25/04/2024 - Edição 540

Brasil

Ninguém é só ‘evangélico’: quem instrumentaliza a fé para fazer política só ganha com essa simplificação

Pesquisas também devem considerar raça, renda e gênero. A simplificação oculta o papel das igrejas evangélicas históricas no alinhamento à extrema direita

Publicado em 27/03/2024 10:38 - Lívia Reis e Magali Cunha - Intercept_Brasil

Divulgação

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No começo de março, jornais de todo o país repetiram a mesma notícia: a queda da popularidade do presidente Lula entre evangélicos. Quais evangélicos? Desde os anos 2010, quando as chamadas “pautas morais” ganharam mais centralidade nas campanhas eleitorais, os institutos de pesquisa passaram a enfatizar os dados de votação por religião. O tema também passou a ser considerado uma variável importante nas pesquisas de avaliação do governo federal.

Só que, no que se tornou prática no jornalismo e entre analistas do contexto sociopolítico, parece que apenas dois grandes blocos importam no tema “religião” no país: o dos “católicos”, religiosidade diversa e múltipla, e o dos “evangélicos”. Essa última inclui uma vasta gama de cristãos não identificados com o catolicismo – que, até bem pouco tempo atrás, era considerado a religião natural dos brasileiros, inclusive dos não religiosos, como no caso do católico não praticante.

A noção de “evangélicos” nasce, portanto, como uma categoria de diferenciação ao catolicismo então dominante. Já o interesse público pelo segmento cresceu na mesma medida em que ele passou a ocupar espaços de destaque além da política, no qual já atuava desde os anos 1980, mas também na cultura, educação, assistência social e mercado de bens e serviços.

Assim, embaixo desse grande guarda-chuva chamado genericamente de “os evangélicos”, foram incluídas, de forma homogeneizante, diversas denominações e diferentes modos de se viver. Pesquisadores da religião, vinculados às ciências humanas e sociais, vêm, há muito tempo, apontando para a necessidade de se considerar “os evangélicos” como um bloco múltiplo e heterogêneo, composto por pessoas de diferentes denominações, que seguem teologias e práticas completamente distintas.

O IBGE já diferenciava, no Censo de 2000, igrejas evangélicas de missão, pentecostais e outras evangélicas. Em 2010, incluiu a categoria “evangélica não-determinada”, levando em conta fiéis que não são vinculados formalmente a uma igreja. Mas as diferenças estão além das instituições.

O modo de ser protestante, por exemplo, é ancorado no princípio da livre interpretação da Bíblia – o chamado denominacionalismo. Isto proporcionou  um mosaico de grupos e tendências atrelados ao agrupamento identitário que se convencionou chamar “evangélicos”.

Hoje, diversas expressões da religiosidade evangélica estão espalhadas Brasil afora, apesar do destaque para as de matriz pentecostal. Várias igrejas são  marcadas por homogeneizações estéticas, rituais e discursivas, promovidas especialmente pela explosão da ocupação evangélica nas mídias. É o caso, por exemplo, de gigantes como a Igreja Universal do Reino de Deus, algumas vertentes da Assembleia de Deus, Renascer em Cristo e Sara a Nossa Terra, entre outras pentecostais, uma diversidade de grupos da corrente batista, denominações independentes criadas a partir de divisões internas de igrejas históricas ou pentecostais,  para ficar em alguns exemplos.

Outras se configuram por vivências e práticas relacionadas com a ocupação geográfica dos grupos, sobretudo em territórios periféricos, e nem sempre se vinculam a grandes igrejas. Isso sem contar os evangélicos que não frequentam igrejas específicas, mas que vivem sua fé de outras formas, isto é, assistindo pregações e orações das rádios ao YouTube, passando pela televisão e Instagram.

Não por acaso, do sul ao norte do Brasil há evangélicos que votaram em Lula, por exemplo, e eles estão localizados majoritariamente nos extratos mais negros e pobres da população. Também são esses que costumam avaliar mais positivamente o atual governo, sobretudo quando levamos em conta a dimensão de gênero. E isso não nos impede de reconhecer que, sim, o segmento evangélico avalia, sim, o governo Lula de forma mais negativa. Mas será que a religião explica tudo?

Para responder a essa pergunta de forma séria, é necessário – agora, mais do que nunca – considerar a religião como um marcador social da diferença, como raça, classe, gênero e tantos outros que ajudam a organizar e explicar a vida social. E este é um ponto que não pode mais ser ignorado em nossas análises.

No Brasil, ter uma religião não é trivial. Ela ajuda a organizar redes de relação, as dinâmicas territoriais de violência, as relações de gênero e as relações raciais, para citar apenas alguns exemplos. Essa realidade, vale dizer, faz com que pessoas diferentes, de origens e experiências diferentes, tenham experiências distintas a partir de sua religiosidade evangélica. Por que, então, análises não investem no cruzamento dos dados sobre religião com outros que compõem o universo religioso, como gênero, renda e raça?

Ninguém se autodenomina ‘neopentecostal’ 

O isolamento da variável religião para pensar a vida social também tem gerado uma segunda confusão muito comum. A referência aos termos “neopentecostal” e “neopentecostalismo”, não raramente associados à uma Teologia do Domínio, para se referir, de forma muito genérica, a igrejas que apoiam posições fundamentalistas e extremistas, é um forte exemplo disso.

Neopentecostalismo é uma categoria sociológica, cunhada nos anos 1990 pelo sociólogo Ricardo Mariano, para designar um segmento do movimento pentecostal que, naquele momento histórico, se diferenciava dos anteriores – os denominados clássicos ou históricos por alguns pesquisadores.

Entre as características do “novo pentecostalismo” estavam a ocupação intensa das mídias e a assimilação da cultura midiática em rituais e discursos, ancorados em teologias como a da prosperidade e da guerra espiritual, e a centralidade das práticas de cura e de exorcismo. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, era a maior representante dessa categoria.

Na prática, entretanto, os membros de denominações evangélicas não atribuem sentido e não reconhecem essas categorias sociológicas. Ninguém se autodenomina “neopentecostal”.

O termo acaba sendo usado apenas de forma pejorativa por aqueles que querem simplificar o debate e enquadrar membros de igrejas  – que têm gênero, classe e raça –, e lideranças religiosas – que também têm gênero, raça e classe – em explicações convincentes e conspiratórias de situações que não conseguem (ou não se esforçam por) compreender.

Simplificação oculta o papel de outras igrejas evangélicas no alinhamento à extrema direita

Passados quase 50 anos do surgimento das igrejas classificadas como neopentecostais, o campo religioso mudou. É comum que muitas das práticas inicialmente atribuídas às igrejas neopentecostais tenham se disseminado, sido incorporadas ou até mesmo ressignificadas por outras igrejas e grupos religiosos.

Principalmente aquelas avaliadas como produtoras de resultados positivos – como ocupação de mídias, a participação na política institucional,  ampliação do número de membros, aumento de arrecadação financeira e de patrimônio, por exemplo – , que movimentam poder político em espaços públicos institucionais.

Essa simplificação do debate – ou seja, considerar apenas os dados sobre religião ou atribuir ao neopentecostalismo a maior adesão da população a pautas conservadoras – ajuda a ocultar o papel das igrejas evangélicas históricas no atual alinhamento à extrema direita. Alinhamento, vale dizer, que também ocorreu na ditadura militar.

Da mesma forma, oculta também o papel de segmentos católicos que continuam fomentando posições extremistas nas igrejas, nas ações de assistência, nas escolas, nas universidades e em suas mídias – dos canais de televisão aos perfis em redes sociais.

Além disso, as tentativas de construção dessa imagem de um Brasil univocamente cristão serve a grandes lideranças midiáticas e políticas dispostas a impor a minorias políticas suas moralidades cristãs seletivas e suas ideologias intolerantes e segregativas.

Enquanto isso, na mídia, o imaginário construído nas últimas três décadas em torno de uma ideia unificante  – “os evangélicos” – é uma criação que reflete tentativas de compreensão de uma expressão de fé que até outro dia era desconhecida e considerada irrelevante  – apesar de estar no país há mais de 100 anos.

É urgente e necessário reconhecer que tal homogeneização não só não reflete a realidade, como é nociva ao debate público. Como indicamos aqui, ninguém é “evangélico” igual. Ninguém é só “evangélico”.

É por isso que pesquisadores e analistas responsáveis hoje falam em pentecostalismos, no plural, para enfatizar um movimento religioso marcado por múltiplas vivências e teologias.

Institutos de pesquisa e analistas precisam levar em conta essa realidade e fazer cruzamentos com marcadores sociais como raça, gênero e renda, para qualificar os dados sobre religião. Esta prática ocorre nos Estados Unidos, por exemplo, e aprofunda os debates de temas de interesse público. Diversas pesquisas acadêmicas nas Ciências Humanas e Sociais também chamam atenção para as diferenças de comportamento de um ou outro segmento religioso quando se leva em conta outras variáveis.

Nas análises dos dados sobre religião na cena pública, é preciso qualificar os números. Caso contrário, as pesquisas e os usos que se fazem dela desviarão o caminho da reflexão. E quem instrumentaliza a fé para fazer política só ganha com esse desvio.


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