Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Brasil

Milhões de brasileiros com emprego ainda dependem do Bolsa Família

Com mais de 10 milhões de beneficiários, o programa expõe as falhas estruturais do mercado de trabalho

Publicado em 13/01/2025 9:41 - Semana On

Divulgação José Cruz - Abr

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No Brasil, mais de 10 milhões de trabalhadores – incluindo 1,19 milhão com carteira assinada – continuam dependentes do Bolsa Família, mesmo exercendo atividades formais ou informais. Dados recentes do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social mostram que, para muitos, o emprego não é suficiente para garantir a subsistência. Enquanto isso, o reajuste do seguro-desemprego traz alívio temporário, mas não resolve o problema estrutural de um mercado de trabalho marcado por baixos salários e precarização.

Clique para seguir a SEMANA ON no Instagram, no Facebook e no Whatsapp

Trabalho formal: promessa vazia de ascensão social

O trabalho, historicamente, foi concebido como o principal motor de ascensão social e econômica. Contudo, para milhões de brasileiros, a realidade é bem diferente. Segundo o levantamento da consultoria Kairós Desenvolvimento Social, mais de 38% dos beneficiários do Bolsa Família entre 16 e 59 anos possuem alguma forma de ocupação – e ainda assim estão abaixo da linha da pobreza ou extrema pobreza.

Entre os 10,06 milhões de trabalhadores nessa condição, 1,19 milhão possuem carteira assinada, enquanto 6,86 milhões atuam de maneira informal ou como autônomos. As categorias incluem trabalhadores domésticos, aprendizes, estagiários, militares e servidores públicos, além de temporários rurais, que são especialmente vulneráveis. Cleusa Assis, 39, trabalhadora rural em Pernambuco, relata: “É uma vida de incertezas. Durante a safra da cana-de-açúcar, a gente consegue algo, mas depois tem que se virar com o que aparecer. Os salários são sempre baixos.”

Mesmo os trabalhadores formais enfrentam um sistema que falha em garantir condições dignas. A Constituição Federal, no artigo 7º, assegura que o salário mínimo deve ser suficiente para “atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família”. Na prática, o salário mínimo, atualmente em R$ 1.518, está longe de cumprir essa função.

Como observa Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós, o mercado transfere para o Estado o ônus de sustentar os trabalhadores: “O que as empresas não pagam como salário, o governo transfere na forma de auxílio. Não deixa de ser indiretamente um subsídio para as empresas.”

Bolsa Família: alívio essencial, mas insuficiente

O Bolsa Família, criado em 2003 e reestruturado recentemente, foi desenhado para combater a fome e a miséria extrema. Atualmente, ele atende famílias cuja renda mensal per capita é de até R$ 109 (extrema pobreza) ou entre R$ 109 e R$ 218 (pobreza). Mesmo com essas transferências, muitas famílias permanecem vulneráveis, como mostra a “regra de proteção”: quando a renda per capita de uma família beneficiada aumenta, mas ainda fica abaixo de meio salário mínimo (R$ 706), o benefício é reduzido à metade e mantido por até dois anos.

Para trabalhadoras como Ingrid Evangelista de Lima, 32, de Diadema, o Bolsa Família continua sendo vital, mesmo com um emprego formal. Após ser demitida de um restaurante por estar grávida, ela passou a atuar como auxiliar de limpeza em um Centro de Referência de Assistência Social (Cras): “O Bolsa Família era tudo que eu tinha para sustentar minhas filhas. Agora o trabalho abriu minha cabeça para outros sonhos, mas ainda dependo do benefício.”

Mercado informal e a vulnerabilidade estrutural

A informalidade, que abrange mais de 6,8 milhões dos trabalhadores que recebem Bolsa Família, reflete uma precariedade estrutural que aprofunda as desigualdades. Muitos desses trabalhadores enfrentam exploração, baixos rendimentos e falta de direitos básicos, como previdência e estabilidade. O grupo de trabalhadores rurais temporários, com 1,77 milhão de pessoas, exemplifica essa precariedade.

Para Bonassa, a solução passa por políticas estruturais de geração de renda. Ele aponta o fortalecimento de iniciativas como o empreendedorismo comunitário e o aprimoramento de programas de aprendizagem para populações vulneráveis. Esses programas, entretanto, permanecem subaproveitados em escala nacional.

Seguro-desemprego: proteção limitada em um mercado instável

O reajuste recente do seguro-desemprego, que elevou o teto para R$ 2.424,11 e o piso para R$ 1.518, traz alívio temporário para trabalhadores demitidos sem justa causa. Apesar disso, os critérios para acessar o benefício continuam restritivos, exigindo períodos mínimos de contribuição, além de uma cobertura limitada que não atende às dinâmicas de um mercado marcado por informalidade e rotatividade.

A realidade de milhões de trabalhadores brasileiros expõe a insuficiência de medidas paliativas. Embora programas como o Bolsa Família e o seguro-desemprego sejam essenciais para mitigar os efeitos da pobreza, eles não resolvem as causas estruturais do problema.

Nancy Fraser, filósofa e teórica crítica, argumenta que políticas redistributivas precisam ser acompanhadas de uma “transformação estrutural” que enfrente as causas da desigualdade. No Brasil, isso significa repensar o modelo de desenvolvimento econômico, elevar o salário mínimo, fortalecer a fiscalização trabalhista e promover políticas públicas que valorizem o trabalho e garantam direitos básicos.

E agora?

O trabalho deveria ser um caminho para a dignidade, mas para milhões de brasileiros, ele é insuficiente para superar a pobreza. A dependência de programas sociais como o Bolsa Família reflete falhas estruturais do mercado de trabalho e de políticas econômicas que perpetuam desigualdades.

Para mudar esse cenário, o Brasil precisa de uma abordagem integrada que combine redistribuição, regulação do mercado e políticas inclusivas de desenvolvimento. Apenas assim será possível transformar o trabalho em uma verdadeira porta de saída da pobreza, em vez de uma promessa vazia.

Brasileiros gastaram R$ 49,3 bilhões com material escolar em 2024


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *