25/04/2024 - Edição 540

Brasil

Novo governo buscará resgatar símbolos e esvaziar bandeiras bolsonaristas

O sentimento sobre a Seleção está abalado à esquerda e à direita. Um lado não engole Neymar; o outro tem raiva do Tite ‘comunista’

Publicado em 14/11/2022 9:39 - Jamil Chade (UOL), Xico Sá (The Intercept_Brasil) – Edição Semana On

Divulgação Ilustração: Victor Vilela para o Intercept Brasil

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Símbolos e conceitos como liberdade de expressão, liberdade, família, democracia, soberania, a bandeira nacional ou até mesmo a camisa da seleção brasileiras foram sequestrados por grupos bolsonaristas e passaram a ser verdadeiras bandeiras do movimento de ultradireita. Agora, a equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva avalia formas de promover um resgate de tais conceitos, numa operação que deve envolver ações domésticas e em política externa.

Membros dos grupos de trabalhos criados pela equipe de transição apontaram à reportagem do UOL que existe a intenção de que a ofensiva ocorra de forma imediata, assim que Lula assumir o governo em 1º de janeiro de 2023.

Existem pelo menos dois aspectos sendo considerados, que teriam levado os assessores mais próximos da equipe de transição a colocar o tema entre as pautas do primeiro ano do governo.

O primeiro é o de resgate de símbolos que são, de fato, nacionais. A avaliação é de que tais elementos não podem ser sequestrados pela extrema direita. A camisa da seleção ou a bandeira são os elementos mais visíveis, e a esperança é de que a Copa do Mundo sirva para que as lideranças progressistas sinalizem que o uso de tais marcas é legítimo.

Mas essa seria apenas a parte mais superficial da operação de resgate. Haverá também uma disputa pela recuperação de conceitos, como o da liberdade, liberdade de expressão e até mesmo a democracia, deformados por grupos bolsonaristas.

Esse resgate não ocorre apenas como uma manobra para recuperar símbolos nacionais. O que se estima é que, se o sequestro for minado por meio de uma recuperação desses conceitos pela ala progressistas, haverá um real impacto sobre os grupos bolsonaristas, já que algumas de suas principais bandeiras terão migrado para o campo progressista.

A meta, portanto, é esvaziar a extrema direita de seus slogans, supostas motivações e referências conceituais. Ou pelo menos exigir que ela passe a buscar novos pilares para convocar seus apoiadores mais radicais.

Segundo fontes dentro da equipe de transição, uma parcela importante desse resgate passará por uma disputa por esses termos nos fóruns internacionais. Ao longo dos últimos quatro anos, a diplomacia bolsonarista usou as estruturas do Itamaraty e caminhos paralelos com atores como Eduardo Bolsonaro, Damares Alves, Angela Gandra e Filipe Martins para coordenar ações com movimentos ultraconservadores no exterior.

Isso se refletiu em medidas tomadas pelo Itamaraty para defender resoluções sobre liberdade de expressão em debates na ONU, num esforço justamente para redefinir o conceito. Neste caso, a suposta liberdade seria usado como um valor absoluto, abrindo brechas para a mentira, difamação, desinformação, discurso do ódio e promoção da violência.

Em outros temas, como família, o Brasil entrou em alianças com governos ultraconservadores para tentar influenciar os bastidores de organismos internacionais, inclusive na área de saúde. A família, porém, seria apenas aquela formada por um homem e uma mulher.

A promessa é de que, portanto, haverá uma disputa por conceitos e um esforço para voltar a dar a eles uma conotação positiva, progressista e de expansão de direitos.

A avaliação é de que se o governo Lula, há 20 anos, se concentrou na criação de novas alianças e estruturas pelo mundo, parte da política externa em 2023 estará focada em órgãos estrangeiros em recuperar conceitos e valores, justamente para poder voltar a pautar o debate nacional na expansão de direitos.

Para o professor da USP, Conrado Hübner Mendes,” é bastante comum em movimentos autoritários e reacionários do século 20, que ecoam nos movimentos de autocratização do século 21, a apropriação de um vocabulário dotado de grande legitimidade política”.

“Em geral, um vocabulário do liberalismo. É uma operação sobretudo discursiva e retórica. Autoritários não abrem mão do monopólio dos ideais da liberdade, da soberania nacional, da democracia, do estado de direito, de família. E no fundo não há muita elaboração conceitual a respeito: todas essas palavras se colapsam numa ideia simples de a sociedade organizada com base em hierarquia pré moderna, onde prevalece a lei do mais forte, branca, masculina, heterossexual”, explicou.

“Esse grupo não está sujeito a limites e sua violência é descrita como liberdade. Um estado nacional que se recusa a cumprir o direito internacional é descrito como soberano. Uma pessoa homossexual não é livre para se reconhecer como tal, mas o homem branco é livre para violenta-lo”, disse.

Segundo ele, “não há laços de solidariedade, reciprocidade, igualdade, responsabilidade. Laços comunitários que impõem limites, aquilo que a filosofia liberal chama de transição do estado de natureza para um estado civil”.

“É uma ideia de liberdade onde não cabe pluralismo, diversidade, e obrigações. E se não cabe nada disso, não é efetivamente de direitos humanos que eles estão falando (apesar de não abrirem mão do vocabulário). É a reivindicação de um poder bruto que reproduza e cristalize hierarquias sociais”, completou.

Como superar a maldição política da camisa verde e amarela na Copa do Mundo

Ela já nos fez tão bem, mas a nódoa da extrema direita lambuzou a amarelinha de rejeição durante o mandato do presidente Jair Bolsonaro. A mancha no uniforme mexeu até mesmo com aquele torcedor que curte futebol apenas durante a Copa do Mundo. Daí a tentativa urgente dos cartolas da CBF para lavar a sujeira associada aos bolsominions.

A campanha publicitária com rap e refrão chiclete de Lulu Santos veio com a tarefa de retomar a camisa para brasileiros de todas as preferências políticas. Na frente dos quartéis e nas estradas, porém, os derradeiros zumbis do golpe seguem vestidos de Neymar Jr., o mais célebre dos eleitores do candidato derrotado nas urnas.

“Ela me faz tão bem, Ela me faz tão bem/ Que eu também quero fazer isso por ela.” A levada alto astral da música pode até reduzir o estrago que restou para a camisa amarela. A D.R. (a mitológica discussão de relação), porém, será longa.

Há quem não consiga superar o ranço e já decidiu torcer contra. E pronto. Há quem tranquilamente vista a azulzinha e saia por aí na buena. Tem também aquele e aquela dispostos a tirar do armário a vermelha alternativa, com um “Lula Livre” no lugar do escudo, só para lembrar que no Mundial de 2018 a barra foi muito mais pesada, ora bolas.

Vale a canarinha com o 13 nas costas, o modelo adotado e defendido em discurso pelo presidente eleito. Vale a indumentária verde e amarela sob a cabeça erguida do boné CPX, estica padrão Rene Silva, o fundador do jornal Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão e arredores. Vale toda a customização possível nos adornos do Pacheco e da Pacheca – para lembrar o torcedor cri-cri e fanático símbolo publicitário da Copa de 1982.

Se você tem crianças em casa sabe que elas não perdoarão o seu tédio ou desprezo com a Seleção. Você prometeu, no mínimo, insinuou que a vitória de Lula liberaria geral no uso das cores da bandeira. Promessa é dívida. Confesso que azularei, vestido com a 8 de Sócrates, o doutor da democracia. E que os meninos e meninas amarelem à vontade.

Até a “neymardependência” acabou, gente, a aposta é coletiva. O time vai embalar no conjunto. Não particularize o escrete no camisa 10.

Você sabia, aliás, que na extrema direita também não existe unanimidade a respeito da Seleção? Há um bode do bolsonarismo com o Tite. Milhões acreditam que ele seja um “perigoso comunista”.

Usam como prova o encontro do técnico com Luiz Inácio Lula da Silva em 2012, quando parte do elenco do Corinthians visitou o petista para mostrar o troféu da Libertadores das Américas.

O ódio ao “comuna” foi ampliado em 2021, quando o treinador disse que o time da CBF estava insatisfeito com a realização da Copa América durante a pandemia da covid-19. Os negacionistas piraram.

Usada politicamente por candidatos e autoridades desde 1950, a Seleção ajudou na imagem de alguns governantes – como o ditador Emílio Garrastazu Médici em 1970 –, mas nunca definiu o resultado de uma corrida eleitoral. Na hora H do embate, vale mais o pão que o circo. Conta mais a fila do osso, emblema da política econômica de Paulo Guedes, do que as firulas e influência de Neymar Jr. nas redes sociais.

Longe do romantismo da “Pátria em chuteiras”, conceito hiperbólico do cronista Nelson Rodrigues, o país remenda as vestes, cinge molambos e tenta refazer um manto minimamente democrático. É assim que chegamos à Copa do Mundo 2022.

O barato foi louco, o processo será lento, vale o versículo dos Racionais MC´s. É do jogo. Não será um clipe pop da CBF ou o agito da Nike que vai embalar o fingimento de um país unido. Os descamisados estão há muito tempo do lado de fora da festa.


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