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Brasil
Com 155 novos empregadores incluídos, cadastro federal chega a 745 nomes
Publicado em 10/04/2025 12:06 - Semana On
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Persistente como uma ferida aberta na história social brasileira, o trabalho análogo ao de escravo segue sendo uma realidade concreta e brutal. A mais recente atualização da “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), publicada na quarta-feira (9), incluiu 155 novos nomes de empregadores que submeteram trabalhadores a condições degradantes e de servidão, elevando para 745 o total de incluídos no cadastro. Entre os setores com maior número de ocorrências estão a criação de bovinos, o cultivo de café e o trabalho doméstico — atividades que remetem, de forma perturbadora, às estruturas coloniais ainda não superadas no país.
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O Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à escravidão é um instrumento oficial de transparência e responsabilização, atualizado a cada seis meses. Embora seja conhecido informalmente como “lista suja do trabalho escravo”, seu papel é vital para o combate a uma das formas mais cruéis de violação de direitos humanos. Segundo o coordenador-geral de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravizado e Tráfico de Pessoas do MTE, André Esposito Roston, o cadastro cumpre a missão de “informar à população sobre as vítimas resgatadas e os responsáveis pela exploração” e também de fomentar a denúncia, por meio do canal oficial do Sistema Ipê.
A lista não é uma condenação judicial, mas sim resultado de processos administrativos rigorosos. Após o flagrante de condições degradantes por auditores fiscais, é lavrado um auto de infração, que inicia um processo com direito à ampla defesa e possibilidade de recurso em duas instâncias. Só após a conclusão desse trâmite, e com as garantias legais asseguradas, o nome do empregador é incluído no cadastro. A permanência na lista é de dois anos. Na última atualização, 120 nomes foram retirados por já terem cumprido esse prazo.
A concentração de casos nos setores da agropecuária e do trabalho doméstico não é fortuita. Ela revela a persistência de estruturas socioeconômicas fundadas em desigualdades históricas. O cultivo de café, por exemplo, é uma das bases do agronegócio brasileiro e, historicamente, já foi sustentado pelo trabalho escravizado no século XIX. Hoje, não raro, trabalhadores são resgatados em plantações onde vivem em alojamentos insalubres, sem acesso a água potável ou alimentação adequada, e sob vigilância coercitiva.
No trabalho doméstico, a repetição de casos é especialmente sintomática. Segundo estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil é o país com maior número absoluto de pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão em residências privadas. As vítimas, em sua maioria mulheres negras e pobres, muitas vezes vivem confinadas, sem salário, liberdade ou vínculos formais de trabalho. É a atualização perversa da casa-grande e senzala, conceito imortalizado por Gilberto Freyre, mas cuja permanência no imaginário e na prática social brasileira exige crítica contundente e ação institucional permanente.
A manutenção desse cadastro é uma ferramenta importante não só para a punição dos infratores, mas também para orientar decisões de empresas, bancos e consumidores conscientes. Desde 2016, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a legalidade da lista e sua divulgação, após tentativa de setores empresariais de censurar seu conteúdo. Bancos públicos e privados, como o BNDES e o Banco do Brasil, utilizam a lista para restringir crédito a empregadores envolvidos com trabalho escravo.
O Brasil aboliu formalmente a escravidão em 1888, com a Lei Áurea, mas a abolição incompleta e a ausência de políticas reparadoras criaram um legado de exclusão e vulnerabilidade que segue servindo como combustível para práticas exploratórias. A luta contra o trabalho escravo contemporâneo, portanto, não se resume a ações fiscais pontuais — ela exige uma profunda revisão de estruturas econômicas, culturais e políticas que naturalizam a desigualdade.
Como afirma o sociólogo Jessé Souza, em sua análise sobre as classes sociais no Brasil, “a elite nacional construiu sua riqueza sobre a exploração sistemática dos mais pobres, e o trabalho escravo é apenas o estágio mais visível dessa lógica perversa” (A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato, 2017).
Enquanto o país se debate entre projetos democráticos e retrocessos institucionais, o combate ao trabalho análogo à escravidão deve ser visto como um termômetro ético da sociedade brasileira. Manter e ampliar a lista suja é uma forma de proteger os direitos mais básicos da dignidade humana — e de nos lembrar que, enquanto houver um só trabalhador submetido à escravidão, a liberdade ainda será uma promessa por cumprir.