Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Brasil
Entenda o que são “redpill” e outros termos de ódio contra mulheres
Publicado em 20/03/2026 9:31 - Semana On e Agência Brasil
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identifica a consolidação e expansão de uma rede de conteúdos misóginos no YouTube brasileiro. Ao menos 123 canais ativos, responsáveis por cerca de 130 mil vídeos, acumulam mais de 23 milhões de inscritos — números que indicam não apenas persistência, mas crescimento desse ecossistema digital.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK E WHATSAPP
Os dados, divulgados no último dia 9, logo após o Dia Internacional da Mulher, atualizam o mapeamento anterior, realizado em 2024. Na ocasião, haviam sido identificados 137 canais. Desde então, apenas 14 deixaram de operar — seja por iniciativa própria ou por ação da plataforma — enquanto 20 passaram por mudanças de nome, estratégia que, segundo os pesquisadores, não implicou necessariamente alteração de conteúdo.
O crescimento da audiência reforça a vitalidade desse circuito. Entre abril de 2024 e a nova coleta, os canais remanescentes registraram aumento de 18,5% no número de inscritos, com a adesão de mais de 3,6 milhões de usuários. Para o NetLab, trata-se de um indicativo de que o consumo desse tipo de conteúdo não apenas se mantém, mas se amplia.
Além da difusão ideológica, há também uma dimensão econômica relevante. Cerca de 80% dos canais analisados já adotavam, desde o primeiro levantamento, estratégias de monetização — incluindo receitas publicitárias da própria plataforma, venda de produtos digitais e transferências diretas via Pix.
Para a pesquisadora Luciane Belín, do NetLab, o fenômeno ultrapassa a esfera da opinião individual e se estrutura como modelo de negócio. “Não é só a opinião deles, mas também uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização e subjugação de mulheres”, afirma.
Expansão recente e estratégias de adaptação
Embora o vídeo mais antigo identificado date de 2018, a explosão desse tipo de conteúdo é recente. Segundo o relatório, 88% dos vídeos foram publicados a partir de 2021, sendo que mais da metade (52%) entrou no ar entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Apenas nos meses mais recentes, cerca de 25 mil novos vídeos foram adicionados.
O estudo adotou critérios objetivos para classificar os canais: cada um deveria conter ao menos três vídeos com manifestações explícitas de ódio contra mulheres. A categoria mais recorrente, presente em 42% dos conteúdos, foi definida como “desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina”.
Nesse grupo, estão vídeos que incentivam homens a rejeitar relações igualitárias e a tratar mulheres com desdém, frequentemente associando pautas feministas a supostas estratégias de dominação social masculina. O vocabulário utilizado, segundo os pesquisadores, inclui termos ofensivos recorrentes, como “burra” e “vagabunda”.
Apesar disso, parte dos criadores recorre a estratégias de dissimulação para contornar possíveis sanções da plataforma. Entre elas, o uso de códigos linguísticos — como a substituição de “mulher” por “colher” ou de “mãe solo” por “msol” — e a utilização de imagens que reforçam subordinação ou hipersexualização feminina, mesmo sem enunciados explícitos.
Pressão por responsabilização e limites da moderação
A pesquisa reacende o debate sobre o papel das plataformas digitais na regulação de conteúdos de ódio. Para Belín, a discussão passa tanto pela responsabilização jurídica quanto pela governança das big techs. “Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet”, defende.
A Google Brasil, responsável pelo YouTube, informou ter solicitado acesso à lista de canais analisados, o que foi negado pelos pesquisadores sob a justificativa de preservar a segurança da equipe e evitar possíveis represálias. Segundo o NetLab, a metodologia do estudo foi integralmente disponibilizada, o que permitiria à própria plataforma reproduzir a análise.
Em nota, o YouTube afirmou que proíbe discurso de ódio, assédio e cyberbullying, incluindo conteúdos baseados em gênero, e que revisa continuamente suas políticas. A empresa destacou que, apenas no quarto trimestre de 2025, removeu mais de 151 mil vídeos e encerrou 37 mil canais por violação de regras relacionadas a discurso de ódio, além de excluir outros 840 mil vídeos por assédio e cyberbullying.
Do ambiente digital à investigação criminal
O avanço desse tipo de conteúdo não se limita ao YouTube. A Polícia Federal abriu investigação sobre uma tendência no TikTok que simulava agressões contra mulheres em contextos de rejeição afetiva. Os vídeos encenavam socos, chutes e facadas, configurando apologia à violência.
A investigação foi solicitada pela Advocacia-Geral da União (AGU), após denúncias. Segundo o órgão, o material teve origem em quatro perfis e pode configurar crimes como incitação ao feminicídio, ameaça e violência psicológica. O TikTok informou que removeu os conteúdos por violarem suas diretrizes.
Esse tipo de produção circula em comunidades conhecidas como “machosfera”, incluindo grupos redpill e incel, que difundem discursos de ressentimento e hostilidade contra mulheres.
Debate público e resposta institucional
Especialistas apontam que a expansão da misoginia digital ocorre em paralelo ao agravamento da violência de gênero no país. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o Brasil registra, em média, quatro feminicídios por dia.
Para Eunice Guedes, da Articulação de Mulheres Brasileiras e professora da Universidade Federal do Pará, o discurso misógino ganhou visibilidade e estrutura nos últimos anos. “Ele não tinha tanto acesso a recursos e espaços. De cerca de uma década para cá, isso se intensificou”, afirma.
A pesquisadora defende a criminalização da misoginia, mas ressalta que a resposta não pode se limitar à punição. “É preciso pensar em prevenção, mudança de cultura e transformação de paradigmas”, diz.
Canais de denúncia
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados pela Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), serviço gratuito e disponível 24 horas. Também é possível buscar atendimento em delegacias especializadas, Casas da Mulher Brasileira ou acionar os números 100 (direitos humanos) e 190 (emergência policial).
Entenda o que são “redpill” e outros termos de ódio contra mulheres
Há décadas, grupos de homens têm atuado em fóruns de internet, redes sociais e outros canais de comunicação para estimular hierarquias de gênero e ódio contra as mulheres. Espaços e discursos de ódio, segundo especialistas, são combustíveis para ações concretas de violência, como o caso recente de estupro coletivo contra uma adolescente no Rio de Janeiro.
Ativistas e pesquisadores veem esses movimentos e ideologias como parte de um fenômeno estrutural chamado “misoginia”: o ódio contra as mulheres e a defesa da manutenção de privilégios históricos – sociais, culturais, econômicos e políticos – para os homens.
Grupos misóginos têm códigos comuns para se comunicar e difundir ideias. Usam, como estratégia de falsa equivalência, o termo “misandria”, ao definir um suposto movimento de ódio e preconceito contra homens. Alegam, por exemplo, que o feminismo e leis de proteção à mulher são formas institucionalizadas de destruição da masculinidade.
Em resposta ao feminismo, que defende a igualdade de direitos e oportunidades, adotam o “masculinismo”: conjunto de ideologias que prega uma “masculinidade tradicional”, com direitos diferenciados para homens e mulheres.
A feminista e ativista Lola Aronovich sofre com ataques misóginos na internet desde 2008, quando criou o blog “Escreva Lola Escreva”. A luta dela resultou na prisão de um dos agressores e estimulou a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade pela investigação de conteúdos misóginos na internet.
Ela entende que os agressores possuem um perfil muito parecido.
“Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Todos apoiam lideranças como Bolsonaro e Trump. Esses homens sempre carregam um combo de preconceitos. Não são apenas machistas. São também racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos, capacitistas”, avalia Lola.
Conheça, abaixo, outras palavras e expressões comuns utilizadas por grupos misóginos na internet.
Principais grupos e comunidades
Machosfera: termo que engloba fóruns na internet, canais de YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais voltados para defesa da masculinidade tóxica, o ódio às mulheres e a oposição aos direitos femininos.
Chans: fóruns anônimos que são frequentemente espaços para discursos extremistas, vazamento de fotos íntimas e ataques coordenados contra mulheres.
Incels: contração das em inglês involuntary celibates (celibatários involuntários). São homens que alegam, de forma ressentida e violenta, não conseguir parceiras sexuais ou românticas por culpa das mulheres ou de padrões sociais.
Redpill: termo inspirado no filme Matrix, em que o protagonista toma uma pílula vermelha que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera, descreve homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa.
MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que pregam o afastamento total de relacionamentos com mulheres, alegando que as leis e a sociedade moderna são injustas com o sexo masculino.
Pick Up Artists (PUA): na tradução livre, significa “artistas da sedução”. Homens que utilizam técnicas psicológicas e de manipulação para obter sexo. Tratam mulheres como objetos ou prêmios a serem conquistados.
Tradwife: mulheres que defendem o retorno aos papéis tradicionais de gênero, nos quais elas serão exclusivamente donas de casa e submissas ao marido.
Arquétipos e hierarquias:
Blackpill (pílula preta): enquanto o redpill prega que o homem deve acordar e agir, o blackpill afirma que o destino de um homem é determinado exclusivamente pela sua genética (aparência, altura, estrutura óssea). Para eles, se você não nasceu com características físicas superiores, não há esforço ou confiança que mude o fracasso social e amoroso.
Bluepill (pílula azul): termo pejorativo para descrever homens que acreditam na igualdade de gênero ou que buscam relacionamentos saudáveis, vistos pelos grupos misóginos como “alienados” ou “fracos”.
Chad: é o homem visto como geneticamente perfeito, atraente, confiante e sexualmente ativo. Na visão desses grupos, é o único tipo que as mulheres realmente desejam, independentemente do caráter.
Alfa: é o topo da hierarquia social masculina. É a idealização do homem dominante, líder, fisicamente forte, financeiramente bem-sucedido e sexualmente atraente. Diferente do Chad (que nasce com genética privilegiada), o Alfa é visto como status que pode ser alcançado por esforço e mudança de mentalidade.
Beta: é o homem comum, visto como submisso, cooperativo e sem dominância social. São frequentemente ridicularizados por serem, na visão da machosfera, usados pelas mulheres apenas por estabilidade financeira.
Sigma: popularizado em redes como o TikTok, é o homem visto como um “alfa solitário”, que não precisa de validação social e foca apenas no próprio sucesso. O termo é frequentemente usado para mascarar isolamento e desprezo pelas mulheres.
Stacy: contraparte feminina do Chad. É o termo usado para descrever mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status social, que supostamente só se interessariam por Chads, desprezando todos os outros homens.
White Knight (Cavaleiro Branco): termo pejorativo para descrever homens que defendem mulheres ou causas feministas de forma mentirosa, apenas como estratégia desesperada para tentar conseguir atenção feminina ou sexo.
Becky: mulher considerada de aparência mediana e comum, situada abaixo da Stacy na hierarquia visual criada por essas comunidades misóginas.
Termos e gírias comuns
Depósito: gíria ofensiva usada em fóruns e redes sociais para se referir às mulheres como um todo, tratando-as meramente como recipientes para o prazer sexual masculino.
80/20: teoria pseudocientífica que afirma que 80% das mulheres competem por apenas 20% dos homens (os mais atraentes ou ricos), deixando o restante dos homens sem opções.
Hypergamy (Hipergamia): crença de que as mulheres buscam apenas parceiros de status social ou financeiro superior ao delas para tirar vantagem.
AWALT (All women are like that): sigla, em inglês, para “todas as mulheres são assim”, usada para estereotipar comportamentos femininos.
Femoids ou FHOs: significa “organismo humanóide feminino”, um termo ofensivo que sugere que mulheres são inferiores aos homens, e até mesmo subumanas.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Deixe um comentário