnã, Indonésia e Tailândia, recorreram a instrumentos fiscais e regulatórios para conter os efeitos do aumento dos combustíveis, enquanto avaliam cenários de escassez — especialmente no setor de aviação e transporte.
Em paralelo à resposta emergencial, observa-se uma movimentação estratégica de China para ampliar sua presença na região. Pequim tem sinalizado disposição para coordenar ações com governos locais, posicionando-se como parceiro previsível em um contexto de volatilidade global. A retórica diplomática chinesa, centrada na defesa do diálogo e da contenção de tensões, converge com a postura majoritária dos países do Sudeste Asiático, que buscam evitar alinhamentos diretos no conflito.
Esse contraste ganha relevância à medida que cresce a percepção negativa sobre a atuação dos Estados Unidos na crise. A associação entre a escalada militar e a alta nos preços da energia tem alimentado críticas na região, criando um ambiente favorável à narrativa chinesa de defesa do multilateralismo e da estabilidade.
Ainda assim, a aproximação com Pequim não elimina vulnerabilidades. Restrições recentes impostas pela própria China às exportações de combustíveis expõem os limites dessa parceria, obrigando países como o Camboja a buscar alternativas em um mercado já pressionado. A crise, portanto, não apenas redistribui influências, mas também evidencia a complexidade das dependências energéticas contemporâneas.
No horizonte de médio e longo prazo, o episódio tende a acelerar uma inflexão já em curso: a diversificação das matrizes energéticas. A instabilidade reforça o apelo por fontes renováveis, setor no qual a China ocupa posição dominante. Com forte presença em cadeias produtivas de baterias, veículos elétricos e energia solar, o país asiático se beneficia não apenas da crise, mas das respostas estruturais que ela desencadeia.
Esse movimento foi sinalizado no Fórum de Boao, onde lideranças regionais destacaram o papel potencial de Pequim na promoção da estabilidade e da integração energética. A cooperação com a Associação de Nações do Sudeste Asiático, especialmente no desenvolvimento de redes elétricas e tecnologias limpas, surge como vetor estratégico de longo prazo.
Assim, mais do que uma crise conjuntural, o choque energético provocado pelo conflito no Oriente Médio atua como catalisador de uma reorganização geoeconômica. Entre respostas emergenciais e reposicionamentos estruturais, o Sudeste Asiático se torna palco de uma disputa silenciosa por influência — na qual energia, diplomacia e tecnologia se entrelaçam de forma cada vez mais decisiva.
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