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Brasil

Mínimo sobe para R$ 1.621 e isenção do IR até R$ 5 mil amplia renda

Decisão do BC de manter Selic em 15% amplia restrições ao crédito, investimento e consumo

Publicado em 02/02/2026 2:22 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O novo salário mínimo nacional, fixado em R$ 1.621, começou a ser pago aos trabalhadores a partir desta segunda-feira (2), refletido no contracheque referente a janeiro. O reajuste de 6,79%, equivalente a R$ 103, foi formalizado pelo Decreto nº 12.797/2025 e integra a política de valorização do piso salarial, que combina a variação do INPC com o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB), dentro dos limites impostos pelo arcabouço fiscal.

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Pelas regras em vigor, o ganho real ficou limitado a 2,5% acima da inflação, mesmo com o PIB registrando alta superior a esse teto. Ainda assim, o novo valor reposiciona o mínimo como referência central para salários, aposentadorias e uma ampla gama de benefícios sociais.

Os aposentados e pensionistas que recebem pelo Instituto Nacional do Seguro Social começaram a receber o novo piso em 26 de janeiro. O calendário segue até sexta-feira (6), conforme o número final do cartão do benefício, desconsiderando o dígito verificador.

Quanto representa o novo mínimo

Mensal: R$ 1.621

Diário: R$ 54,04

Hora: R$ 7,37

Como o reajuste foi calculado

INPC de 2025: 4,18%

Crescimento real do PIB: 3,4%

Ganho real limitado pelo arcabouço fiscal: 2,5%

Reajuste total: 6,79%

Impacto econômico e fiscal

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o novo salário mínimo influencia diretamente a renda de 61,9 milhões de brasileiros e deve injetar R$ 81,7 bilhões na economia em 2026. Ao considerar também a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, o governo estima um impacto combinado de R$ 110 bilhões na atividade econômica.

Do lado das contas públicas, o custo adicional para a Previdência Social é estimado em R$ 39,1 bilhões, dado que o piso nacional serve de base para benefícios previdenciários, assistenciais e trabalhistas, como aposentadorias, pensões, seguro-desemprego e salário-família.

Benefícios e contribuições atrelados ao mínimo

INSS

Benefícios no piso: R$ 1.621 (reajuste integral de 6,79%)

Benefícios acima do piso: reajuste de 3,90% (INPC)

Teto previdenciário: R$ 8.475,55

Contribuições ao INSS (CLT)

Até R$ 1.621: 7,5%

De R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84: 9%

De R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27: 12%

De R$ 4.354,28 a R$ 8.475,55: 14%

Autônomos, facultativos e MEI

Plano normal (20%): R$ 324,20

Plano simplificado (11%): R$ 178,31

Baixa renda (5%) e MEI (5%): R$ 81,05

Seguro-desemprego

Parcela mínima: R$ 1.621

Parcela máxima: R$ 2.518,65

Valores corrigidos pelo INPC (3,90%)

Salário-família

R$ 67,54 por dependente

Pago a quem recebe até R$ 1.980,38 mensais

Isenção do IR até R$ 5 mil começa a aparecer no contracheque

Além do reajuste do mínimo, trabalhadores que ganham até R$ 5 mil brutos por mês passaram a ficar totalmente isentos do Imposto de Renda, com efeitos já perceptíveis nos salários pagos a partir de fevereiro. Para rendas entre R$ 5.001 e R$ 7.350, a redução do imposto é gradual. Acima desse patamar, permanece a tabela progressiva atual, com alíquota máxima de 27,5%.

De acordo com o Ministério da Fazenda, cerca de 16 milhões de pessoas devem ser beneficiadas pela medida, que se aplica a trabalhadores com carteira assinada, servidores públicos, aposentados e pensionistas — inclusive no décimo terceiro salário.

Nas ruas do Distrito Federal e do entorno, a mudança é recebida como alívio no orçamento doméstico. Parte dos trabalhadores entrevistados, no entanto, ainda desconhecia a nova regra, o que expõe falhas na comunicação entre empresas e empregados. Para o contador Adriano Marrocos, do Conselho Federal de Contabilidade, a aplicação é automática nas folhas de pagamento. “O trabalhador só precisa acompanhar o contracheque. Os sistemas já fazem o cálculo com o redutor adicional e o desconto simplificado”, explica.

Quem paga a conta

A renúncia fiscal estimada em R$ 25,4 bilhões será compensada com a criação do Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo (IRPFM), voltado aos contribuintes de alta renda. A nova regra atinge cerca de 141 mil pessoas e incide sobre salários, lucros e dividendos e rendimentos financeiros tributáveis.

– Renda acima de R$ 50 mil mensais (R$ 600 mil/ano): alíquota progressiva de até 10%

– Renda superior a R$ 1,2 milhão por ano: alíquota mínima efetiva de 10%

Para Marrocos, o impacto arrecadatório tende a ser limitado, já que parte das rendas agora tributadas antes era isenta, como a distribuição de lucros.

Declaração do IR: o que muda — e o que não muda

A correção da tabela só terá reflexo na declaração de 2027, referente aos rendimentos de 2026. Na declaração a ser entregue neste ano, nada se altera. As principais deduções permanecem:

Dependentes: R$ 189,59 por mês

Desconto simplificado mensal: até R$ 607,20

Educação: até R$ 3.561,50 por pessoa/ano

Declaração anual: desconto simplificado de até R$ 17.640

A Receita Federal reforça que contribuintes com mais de uma fonte de renda devem redobrar a atenção, pois a isenção considera o conjunto dos rendimentos — tributáveis, isentos e exclusivos na fonte, além do patrimônio declarado.

Ao anunciar a medida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a mudança representa um passo em direção à justiça tributária. Na prática, a combinação de salário mínimo maior e imposto menor redesenha o orçamento de milhões de famílias e reforça o consumo como motor da economia em 2026.

Copom mantém juros no pico histórico e aprofunda tensão com setor produtivo

Mesmo diante do recuo recente da inflação e da acomodação do dólar, o Banco Central optou por não alterar o rumo da política monetária. Por decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 15% ao ano, movimento amplamente antecipado pelo mercado financeiro. Trata-se do quinto encontro consecutivo sem mudanças e do patamar mais elevado desde meados de 2006.

No comunicado que acompanhou a decisão, o BC reforçou que vê espaço para iniciar a redução dos juros a partir da reunião de março, desde que o cenário projetado se confirme. A sinalização, embora cautelosa, foi interpretada como um ensaio de flexibilização, ainda condicionado à convergência sustentável da inflação à meta e à ausência de choques no ambiente econômico.

A decisão ocorreu em um contexto institucional incompleto: o Copom operou com duas cadeiras vagas após o término dos mandatos de diretores estratégicos no fim de 2025. As indicações presidenciais só devem ser encaminhadas com a retomada dos trabalhos do Congresso, em fevereiro.

Inflação mais comportada, vigilância mantida

A Selic segue sendo o principal instrumento para conter a inflação medida pelo IPCA, que fechou 2025 em 4,26%, dentro do limite superior da meta contínua. Pelo novo modelo, em vigor desde janeiro, o alvo central é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, avaliada de forma móvel, sempre com base nos 12 meses anteriores.

Apesar do alívio observado, o BC mantém postura conservadora. No último Relatório de Política Monetária, a projeção oficial de inflação para 2026 foi reduzida para 3,5%, mas a estimativa deverá ser revisada à luz do comportamento recente dos preços e do câmbio. O mercado, por sua vez, permanece mais reticente: o Boletim Focus aponta inflação de 4% neste ano, ligeiramente acima do centro da meta.

Custo do dinheiro pressiona atividade

A política monetária restritiva tem efeitos diretos sobre o crédito e o ritmo da economia. Embora o BC tenha elevado marginalmente a projeção de crescimento do PIB para 1,6% em 2026, analistas do mercado estimam expansão um pouco maior, em torno de 1,8%. Ainda assim, o consenso é de que os juros elevados funcionam como freio relevante ao investimento e ao consumo.

A Selic, referência para os títulos públicos negociados no sistema de liquidação financeira, baliza todas as demais taxas da economia. Mantê-la em nível elevado ajuda a conter pressões inflacionárias ao encarecer o crédito e estimular a poupança, mas amplia o custo do capital produtivo.

Reação do setor produtivo

A decisão do Copom foi recebida com críticas por representantes da indústria, da construção civil e do movimento sindical. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou que a manutenção da Selic em 15% ignora a trajetória de desaceleração inflacionária e impõe um ônus excessivo à atividade econômica. Segundo a entidade, a taxa real de juros permanece em torno de 10,5%, bem acima da taxa neutra estimada pelo próprio BC.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também manifestou preocupação, destacando o impacto dos juros elevados sobre o crédito imobiliário e a viabilidade de novos projetos, com efeitos em cadeia sobre emprego e renda.

Em posição mais moderada, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) interpretou a decisão como reflexo das incertezas fiscais e externas, ressaltando que o comunicado do Copom será determinante para confirmar — ou não — o início do ciclo de cortes.

Crédito travado nas empresas

Pesquisa da CNI, realizada com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), revela que oito em cada dez indústrias enfrentaram dificuldades para acessar crédito em 2025. Em todas as modalidades, os juros elevados aparecem como principal obstáculo, seguidos pela exigência de garantias e pela inadequação das linhas disponíveis.

O aperto é mais severo no crédito de longo prazo, especialmente entre pequenas e médias empresas, onde as taxas de insucesso chegam a 43%. O ambiente restritivo também reduziu a demanda: mais da metade das empresas deixou de buscar financiamento nos meses anteriores à pesquisa.

Juros elevados atingem famílias

O encarecimento do crédito também se reflete no orçamento das famílias. Dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito mostram que os juros médios para pessoas físicas alcançaram 60,1% ao ano em dezembro de 2025. O cartão de crédito rotativo segue como vilão: apesar da queda anual, a taxa média ainda supera 400% ao ano. Modalidades como crédito pessoal não consignado e cartão parcelado também registraram forte alta.

No segmento empresarial, o custo médio do crédito livre chegou a 25% ao ano, com destaque para capital de giro e cheque especial, ambos com aumentos expressivos.

Endividamento e inadimplência em alta

Com crédito mais caro, o endividamento das famílias avançou para 49,8% da renda acumulada em 12 meses, enquanto o comprometimento médio da renda com dívidas atingiu 29,3%. A inadimplência também subiu: 5% no crédito às famílias e 2,5% entre empresas, segundo o Banco Central.

Os indicadores, calculados com base em dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reforçam o diagnóstico de que a política monetária segue cumprindo o papel de conter preços, mas ao custo de maior pressão sobre a atividade econômica.

Ao manter a Selic no patamar máximo em quase duas décadas, o Copom sinaliza que a batalha contra a inflação ainda não está vencida. A expectativa agora se concentra na reunião de março, quando o Banco Central terá de decidir se o discurso de cautela dará lugar, enfim, ao início da flexibilização — ou se o aperto monetário seguirá como principal âncora da política econômica.

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