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Brasil
Como o bairro de nascimento ainda determina o futuro no Brasil
Publicado em 19/08/2025 10:36 - Semana On
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Nascer em um bairro nobre ou na periferia continua sendo, no Brasil, um fator mais determinante para o futuro de uma pessoa do que o esforço individual ou a qualidade da educação que ela recebe. A desigualdade de oportunidades no país segue atravessada por marcadores como local de nascimento, classe social, raça e gênero — uma equação que o economista Michael França, doutor pela USP, chama de “loteria do nascimento”.
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Nascido no bairro Costa Teles 1, periferia de Uberaba (MG), filho de uma trabalhadora doméstica que estudou até o primeiro colegial, França poderia ser considerado um símbolo da ascensão social pela educação. Doutor em Teoria Econômica pela USP, pesquisador visitante em Columbia e Stanford, e hoje coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, ele, no entanto, desconstrói essa narrativa com base em dados e experiência própria.
“Pontos de partida desiguais fazem com que a loteria de nascimento seja determinante. Se você nasceu numa família rica, sendo um homem branco, hétero, numa cidade de um país desenvolvido, suas chances são muito maiores do que, por exemplo, as de uma mulher lésbica de uma favela do interior do Acre”, afirma França. Em seu mestrado e doutorado na USP, foi o único aluno negro da turma. “Se eu soubesse lá atrás o quão rara era aquela minha presença ali, talvez tivesse desanimado”, diz.
França lança nesta quarta-feira (20/8) o livro A Loteria do Nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico, em coautoria com o sociólogo Fillipi Nascimento (Editora Jandaíra). A obra defende que, mesmo com o avanço de políticas afirmativas nas últimas décadas — como o Prouni, que completa 20 anos em 2025 com mais de 3,5 milhões de bolsas concedidas —, a desigualdade estrutural permanece.
“A expectativa é que quem não tem patrimônio familiar, mas conquista educação, terá alta renda, começará a acumular riqueza e romperá o ciclo. Mas não é bem assim”, afirma o economista. Para ele, é ilusória a crença de que a desigualdade brasileira decorre exclusivamente da falta de educação de qualidade. “Existe a ideia de que a desigualdade existe porque não há educação de qualidade — e não porque o sistema tributário é injusto, ou porque o governo é mais benevolente com os ricos, ou porque valores culturais, cor ou gênero favorecem determinados grupos.”
O bairro como destino
O cenário se agrava quando se observa a lógica espacial da desigualdade urbana. Em cidades como Campo Grande (MS), o valor do metro quadrado revela, por si só, a segregação social. Segundo o último relatório FipeZAP, referente a julho de 2025, o bairro Santa Fé apresenta o maior valor de aluguel residencial da capital sul-mato-grossense: R$ 94,2/m², enquanto bairros como Tiradentes (R$ 35,1/m²) e São Francisco (R$ 34,4/m²) revelam um fosso de acesso a moradia digna em áreas valorizadas da cidade.
A localização do imóvel impacta diretamente o acesso a serviços públicos de qualidade, rede de contatos, mobilidade urbana, segurança e até a expectativa de vida. Uma criança que nasce no Santa Fé terá mais acesso a escolas privadas, segurança e redes de apoio que ampliam suas chances de ascensão. Já uma nascida em bairros como Pioneiros (R$ 32,2/m²) ou Rita Vieira (R$ 28,9/m²) enfrenta obstáculos sistêmicos antes mesmo de chegar à escola.
Não é apenas uma questão de moradia: o bairro é um vetor de oportunidades — ou de sua ausência. O geógrafo britânico David Harvey já alertava, em sua obra Justiça Social e a Cidade, que a organização do espaço urbano nas grandes cidades reproduz e aprofunda desigualdades sociais, ao invés de combatê-las.
Mobilidade social estagnada
O Brasil é um dos países com menor mobilidade social entre as economias emergentes, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Um relatório de 2018 da própria OCDE apontou que, no Brasil, levaria nove gerações para que um descendente de uma família pobre alcance a renda média nacional — número muito superior à média dos países ricos, de cinco gerações.
A “loteria do nascimento”, portanto, não é apenas uma metáfora. É uma realidade estatística. Segundo pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), apenas 12,7% das crianças nascidas nos 20% mais pobres da população conseguem chegar aos 20% mais ricos ao longo da vida.
Políticas públicas: avanços e limites
Embora programas como o Prouni e o Fies tenham ampliado o acesso ao ensino superior nas últimas duas décadas, eles não conseguiram, sozinhos, desfazer os entraves estruturais que impedem a mobilidade social. O próprio Michael França reconhece os avanços, mas insiste que é preciso ir além da educação. “A desigualdade brasileira exige políticas redistributivas robustas, revisão do sistema tributário e combate aos privilégios históricos que se perpetuam.”
A crítica atinge em cheio a ideia meritocrática que sustenta grande parte do discurso dominante sobre pobreza e sucesso no Brasil. A crença de que “quem se esforça chega lá” ignora os dados, a realidade das periferias e o peso do CEP de nascimento.
Como bem sintetizou a socióloga norte-americana Annette Lareau em seu estudo Unequal Childhoods, o destino de uma criança é frequentemente traçado não por suas escolhas, mas pelas estruturas sociais em que ela nasce — e pelas oportunidades que lhe são negadas desde o berço.
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