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Brasil
Empresa se beneficia de renúncias fiscais enquanto amplia lucros
Publicado em 24/07/2025 10:27 - Semana On
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Enquanto o governo federal busca ampliar a arrecadação e evitar cortes em áreas sociais, megacorporações seguem acumulando benefícios tributários bilionários. É o caso da JBS, maior produtora de proteína animal do mundo, que, entre janeiro de 2024 e maio de 2025, deixou de pagar ao menos R$ 8,5 bilhões em tributos federais — o equivalente a 68% do lucro líquido obtido no mesmo período.
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Os dados constam no painel público da Receita Federal vinculado à Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi), e somam os incentivos fiscais recebidos por quatro CNPJs do grupo: JBS S/A, Seara Alimentos Ltda, Seara Comércio de Alimentos Ltda e JBS Aves Ltda.
Em 2024, a própria empresa divulgou um lucro líquido de R$ 9,6 bilhões. No primeiro semestre de 2025, já acumula mais R$ 2,9 bilhões, impulsionada pelo desempenho da Seara — adquirida em 2013 por R$ 5,8 bilhões. Com isso, o grupo totaliza R$ 12,5 bilhões de lucro em cerca de 17 meses. No mesmo intervalo, obteve isenções que correspondem a quase 70% desse montante.
“Uma mamata sem tamanho”
Para o engenheiro agrônomo e pesquisador Adalberto Floriano Greco Martins, os números revelam a distorção estrutural dos incentivos públicos no país. “O caso da JBS é uma mamata sem tamanho. Uma única empresa ganhou mais de R$ 5 bilhões em isenção. Isso é quase o orçamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário. É mais do que o orçamento do Ministério do Meio Ambiente. É uma aberração”, afirmou.
Segundo ele, é inaceitável que um setor que se vende como moderno e independente conviva com tamanha dependência de recursos públicos: “Esses marajás do campo são sustentados com o nosso dinheiro. E o pior: a gente ainda compra a ideia de que o agro é pop, é tech, é tudo.”
As isenções à JBS concentram-se, principalmente, na contribuição para o Cofins (76,3% dos R$ 8,5 bilhões). Em seguida aparecem o PIS/Pasep (16,5%) e a Contribuição Previdenciária (5,8%), além de incentivos menores sobre tributos como Cofins-Importação, IRPJ, CSLL e PIS/Pasep.
Setor de carnes entre os maiores beneficiados
A JBS não está sozinha. O setor de carnes foi o segundo mais beneficiado com isenções tributárias no período, somando R$ 36,53 bilhões, atrás apenas do setor de adubos e fertilizantes (R$ 36,86 bilhões). Os agrotóxicos vêm em seguida, com R$ 27,94 bilhões, segundo o sistema da Receita Federal.
Durante audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), afirmou que o agronegócio brasileiro, em seus diversos segmentos, recebe cerca de R$ 158 bilhões por ano em renúncias fiscais. “Vamos negar que estamos patrocinando o agro brasileiro? Estamos patrocinando o agro”, declarou.
Para o economista Róber Iturriet Avila, professor da UFRGS, o discurso liberal do setor não se sustenta. “O agro costuma afirmar que não depende do Estado, que é competitivo e defensor do livre mercado. Mas é um dos setores mais beneficiados por isenções, créditos baratos e renegociações. É um setor produtivo e relevante para as exportações, mas não necessita desses incentivos. Outros setores têm mais necessidade. Por isso, essas políticas deveriam ser extintas.”
Lucros privados, impactos públicos
A JBS faturou R$ 416 bilhões em 2024, montante superior ao PIB de 20 estados brasileiros. Está presente em mais de 20 países e vende para 180, mas os ganhos da multinacional não se refletem necessariamente em desenvolvimento social nas regiões onde atua. Um estudo publicado em 2024 mostra que, entre 2013 e 2023, o número de famílias inscritas no Bolsa Família cresceu em cidades onde a empresa tem grandes unidades, como Lins (SP) e Goiânia (GO).
“O agro como um todo deixou de pagar R$ 158 bilhões em impostos federais. É o mesmo valor do Bolsa Família, que atende 20 milhões de famílias. O agro atende uma parcela ínfima e concentrada da população”, compara Pardal, como é conhecido Adalberto Martins.
Violação de direitos e impactos ambientais
A trajetória da JBS também é marcada por controvérsias. Reportagens da Repórter Brasil, The Guardian e Unearthed denunciaram a chamada “lavagem de gado” — a compra de animais oriundos de áreas desmatadas ilegalmente. A empresa afirma que bloqueou dezenas de milhares de fazendas por violarem seus critérios ambientais e criou os chamados “Escritórios Verdes” para oferecer assistência técnica a produtores.
Ainda assim, as falhas persistem. Em outubro de 2024, o Ibama flagrou a compra de gado feita diretamente de uma fazenda embargada por desmatamento ilegal. A empresa negou irregularidades e afirmou que suas compras seguem as normas legais e políticas internas.
Em 2023, cinco fornecedores de gado da JBS foram incluídos na “lista suja” do trabalho escravo. Em outro episódio, o Ministério do Trabalho autuou a empresa por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão em granjas fornecedoras no Rio Grande do Sul. Havia relatos de jornadas de até 16 horas diárias. A JBS contestou as autuações e declarou “tolerância zero” com violações de direitos humanos.
A tentativa da empresa de ingressar na Bolsa de Valores de Nova York também enfrenta críticas de organizações como Greenpeace, Global Witness e Mighty Earth, que alertam para os riscos socioambientais e acusam a JBS de ter “papel desproporcional” no desmatamento da Amazônia.
Em nota, a companhia afirma que mantém o compromisso de eliminar o desmatamento da cadeia produtiva até 2025 — ainda que admita que a meta é uma aspiração, e não uma promessa formal.
Ranking de isenções – Grupo JBS
(Valor total: R$ 8.520.457.808,51)
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