22/04/2024 - Edição 540

Brasil

Instituto Brasil-Israel condena citação nazista contra LGBTs feita pelo pastor bolsonarista André Valadão

No Paraná e no Rio Grande do Sul, ataques nazistas mostram que a extrema direita precisa ser contida

Publicado em 06/07/2023 10:03 - Ivan Longo, Marcelo Hailer e Raphael Sanz (Fórum) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O pastor bolsonarista André Valadão, alvo de investigações do Ministério Público (MP) que podem enquadrá-lo pelo crime de homofobia, achou uma boa ideia se defender utilizando uma imagem do ditador nazista Adolf Hitler.

Durante um culto de sua organização, a Igreja Batista da Lagoinha, realizado no último domingo (2) em Orlando (EUA) e transmitido para brasileiros através das redes sociais, Valadão incitou a morte de pessoas LGBTQIA+.

“Essa porta foi aberta quando tratamos como normal aquilo que a Bíblia já condena. Agora é hora de retomar o controle e dizer: ‘não, pode parar, resetar’. Aí Deus diz: ‘não posso mais, já enviei esse arco-íris, se eu pudesse, eu mataria tudo e começaria tudo de novo. Mas já prometi para mim mesmo que não posso, então agora está com vocês’. Vocês não entenderam o que eu disse: agora está com vocês. Vou repetir: está com vocês”, disparou na celebração religiosa em questão.

Parlamentares como a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e o senador Fabiano Contarato (PT-ES), diante da fala abjeta, entraram com ações no Ministério Público solicitando a prisão do pastor. O MP do Acre, então, abriu procedimento investigatório contra Valadão, que já é alvo de outro processo por homofobia.

O bolsonarista vem afirmando que está sofrendo uma tentativa de “censura” e, no âmbito desta narrativa, publicou em seu Instagram imagens para divulgar cultos de sua igreja que terão este tema. Uma das imagens é uma fotomontagem com os rostos de Adolf Hitler e do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, com a palavra “censura” rabiscada na boca de ambos.

Confira

Usuários das redes sociais interpretaram a imagem como uma sugestão de que Hitler e Trump teriam sofrido censura, tal como o pastor alega que estaria sofrendo. “Você não tá colocando o Hitler como alguém que foi censurado, né? Não é possível”, escreveu um internauta, em meio a inúmeros comentários do tipo.

Semelhança 

Em momento algum André Valadão declarou apoio a Adolf Hitler, mas sua postagem sugere que o nazista teria sido alvo de censura.

O fato é que Hitler, além de perseguir e matar judeus, tinha ainda como alvo as pessoas LGBTQIA – justamente o grupo que Valadão sugeriu a morte na pregação que o fez se tornar alvo do Ministério Público.

Tal observação foi feita pelo Instituto Brasil-Israel, que repudiou o que classificou como “banalização do Holocausto” na postagem do pastor bolsonarista.

“Após a denúncia, o pastor fez publicações nas redes sociais com uma imagem de Adolf Hitler, sugerindo que haveria uma ditadura que o coibiria de falar. É um exemplo claro de banalização do Holocausto e dos horrores do nazismo. Diferentemente do que quer dizer André Valadão, as falas dele, na verdade, se assemelham ao que fez Hitler: pregar o extermínio de minorias, com um discurso supremacista”, diz nota da organização.

Confira

Obsessão de André Valadão contra as LGBT+ faz parte de um projeto de poder

O nome do pastor André Valadão tem sido um dos principais assuntos nas redes sociais e na imprensa desde segunda-feira (3), quando viralizou um culto em que ele incentiva os fiéis a matarem pessoas LGBT+.

Após atacar as Paradas LGBT, André Valadão convocou as pessoas a matar as LGBT. “Essa porta foi aberta quando tratamos como normal aquilo que a Bíblia já condena. Agora é hora de retomar o controle e dizer: ‘não, pode parar, resetar’. Aí Deus diz: ‘não posso mais, já enviei esse arco-íris, se eu pudesse, eu mataria tudo e começaria tudo de novo. Mas já prometi para mim mesmo que não posso, então agora está com vocês’. Vocês não entenderam o que eu disse: agora está com vocês. Vou repetir: está com vocês”, disse o pastor.

Nos últimos meses, André Valadão tem sistematicamente atacado a comunidade LGBT+ com discursos que pregam violência extrema contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Isso faz parte de um projeto político maior que envolve a família Valadão como um todo.

A jornalista Luciana Petersen, que se apresenta como “jornalista crente ex-valadete”, publicou um dossiê sobre a família Valadão, o qual ajuda a entender a obsessão do clã da Lagoinha contra a comunidade LGBT+.

De acordo com o levantamento de Luciana Petersen, “a família Valadão raiz é composta pelo Pastor Márcio (que faleceu recentemente), Renata e seus filhos: André, Ana Paula e Mariana. No princípio, eram apenas uma família pastoral branca em uma igreja batista de BH, a Lagoinha”.

Em seguida, Petersen explica que “a Lagoinha começou como uma igreja comum e teve até outros pastores antes de Márcio Valadão, mas tornou-se uma igreja grande na década de 90 e cresceu ainda mais graças à banda oficial, o Diante do Trono, liderada por Ana Paula Valadão”.

“Diante do Trono é uma das maiores (e melhores) bandas cristãs do Brasil. Ela lotou estádios em quase todas as capitais, lançou mais de 30 álbuns e DVDs, e suas músicas são cantadas até hoje em igrejas”.

Os Valadão possuem um projeto de poder: “o plano dos Valadão parece ser dominar, seja por meio de vias religiosas, artísticas, empreendimentos (como o cartão de crédito fé, etc.) ou políticas. Tudo isso por uma missão maior: levar o evangelho, encher igrejas e estádios, mas com prosperidade para eles”.

No entanto, para que o pastor Márcio Valadão alcançasse seu plano, era necessário ter uma família perfeita, e assim ele arranjou um casamento para seu filho, André Valadão.

Luciana Petersen destaca que “nem sempre eles [família Valadão] estiveram ligados à extrema-direita. Os Valadão apoiaram Marina Silva em 2010. André e Ana Paula diziam orar por Dilma. Ambos apoiaram Bolsonaro”.

A guinada rumo ao “cristofascismo”: “A guinada rumo ao cristofascismo não é de hoje, não é exclusiva dos Valadão nem do Brasil. Porém, nem todo crente. Em 2017, André convidou Deltan Dallagnol para o seu culto Fé na Lagoinha Sede e o público virou as costas para o lavajatista. Na semana seguinte, ele deu uma bronca nos fiéis”.

A perseguição aos LGBT+ e a questão do arco-íris.

O projeto de cura para as LGBT+.

Sobre o acolhimento das pessoas LGBT+ na Igreja da Lagoinha.

Uma família complexa com projeto de poder claro.

André Valadão será investigado pelo MPF após pregar morte às LGBT+

O Ministério Público Federal (MPF) no Acre declarou na terça-feira (4) ter aberto um procedimento para investigar as falas do pastor André Valadão, que, em um culto realizado no último dia 2 e transmitido pelas redes sociais da Igreja Batista da Lagoinha, incentivou os fiéis a matarem pessoas LGBT.

O MPF vai investigar se o pastor André Valadão cometeu o crime de homofobia. O procedimento foi aberto pelo procurador Lucas Costa Almeida Dias, responsável pela Procuradoria dos Direitos do Cidadão (PRDC), que tomou conhecimento do caso por meio da imprensa.

Em entrevista ao UOL, a advogada Jacqueline Valles, mestra em Direito Penal, afirmou que Valadão pode ser enquadrado no crime de homofobia e incitação ao crime. “Se a investigação concluir que esse senhor cometeu o crime de homofobia, ele pode, sim, ser extraditado para cumprir pena no Brasil”, disse Jacqueline, que é membra da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abacrim).

O motivo banal alegado pelo policial para apontar arma e agredir professor de seu filho no Paraná

O delegado da Polícia Federal do Paraná que agrediu o professor Gabriel Barbosa Rossi, que dá aulas de História no Colégio Franciscano Nossa Senhora do Carmo (Confracarmo), na cidade de Guaíra, deu uma justificativa bizarra para seu ato violento.

O agressão ocorreu no último dia 30. Armado e de viatura, o homem foi até a escola, se identificou como delegado da PF e procurou pelo professor. Quando Gabriel se apresentou, foi agredido pelo delegado com um “mata leão”, ameaçado e ainda teve uma arma apontada para o seu rosto.

“Esse pai chegou na porta da escola perguntando se ele era o professor Gabriel […] meu filho se virou com a mão estendida para cumprimentar, e o pai agarrou o braço dele e começou com as agressões. Deu um mata-leão, asfixiou, deu voz de prisão. Em seguida colocou uma arma na testa dele”, relatou a mãe do professor.

Segundo relatos de outros estudantes e funcionários da escola, o agressor estaria irritado pelo fato do professor Gabriel ter repreendido seu filho após ele fazer declarações preconceituosas em sala de aula. O mesmo estudante já teria, supostamente, em outra ocasião, feito falas de cunho nazista.

O delegado, identificado como Mário César Leal Júnior, após a agressão, registrou um boletim de ocorrência contra o professor por injúria. No registro, ele alega que agrediu Gabriel pois o professor teria afirmado que “soltaria fogos de artifício” quando seu filho deixasse a escola, em sinal de comemoração, e que teria chamado o estudante de “nazista, racista, xenofóbico e gordofóbico”.

Gabriel, por sua vez, também tentou registrar boletim de ocorrência contra Mário César, mas diferente do delegado, não obteve sucesso. Segundo ele, o delegado de plantão na unidade policial afirmou que os policiais estavam em greve e que ligaria ao longo da semana para que ele realizasse o registro. “Eu fiquei muito temeroso porque eu vi ali um abuso de poder”, disse o professor ao portal G1.

Segundo o professor, o aluno em questão fazia “comentários de cunho preconceituoso, machista, homofóbico, gordofóbico com os professores”.

“Todas essas coisas somavam à visão que eu tinha de comentários detestáveis que ele fazia, inclusive eu disse para ele que em alguns momentos o vi fazer brincadeiras de cunho nazista. Mas eu sei que o menino não é nazista”, relata Gabriel.

O professor admite que afirmou que comemoraria a saída do aluno da escola, mas nega que tenha o xingado. Ele afirma que apenas chamou o estudante para conversar e, ao final da aula, o pai dele apareceu na porta da escola e iniciou as agressões.

Colégio se manifesta

Em nota, o Colégio Franciscano Nossa Senhora do Carmo informou que “lamenta profundamente o episódio violento” e que “tal agressão é inadmissível”.

Confira a íntegra da nota:

“NOTA DE REPÚDIO A TODA E QUALQUER VIOLÊNCIA

O Colégio Franciscano Nossa Senhora do Carmo lamenta profundamente o episódio violento ocorrido nesta sexta-feira (30/06), contra um de nossos professores, em frente ao Colégio. Tal agressão é inadmissível, acima de tudo, em uma instituição de ensino, a quem cabe o mais importante dever social, que é o de educar as crianças e os jovens, preparando-os para o exercício da cidadania.

Somos uma Escola Franciscana da rede SCALIFRA-ZN que defende os princípios e valores da Paz e do Bem. E em sua ação pedagógica busca promover o diálogo entre a família e a escola, ferramenta fundamental, na parceria de educar, pois educamos principalmente pelo exemplo e nas atitudes de amor e respeito. Somos, também, signatárias da cultura da paz, do diálogo, da correção com amor e compreensão, a exemplo de São Francisco de Assis.

Desta forma, expressamos nosso total repúdio a todo o tipo de manifestação de violência, e todas as formas de agressão, intolerância e ódio. E conclamamos as famílias a ressignificar a arte do diálogo com seus filhos, nossos alunos e com os professores destes. Sempre há novos caminhos a descobrir, para um jeito franciscano de educar para o desenvolvimento do ser humano: mais humano.

Reiteramos nosso apoio ao professor agredido e vale ressaltar que nada justifica uma agressão, seja física, moral ou verbal, e será sempre um ato repudiável, independentemente das razões que possam levar alguém a cometer tal atitude.

Equipe Diretiva e Pedagógica”

Investigação

Através das redes sociais, o ministro da Justiça, Flávio Dino, informou que tomou conhecimento da agressão e que a Polícia Federal investigará o caso, já que o pai do aluno é delegado da instituição.

“Sobre a denúncia veiculada pelo Professor Gabriel Barbosa Rossi, no Paraná, informo que já houve o registro formal e as apurações administrativas serão procedidas na Polícia Federal, visando ao esclarecimento dos fatos e cumprimento da lei”, escreveu Dino.

A Polícia Federal, por sua vez, informou que abriu um procedimento disciplinar para investigar a conduta do delegado Mário César Leal Júnior.

Trabalhador negro é vítima de insultos racistas e ameaça de morte em Lajeado (RS)

Um homem negro, natural do Rio de Janeiro, de 29 anos, começou a receber uma série de insultos racistas, imagens com referências neonazistas e ameaças de morte pelo direct do Instagram na noite da última segunda-feira (3) no município de Lajeado, no Rio Grande do Sul, onde vive com a mãe há 4 meses. A fim de preservar sua identidade e a de sua família, a vítima não será identificada na reportagem.

O próprio boletim de ocorrência registrado pela vítima na delegacia de polícia da cidade resume bem o ocorrido. “A vítima recebeu uma série de mensagens via direct do Instagram, que incluem figurinhas de macacos e bananas. Após questionar a pessoa que lhe enviou as figurinhas, o autor respondeu que ‘o sul não é para macaco’ e disse que era melhor a vítima ir embora. Além da referida resposta, o suspeito postou uma figurinha contendo a imagem de uma suástica e de Adolf Hitler. O suspeito disse ainda que ele e os seus irmãos farão uma limpa em Lajeado, sendo que pegarão ‘um macaco por vez’, a começar pela vítima”, diz trecho do boletim de ocorrência.

Em um dos prints, o autor das ameaças e insultos racistas exibe uma foto dando a entender que se trata do interior de sua residência. Nela, um homem vestindo uma farda militar aparece de costas para a câmera e diante de um retrato de Adolf Hitler, uma bandeira nazista e outros materiais da referida ideologia sobre uma mesa, como se fosse um pequeno altar.

“A vítima afirma que o suspeito também fez contato com seu irmão pelo direct e que no momento em que ele perguntou onde o suspeito estava, obteve a seguinte resposta: “Ich komme aus Deutschland” [Eu venho da Alemanha, em tradução livre]. Por fim, a vítima informa que em uma das mensagens o suspeito disse para o irmão lhe avisar que fique atento ao sair da ‘senzala’, referindo-se ao seu trabalho e dando os horários em que costuma deixar o expediente”, conclui o boletim de ocorrência.

À Revista Fórum, a vítima diz que não tinha planos de sair do Rio e ir para Lajeado. No entanto, sua mãe, que vive na cidade a quase dez anos, está com problemas de saúde e, por isso, topou a mudança. “Família sempre em primeiro lugar”, disse.

Desde que chegou na cidade, sem conhecer muita gente, o homem divide seu tempo entre trabalhar em um estabelecimento comercial local e cuidar da mãe. Chegou a frequentar uma igreja, mas geralmente passa mais tempo dentro casa do que fora, quando não está trabalhando. Ele não faz ideia de quem possa ter feito as ameaças.

“Fiz engenharia por dois anos e meio, e com meus 20 e poucos anos me descobri nas artes. Hoje não porque estou parado, mas teria quase 9 anos de teatro, fora meu trabalho como produtor, depois alguns trabalhos na Globo e outras coisas que conquistei no Rio. Parei isso tudo para estar aqui com a minha mãe mas ainda tenho esse sonho. Não queria que por causa de racismo alguma pessoa se sentisse no direito de vir aqui e tentar acabar com o meu sonho. Só quero que me deixe em paz, me deixe aqui no meu canto sonhando e fazendo as minhas coisas, independente da minha raça, cor ou crença”, declarou

Ele comenta que foi bem atendido pelas autoridades e espera que a polícia descubra a identidade do agressor. As investigações devem começar na próxima quarta-feira (5). “Quando ele disse o nome do lugar onde trabalho, o chamou de senzala, e depois falou os horários que são mais ou menos aqueles em que eu saia, deu pra perceber que é alguém que está próximo. Mas não faço ideia de quem possa ser”, relatou.


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