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Brasil

O Brasil que aplaude a barbárie

Adesão à violência policial revela doença moral na democracia brasileira: a crença de que Justiça se faz com execuções

Publicado em 01/11/2025 10:06 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A operação policial que deixou 121 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, foi considerada um sucesso por mais da metade da população da cidade — e, ainda mais surpreendente, por 87,6% dos moradores das próprias favelas onde ela ocorreu. Essa aprovação em massa, captada por pesquisas da AtlasIntel e do Datafolha, não apenas legitima a ação mais letal da história recente do Brasil, como evidencia um adoecimento profundo da consciência democrática nacional: o aplauso à violência estatal como resposta ao crime, mesmo quando ela atropela a legalidade, a dignidade e a vida.

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“Bandido bom é bandido morto.” A frase, que por décadas circulou como expressão da truculência autoritária em setores marginais do debate público, hoje ecoa com naturalidade nas instituições e nas ruas — respaldada por 51% da população fluminense, segundo o Datafolha. Pior: ela parece ter se convertido em política de Estado, quando se observa que uma operação com 121 mortos é celebrada por 57% da população da capital e da região metropolitana como um “sucesso”.

Mais grave ainda é constatar que 87,6% dos moradores das favelas cariocas, onde a violência aconteceu, aprovam a megaoperação, segundo levantamento da AtlasIntel. Nacionalmente, esse número se repete: 80,9% dos moradores de comunidades em todo o país consideraram a ação legítima.

Como explicar que aqueles que estão mais expostos à brutalidade policial vejam nela um alívio, e não uma ameaça?

Entre a desesperança e o autoritarismo cotidiano

Essa aparente contradição revela uma fissura na alma brasileira: a convivência diária com o medo, a ausência do Estado em sua função protetiva e a presença quase exclusiva das forças armadas e policiais como representação estatal nas periferias transformam o desejo por segurança em cumplicidade com o arbítrio. O sociólogo francês Didier Fassin, estudioso das violências estatais, aponta que “a polícia é o espelho das relações de poder em uma sociedade”. No Brasil, esse espelho reflete um pacto implícito: vale tudo para “limpar” o território, mesmo que isso custe vidas — sobretudo se forem vidas já marcadas pela exclusão.

E aqui entra a seletividade da Justiça. Dos 121 mortos, ao menos 78 tinham passagens policiais, segundo o governo. Mas apenas seis tinham mandado de prisão em aberto. O governador Cláudio Castro (PL) resumiu a ação com a frase: “de vítima, só tivemos os policiais”. A declaração escancara a lógica que transforma suspeitos — ou mesmo inocentes — em culpados, com direito a execução sumária.

Se histórico criminal fosse motivo para executar bandidos, quantos políticos estariam mortos? O Brasil convive com ex-presidentes e parlamentares com extenso currículo criminal, sem que isso jamais tenha sido justificativa para pena de morte. Porque, afinal, o devido processo legal é a espinha dorsal de qualquer democracia.

Chacinas como política pública

A operação do último dia 28 nos Complexos da Penha e do Alemão inscreve-se numa tradição de uso da letalidade como instrumento político. Em 2021, a Chacina do Jacarezinho resultou em 28 mortes, sob justificativas semelhantes: todos seriam criminosos. Meses depois, o Ministério Público do Rio denunciou execuções sumárias, manipulação de provas e plantação de armas. A mais simbólica delas: Omar Pereira da Silva, ferido e rendido, foi executado dentro de um quarto infantil. Cena que se repete com novas vítimas, agora sob o pretexto de que “tinham ficha criminal”.

Esse padrão desvela mais do que falhas operacionais. Ele expõe a transição perigosa de um modelo de segurança pública para uma lógica de justiçamento extrajudicial, onde a polícia deixa de cumprir a função constitucional de investigar e prender, e passa a ser acusadora, julgadora e executora — tudo ao mesmo tempo.

“Quando o Estado mata fora da lei, ele não combate o crime — ele se iguala ao criminoso”, já alertava o jurista italiano Luigi Ferrajoli, referência em garantismo penal.

A necropolítica como estratégia eleitoral

O alto índice de aprovação da operação tem um componente político claro. O governador Cláudio Castro, pré-candidato ao Senado, se apoia no discurso da “guerra contra o crime” para capitalizar eleitoralmente. A estratégia repete o enredo já visto na ascensão de figuras como Wilson Witzel, que prometeu “mirar na cabecinha” de criminosos e foi eleito em 2018 com apoio massivo após episódios de violência estatal televisionada.

Esse cenário se insere no que o filósofo camaronês Achille Mbembe denomina necropolítica — o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Nas favelas brasileiras, essa decisão tem cor, classe e CEP.

E, ainda que haja nuances importantes nas pesquisas — como o fato de 77% dos entrevistados priorizarem investigações a mortes, ou 73% discordarem que “quem morre em operação é sempre bandido” —, o peso da narrativa oficial sobrepõe-se a esses dados. A repetição institucional da ideia de que “os mortos mereciam morrer” reforça a naturalização da exceção como regra.

Democracia sem due process é só um verniz

É nesse contexto que o Brasil precisa confrontar uma verdade desconfortável: uma democracia que convive pacificamente com execuções extrajudiciais é uma democracia doente. Não se trata de defender o crime ou desmerecer a angústia real da população com a violência urbana. Trata-se de reafirmar que não há segurança legítima sem Justiça. E Justiça não se faz com balas.

A Constituição de 1988, ainda vigente, garante a todos o direito à vida, ao devido processo legal, à ampla defesa. Não há exceções para quem tem ficha corrida. Nem para quem mora no asfalto ou no morro. Quando o Estado escolhe matar em nome da segurança, sem prestar contas à sociedade e às instituições de controle, ele rompe o pacto democrático mais básico: o de que a lei vale para todos — inclusive para o próprio Estado.

A democracia brasileira sobreviveu a uma ditadura, a tentativas de golpe e a sucessivas crises institucionais. Mas talvez o maior risco hoje seja esse: perder-se em meio a aplausos, quando aqueles que deveriam proteger a vida se transformam em algozes — e ainda são vistos como heróis.

SOMOS MONSTROS?


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