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Especial

SOMOS MONSTROS?

O Brasil olha para o abismo ao relativizar a morte de 120 pessoas

Publicado em 30/10/2025 11:28 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Ao relativizarmos a barbárie, nos transformamos naquilo que dizemos combater. Quando o Estado executa e mutila corpos sob a justificativa do combate ao crime, e a sociedade reage com indiferença — ou, pior, com aplauso —, não estamos diante de uma operação bem-sucedida, mas da corrosão de nossos próprios fundamentos civilizatórios. A chacina que deixou ao menos 119 mortos no Rio de Janeiro não é apenas um episódio de violência extrema: é um espelho. Nele, vemos refletida a face monstruosa de um país que, ao banalizar a morte nas favelas, dessacraliza a vida e enfraquece sua democracia. O debate aqui não é sobre defender criminosos, mas sobre defender o limite que separa o uso legítimo da força do crime de Estado. Quando aceitamos que suspeitos — rendidos, desarmados, torturados — sejam decapitados em nome da ordem, rompemos esse limite. E, ao fazer isso, não apenas matamos — nos desumanizamos.

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A operação policial realizada na terça-feira (28) contra o tráfico de drogas nos complexos da Penha e do Alemão, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, foi marcada por execuções e torturas e classificada como carnificina por moradores, parentes dos mortos e pela Associação de Moradores do Parque Proletário da Penha.

Jornalistas da Agência Brasil entrevistaram testemunhas que tentaram socorrer as vítimas nas primeiras horas ou ajudaram na remoção dos corpos. Segundo a contagem oficial do governo do estado, são ao menos 119 vítimas (115 civis e quatro policiais). É a operação mais letal da história da capital fluminense.

Para impedir a fuga dos suspeitos, a estratégia das polícias foi invadir as comunidades e montar “um muro” com agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), bloqueando a fuga pelo alto da mata que circunda as duas comunidades. No local, segundo os relatos, se deu o confronto mais violento, com sinais de tortura e execução de dezenas de corpos resgatados e dispostos na manhã de hoje em frente à associação comunitária, na Praça São Lucas, na localidade conhecida por Vila Cruzeiro.

“A gente ouviu os gritos e pedidos de socorro e subiu para ajudar. Eu moro perto. Entrei na mata 3h da manhã.”, contou um morador. O homem, de 25 anos, que preferiu não se identificar, contou que, naquele momento, a polícia ainda estava no local e tentou impedir a ajuda.

“Eles não paravam de dar tiro, tacar bomba de gás [lacrimogêneo] e, em muitos momentos, a gente teve que se proteger. Eles dando tiro, a gente se escondendo no meio dos corpos para prosseguir”, relatou.

A testemunha esteve, mais cedo, no Instituto Médico-Legal (IML) para tentar liberar o corpo de um primo, morto na operação. Na tentativa de socorro, o homem revelou que o cenário na mata era desolador.

“A gente encontrou muitos mortos sem camisa, fuzilados, com mãos e dedos decepados e também decapitados. Eu vi bem uma cabeça que estava entre os galhos de uma árvore e o corpo jogado no chão”, disse.

Ele mostrou à reportagem o vídeo da vítima encontrada nessas condições, identificada como Ravel. Fotógrafos que estiveram na área mais cedo também encontraram vítimas mortas com a cabeça cortada por faca.

Segundo a testemunha, os moradores que participaram do resgate acessaram ainda celulares encontrados no local ou receberam áudios contando que alguns mortos tinham se rendido, antes da execução, contrariando a versão do governo do estado de que os mortos foram vitimados em confronto.

“Vocês viram os vídeos dos meninos saindo do bunker, ontem, se entregando? Eles não são um terço dos que se entregaram. Teve gente que pediu perdão, se ajoelhou, jogou os fuzis, mas foi morta”.

O presidente da associação comunitária de Parque Proletário, Erivelton Vidal Correa, em entrevista na sede da entidade, na Penha, confirmou o depoimento da testemunha ouvida pela Agência Brasil e disse que desde às 19h da noite de terça, as famílias tentavam subir a mata para ajudar as vítimas. Ele avaliou que, se o socorro tivesse chegado antes, possivelmente, o número de mortos poderia ter sido menor.

A entidade chegou a levar seis baleados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, ontem, mas eles chegaram mortos à unidade.

“Retiramos um total de 80 corpos da área conhecida como Mata da Pedreira, com o nosso sistema, nossa mão de obra. Pedimos aos moradores que trouxessem lençóis, toalha, canga, o que tivessem, para ajudar com as remoções”, contou Correa.

Tortura

O presidente da associação também confirmou os sinais de tortura e execuções: “Muitos corpos deformados, com perfurações no rosto, perfurações de faca, cortes de digitais, dois corpos decapitados, a maioria dos corpos não tinha face, essa era a condição”. Entre eles, o de dois irmãos manauaras. “Eles foram mortos abraçados com um tiro na cara cada um e tiveram as digitais cortadas”.

Segundo Correa, durante todo o período de 11 anos que esteve na associação da Penha, nunca tinha se deparado com cenário tão violento. “Foi uma arbitrariedade muito grande. A gente sabe que o Estado tem que trabalhar, mas trabalhar direito, o que aconteceu aqui foi um genocídio, uma carnificina”, disse.

“Eu não estou aqui para falar das escolhas de vida de cada um. Não estou aqui para falar nem mal, nem bem, da polícia ou do tráfico. Agora, todos os corpos que nós pegamos ali, antes, eles estavam vivos nas mãos deles [da polícia]. Eles podiam prender, mas não, mataram e largaram no mato”.

Essa é a mesma opinião de Paula*, uma moradora que acompanhou a chegada dos corpos à sede da associação. “Foi um esculacho desnecessário. Se eles [polícia] vieram para fazer busca e apreensão, tinham que ter feito, e não matar a facada, tirar a cabeça, além dos policiais, os que estavam aqui também têm família, mãe, pai, esposa, filhos. E foram encontrados neste estado”, disse.

Entre as vítimas, além de suspeitos de tráfico de drogas, Vidal Correa denuncia que há moradores. “São pessoas daquela região, que a gente chama de ‘lá de trás’ e que criavam cavalos. Eles vão no mato buscar comida para os animais. Então, infelizmente, estavam no momento errado, na hora errada e sofreram perdendo a vida”, denunciou. “Esperamos que isso seja esclarecido”, completou. Hoje mesmo o IML começou o reconhecimento e liberou os primeiros corpos para enterro.

Perguntado sobre a razão de a polícia ter optado por deixar as vítimas mortas no local e até impedido o socorro, Vidal acredita que a opção foi para não gerar provas. “Se levassem para o hospital ou chamado a delegacia, ia comprovar o genocídio. Era mais conveniente largar para trás”, completou.

Dono de uma agência funerária que atua na comunidade há 22 anos, Fernando Argivaes coordenou um grupo de seis pessoas que ajudou no resgate e deu o mesmo relato: “O estado dos corpos é precário. Foi uma verdadeira chacina, uma carnificina”, disse. Eles encontraram pessoas mortas na mata, entre as pedras e chegaram a usar uma escada de eletricista. “Os corpos ficaram lá no meio do mato, na pedreira, gente que foi executada no local, pela maneira que foi, não foi auto de resistência (em confronto). Estavam escondidos e foram executados quando encontrados.

Foi Fernando que chegou ao corpo dos dois irmãos de Manaus mortos abraçados e fez a remoção. Ele informou que haverá o traslado dos mortos, assim que houver a liberação pelo IML. A maior parte dos corpos deve ser liberada somente amanhã (30), a partir da identificação pela Polícia Civil.

Mães de mortos questionam operação

Mães de mortos também questionaram a operação e denunciaram execuções de rendidos. “Está ouvindo os tiros?”, pergunta Elizângela Silva à reportagem, enquanto exibe um vídeo de celular gravado de dentro da mata. “Eles estavam vivos quando a gente tentou subir a mata e a polícia jogou tiro contra nós”. Ela é vizinha da mãe de uma das vítimas. “O menino pediu ajuda de manhã: ‘mãe, me ajuda, pelo amor de Deus’, mas chegou de noite, eles pegaram e mataram todos que estavam lá

Elieci Santana, 58 anos, dona de casa. Ela conta que o filho Fábio Francisco Santana, de 36 anos, mandou mensagem dizendo que estava se entregando e compartilhando sua localização. “Meu filho se entregou, saiu algemado. E arrancaram o braço dele no lugar da algema”, diz.

A confeiteira Tauã Brito, cujo filho Wellington morreu durante a operação, diz que muitos ainda estavam vivos ontem na mata, apesar de baleados.  “Ontem eu fui lá no Getúlio [Hospital Getúlio Vargas] pedir para subirem com a gente, para gente poder salvar esses meninos. Ninguém podia subir. Eles estavam vivos”, afirma.

Segundo ela, os moradores começaram a entrar na mata para procurar os feridos somente à noite, depois que a polícia tinha ido embora. “Ficamos lá, cada um caçando seus filhos, seus parentes. Isso aí está certo para o governo?”, questiona.

“Não vai dar em nada. A verdade é essa. Porque aqui tem um montão de gente chorando, mas lá fora tem um montão de gente aplaudindo. Isso que eles fizeram foi uma chacina”, lamentou.

“Arrancaram a cabeça do meu sobrinho e colocaram numa árvore. Deixaram o corpo do meu sobrinho em um lado e a cabeça em outro. Agora eu te pergunto: se isso é um policiamento treinado para uma operação?”, disse a cuidadora de idosos e manicure Beatriz Cristina Dias Nolasco, moradora do Complexo do Alemão.

Yago Ravel Rodrigues, o sobrinho de Beatriz, era mototaxista e tinha uma filha de 2 anos e, segundo ela, não morava no morro do Alemão. Ele havia ido até lá para visitar a avó e desapareceu após tentar retornar para a casa da mãe, no momento em que a operação começou.

O defensor público André Castro, que estava prestando atendimento às famílias no IML do Rio, afirmou que há dificuldade para agilizar o reconhecimento dos corpos e possibilitar o luto das famílias.

“Nós sequer sabemos os nomes de todas essas pessoas, muitas delas ainda não foram recolhidas do mato, né? A defensora subcoordenadora do núcleo de direitos humanos da Defensoria Pública saiu agora da Penha, subiu o mato e viu corpos ainda que não foram recolhidos”, disse.

André Castro afirmou que os defensores públicos já estão identificando, nas audiências de custódia relacionadas ao caso, relatos que denunciam violações de direitos nas comunidades.

“Já existem essas informações, defensores públicos que atuam na audiência de custódia já têm verificado isso, inclusive relatos de policiais que invadiram o domicílio sem qualquer autorização legal, sem qualquer permissivo constitucional para fazer”, afirmou.

O advogado Albino Pereira, que representa algumas das famílias, acompanhou a ação. Na avaliação dele, há sinais claros de tortura, execução e outras violações de direitos.

“Você não precisa nem ser perito para ver que tem marca de queimadura [na pele]. Os disparos foram feitos com a arma encostada. Chegou um corpo aqui sem cabeça. A cabeça chegou dentro de um saco, foi decapitado. Então isso aqui foi um extermínio”, aponta.

Fundador da ONG Rio da Paz, Antonio Carlos Costa acompanhou as cenas na Praça São Lucas e criticou a letalidade da operação. “Não há uma invasão aqui do Estado na sua plenitude, trazendo saneamento básico, moradia digna, acesso à educação de qualidade, hospitais decentes. Por que historicamente a resposta tem que ser essa? E por que a sociedade não se revolta?”, questionou.

Isabela Cristina, moradora da Vila Cruzeiro, que também aguardava para reconhecer o corpo do afilhado no IML do Rio, contou que passou a madrugada procurando pelo jovem na mata, até receber a informação de que ele teria sido preso. Poucas horas depois, recebeu a notícia da morte. “Cinco horas da manhã me ligaram falando que o corpo dele estava na mata”, relatou.

“Eu vi ele com a cara arrebentada, que ele tomou um tiro na cara, estava baleado na perna, estava todo esfaqueado. O dedo dele do pé estava quebrado, estava torto”, completou.

A moradora da Vila Cruzeiro precisou ir até o Detran para reconhecer oficialmente o corpo e liberá-lo para o enterro. Já passava das 11h quando falamos com ela e ainda não havia sido chamada para fazer o reconhecimento.

Para muitas famílias, o reconhecimento dos corpos se transforma em um novo trauma e, para a Defensoria, a falta de transparência e de perícia independente é uma barreira para a responsabilização e a reparação.

Eram todos bandidos?

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, afirmou que, na ausência de perícia, as autoridades utilizam “todo o contexto” para afirmar que os 115 civis mortos eram envolvidos com o tráfico de drogas nos complexos do Alemão e da Penha.

Segundo Santos, o governo se baseia em informações como o horário em que ocorreram as mortes, os locais onde as pessoas estavam e as roupas que elas usavam para chegar a essa conclusão.

“Há base para dizer que os 115 mortos são criminosos. Claro que a gente vai fazer a pesquisa, mas não é um fato se, eventualmente, algum deles não tiver antecedentes criminais, se tornar vítima ou inocente. A história do Rio de Janeiro já mostrou que criminosos, apesar de vasta vida criminosa, não tem antecedentes”, disse Santos.

“A gente não consegue imaginar um inocente utilizando um colete balístico, mesmo se não tiver com arma naquele momento. A gente não consegue imaginar um inocente usando um uniforme camuflado”, completou ele.

Sociedade Civil se manifesta

A megaoperação no Rio desencadeou uma forte reação de organismos internacionais, organizações civis e instituições acadêmicas. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à OEA, cobrou uma “investigação plena” e afirmou estar monitorando a situação brasileira, com possibilidade de enviar uma missão ao país. A ONU e a Anistia Internacional seguiram na mesma linha, apontando para violações graves dos direitos humanos. A ação foi classificada como “desastrosa”, “fracasso retumbante” e reflexo de uma lógica de extermínio. Enquanto isso, o governo estadual comemora os resultados.

A relatora da CIDH para o Brasil, Roberta Clarke, declarou em entrevista exclusiva ao portal UOL que a comissão “está ativamente coletando e verificando informações de múltiplas fontes” e “espera que haja uma investigação completa” sobre as circunstâncias da operação e sobre as identidades das vítimas — muitas ainda não confirmadas oficialmente. Clarke não descartou o envio de uma delegação ao Brasil para acompanhar as apurações in loco, caso as autoridades nacionais não garantam o devido processo.

A CIDH já atuou em episódios marcantes da história brasileira, como no caso da Guerrilha do Araguaia, em 2010, quando condenou o Estado brasileiro por não esclarecer o desaparecimento de opositores da ditadura militar. O eco desse passado parece se repetir — com novos atores e métodos, mas com o mesmo desrespeito à vida e à memória das vítimas.

A preocupação internacional ganhou força com a manifestação do secretário-geral da ONU, António Guterres. Por meio de seu porta-voz, Stéphane Dujarric, Guterres expressou “profunda preocupação com o grande número de vítimas” e pediu que “qualquer ação policial siga as normas internacionais de direitos humanos”.

O recado da ONU é direto: o Brasil está sob observação. A legitimidade de suas instituições democráticas, especialmente no campo da segurança pública, passa por sua capacidade de investigar e corrigir excessos — e de evitar que o combate ao crime se torne, ele próprio, um crime.

A diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, foi ainda mais contundente. “É preciso dizer que essa operação não é um sucesso. É desastrosa. Qualquer pessoa sabe que assassinato e sucesso não entram na mesma frase”, afirmou em entrevista à TV Brasil.

Werneck denuncia que os policiais não tinham “controle do ambiente” e falharam em cumprir seu “dever de proteção da vida e do patrimônio”. Ela também criticou duramente o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), cuja declaração classificando a ação como “um duro golpe na criminalidade” foi interpretada como um estímulo à ilegalidade. “O fracasso é para todas e todos nós”, disse Werneck, ao destacar o trauma coletivo nas comunidades impactadas.

A Anistia afirma estar coletando relatos e evidências junto a outras entidades da sociedade civil para responsabilizar judicialmente os envolvidos. “O mundo inteiro está vendo”, alertou.

A Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com mais de 40 instituições, publicou o Manifesto por uma Segurança Pública Cidadã para o Rio de Janeiro, no qual denuncia a “insustentabilidade das políticas estaduais de segurança” e condena o uso da força como prática sistemática contra populações vulnerabilizadas. O documento afirma que “não se trata de um conflito armado não intencional, mas de um fenômeno multidimensional que há muito adoece nossa cidade”.

A crítica é dura: a operação é vista como expressão da necropolítica, conceito formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para descrever a gestão da morte pelo Estado como forma de dominação. Segundo o manifesto, esse modelo “cancela o sonho de estudantes, impede o tratamento de doentes e rouba a tranquilidade das famílias”.

Entre os signatários estão a UFRJ, o Instituto Fogo Cruzado, as Redes da Maré, o Cebes, a Abrasco e movimentos de mães de vítimas da violência. Todos apontam para a violação de direitos fundamentais, agravada pela interrupção de serviços públicos durante a operação — prática que contraria diretamente a ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, decisão do Supremo Tribunal Federal que impôs limites às ações policiais em comunidades durante a pandemia e estabeleceu diretrizes para reduzir a letalidade.

A lógica de confrontos armados em favelas não é nova. Desde a redemocratização, o Brasil oscila entre políticas de segurança repressivas e tentativas de abordagens mais estruturais — como as UPPs, que, apesar de suas falhas, representaram um esforço de intervenção mais duradoura nos territórios. Contudo, nos últimos anos, sobretudo a partir da intervenção federal no Rio em 2018 e do avanço de discursos militarizados na política, o pêndulo voltou a oscilar para o lado da força bruta.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 6.400 mortes por intervenção policial em 2022, sendo o Rio de Janeiro responsável por cerca de 20% desse total. Em muitas dessas ações, as vítimas são jovens, negros e moradores de comunidades. A cifra, por si só, escancara o fracasso de uma política que combina racismo estrutural, desigualdade social e desprezo pela legalidade.

Como escreveu o sociólogo francês Loïc Wacquant, especialista em desigualdade urbana e encarceramento em massa: “Quando o Estado abandona as políticas sociais e aposta na repressão, a polícia se torna a única face do poder visível nas periferias.”

Governo federal e Rio criam força emergencial

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro anunciaram a criação de um escritório emergencial de integração entre forças federais e estaduais.

A coordenação será compartilhada entre o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, e o secretário estadual Victor Santos. A iniciativa, segundo Lewandowski, é um embrião da futura estrutura que o governo federal pretende instituir com a PEC da Segurança Pública, atualmente em discussão no Congresso. “Queremos entrosamento entre forças federais, estaduais e até municipais no enfrentamento deste flagelo”, afirmou o ministro.

O novo escritório busca ações “100% integradas”, nas palavras de Castro, para driblar entraves burocráticos e respeitar competências institucionais — discurso que revela, por trás da tecnocracia, a dificuldade crônica do Estado brasileiro em articular-se de forma eficaz diante de desafios complexos, como o avanço das facções criminosas.

Um dos pontos de atrito entre as esferas estadual e federal está no uso da expressão “narcoterrorismo”, adotada pelo governo do Rio para descrever o poderio das facções. Lewandowski foi taxativo ao rejeitar o termo: “Uma coisa é terrorismo, outra coisa são facções criminosas”, explicou o ministro. “O terrorismo envolve sempre uma questão ideológica. Facções criminosas praticam crimes sistemáticos tipificados no Código Penal.”

A crítica de Lewandowski revela mais do que uma discordância técnica: trata-se de um posicionamento político-legal estratégico. Classificar o crime organizado como terrorismo pode abrir brechas para interpretações jurídicas perigosas, que afrouxem garantias legais ou justifiquem ações excepcionais sob o pretexto de “combate ao terror”.

Como aponta o jurista e professor de Direito Penal Luiz Flávio Gomes (1957–2020), “a ampliação indevida do conceito de terrorismo pode ser um passo em direção ao autoritarismo jurídico, ao justificar a suspensão de direitos sob uma lógica de exceção”.

A hipótese de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO) — que envolveria a atuação das Forças Armadas — foi descartada tanto pelo governador quanto pelo ministro. Lewandowski reforçou que se trata de uma medida excepcional, prevista no artigo 142 da Constituição, e que não foi sequer formalmente solicitada. Castro minimizou o tema, explicando que a menção à GLO se deu apenas no contexto da requisição de blindados, anteriormente negada por falta da decretação.

Nova legislação endurece combate, mas enfrenta velhos desafios

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou hoje (30) uma nova lei que endurece o combate ao crime organizado. A legislação, aprovada pelo Congresso, cria dois novos tipos penais: “obstrução de ações contra o crime organizado” e “conspiração para obstrução”, com penas de 4 a 12 anos. Também reforça a proteção a servidores da segurança pública e a seus familiares.

Entre as mudanças mais relevantes, está a determinação de que condenados por obstrução e conspiração comecem a cumprir pena em presídios federais de segurança máxima — medida vista como resposta direta à dificuldade de conter o poder de comando de líderes criminosos mesmo a partir de dentro do sistema prisional.

O artigo 288 do Código Penal também foi modificado para punir contratantes de crimes realizados por facções com a mesma pena dos executores — uma tentativa de atingir as estruturas de comando e financiamento do crime, e não apenas sua base operacional.

Segurança pública como pacto de Estado, não de ocasião

O cenário do Rio é, mais uma vez, um microcosmo de um dilema nacional: o fracasso em construir políticas públicas de segurança que transcendam gestões e ciclos eleitorais. A integração entre os entes federativos é uma exigência constitucional, não uma inovação de ocasião. O Brasil já tem, desde 2018, o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), cuja implementação ainda engatinha diante da ausência de coordenação real e financiamento robusto.

O cientista político Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de segurança pública, defende que “não existe solução duradoura para a crise da segurança que não passe pela reforma das polícias, investimento em inteligência, controle externo rigoroso e políticas sociais integradas”.

O novo escritório emergencial pode representar um passo importante — mas não será suficiente se continuar refém de disputas políticas, sem um plano de longo prazo, com foco em inteligência, governança e proteção dos direitos humanos. O combate ao crime não pode ser apenas espetáculo; precisa ser política pública com base em evidências, responsabilidade institucional e compromisso democrático.

Lula reage a ofensiva política e defende ação coordenada contra o crime

Diante do rastro de mortos Lula recorreu às redes sociais para defender um “trabalho coordenado” contra o tráfico — sem arriscar a vida de inocentes e policiais. A declaração, feita na noite de ontem diante do uso político do massacre pelo governador Cláudio Castro e aliados. Lula percebeu a armadilha.

“Não podemos aceitar que o crime organizado continue destruindo famílias, oprimindo moradores e espalhando drogas e violência pelas cidades. Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, afirmou o presidente.

A mensagem foi cuidadosamente roteirizada para reposicionar o presidente num campo minado: o da segurança pública — tema historicamente instrumentalizado por setores conservadores. Ao mesmo tempo em que defende o combate ao crime organizado, Lula evita a legitimação de ações letais como a que chocou o país. O silêncio inicial, criticado por aliados e explorado por adversários, deu lugar a uma resposta que tenta articular segurança e direitos humanos como partes de um mesmo projeto de Estado.

“É o modelo de combate que Lula quer vender à opinião pública: estratégico, silencioso, eficaz — e sem cadáveres”, afirmou o cientista político Cláudio Couto (FGV) em entrevista ao Estadão.

A movimentação de Lula para retomar a narrativa revela uma disputa central: a construção de um modelo de segurança pública que seja efetivo, democrático e sustentável. A PEC da Segurança, mencionada pelo presidente em sua postagem, pretende institucionalizar mecanismos de cooperação federativa, hoje fragilizados e operando sob improviso ou pressão midiática.

“Vamos garantir que as diferentes forças policiais atuem de maneira conjunta no enfrentamento às facções criminosas”, escreveu o presidente. Mas a promessa exige mais que coordenação tática: demanda reformas profundas, investimento em inteligência, controle externo das polícias e políticas sociais de médio e longo prazo.

Como aponta o sociólogo Michel Misse, referência nos estudos sobre violência urbana, “as facções prosperam onde o Estado está ausente ou se apresenta apenas como força de repressão. O enfrentamento precisa ser multifacetado”.

A fala recente de Lula em Jacarta — quando afirmou que “os traficantes são, em parte, vítimas dos usuários” — gerou ruído e foi aproveitada pelos opositores como evidência de uma suposta leniência presidencial com o crime. O episódio expôs os riscos da retórica desconectada do senso comum sobre segurança, especialmente num momento em que a violência urbana atinge novos patamares.

Agora, o presidente parece empenhado em reconstruir sua posição. A resposta à crise no Rio foi construída para escapar do dilema clássico entre repressão e omissão. O foco na “espinha dorsal” do tráfico — suas redes financeiras e logísticas — é uma tentativa de sair do círculo vicioso de confrontos sangrentos e intervenções episódicas.

Mas a dúvida persiste: haverá capacidade e vontade política para transformar discursos em ações estruturantes? A história recente da segurança pública no Brasil não oferece muitas garantias.

Foco em chefes, e não no caixa, mina eficácia de ações contra o Comando Vermelho

A operação policial no Rio de Janeiro escancarou uma estratégia recorrente e ineficaz: o foco exclusivo em prender lideranças do Comando Vermelho (CV), ignorando os mecanismos de financiamento da facção. Segundo especialistas em segurança pública, esse tipo de abordagem tem impacto limitado e não compromete a estrutura da organização criminosa, que rapidamente substitui seus líderes e preserva seu poder territorial e financeiro.

A ação não conseguiu capturar seu principal alvo, Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como chefe do CV nas ruas e foragido há sete anos. Segundo o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, a prisão não foi possível “por falta de tempo”.

Críticos, no entanto, questionam não só a falha operacional, mas a lógica que sustenta esse tipo de intervenção. “É o tipo de desbaratamento que amanhã haverá outra liderança substituindo aquele que foi preso. Pode ter um impacto pontual no crime organizado, mas o grupo é rapidamente reestruturado”, afirma Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, ao UOL.

Em contraste, a recente operação nacional contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), que envolveu forças federais, estaduais, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), conseguiu bloquear mais de R$ 1 bilhão em ativos e atingir estruturas empresariais que sustentavam a facção — incluindo fintechs, postos de combustíveis e escritórios da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.

“A droga não é produzida aqui, ela entra pelas fronteiras. O papel do governo federal é importantíssimo”, afirma Jorge Pacheco, coordenador de pesquisa do Observatório de Segurança. Para ele, a ausência de uma articulação com órgãos federais, como ocorreu no caso paulista, compromete a capacidade de desarticular financeiramente grupos como o Comando Vermelho. “Bilhões de reais não são lavados em uma favela”, completa.

No Rio, a operação foi liderada de forma isolada pelo governo estadual, sob comando de Cláudio Castro, sem apoio formal da Polícia Federal ou de órgãos de controle financeiro. O resultado, na avaliação de especialistas, é uma operação que pode até prender suspeitos, mas falha em atingir o coração do crime organizado.

“O PCC tem uma atuação empresarial, por isso vimos essa ação alcançar uma parte essencial da organização, como a fonte de renda e o congelamento de bens. No Rio, o Comando Vermelho tem domínio sobre os territórios, faz a cobrança de serviços”, explica Roberto Uchôa, doutorando do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e ex-policial federal. Para ele, o enfrentamento ao CV exige mais do que força: requer inteligência financeira e territorial.

Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também critica o modelo adotado no Rio. “O efeito da Operação Carbono [contra o PCC] é muito maior no enfraquecimento do poder financeiro da facção. Qual a diferença do que sempre foi feito até aqui? Ela tende a não enfraquecer o Comando Vermelho porque não compromete a estrutura”, disse ao UOL.

Além da ineficácia estrutural, o saldo humano da operação também levanta questionamentos. Quatro policiais foram mortos durante a ação. Para Uchôa, o número é sintoma de uma estratégia fracassada. “Se você tem uma operação com quatro policiais mortos, você teve uma operação fracassada. Não se pode usar uma fórmula aritmética como: ‘quatro policiais morreram, mas prendemos 80 suspeitos ou matamos 100’”, afirma.

O debate sobre segurança pública no Rio volta, assim, ao ponto inicial: enquanto o Estado seguir atuando sem articulação federal, sem inteligência financeira e com foco apenas em lideranças simbólicas, o Comando Vermelho seguirá operando com força total — apenas com outros nomes no comando.

A urgência de mudar

O que está em jogo no Brasil, mais uma vez, é a qualidade da nossa democracia. Uma democracia que não alcança as favelas, que permite massacres sob o pretexto de combate ao crime e que silencia diante do luto coletivo, é uma democracia incompleta, frágil, desigual.

É preciso lembrar, como afirmou Hannah Arendt, que “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”. O que se viu no Rio foi o contrário: a imposição unilateral da força, sem diálogo, sem plano e sem compaixão.

Investigar, punir os excessos e reconstruir uma política de segurança cidadã não é uma demanda da esquerda, da ONU ou das ONGs. É uma exigência da Constituição, da democracia e da própria dignidade humana.

Ações policiais no RJ juntam brutalidade com ineficiência, critica pesquisador


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