28/02/2024 - Edição 525

Brasil

Fanatismo: pastor usa tática bolsonarista ao incentivar o ódio para manipular fiéis

André Valadão incita fiéis a matarem pessoas LGBT: ‘Se Deus pudesse, matava todos. Agora é com vocês’

Publicado em 04/07/2023 9:34 - Leonardo Sakamoto (UOL), Marcelo Hailer e Ivan Longo (Fórum), Beatriz Castro (DCM) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O pastor André Valadão cometeu um grave crime ao incitar violência contra a população LGBTQIAPN+ durante um culto em português na Igreja Lagoinha de Orlando, nos Estados Unidos. Disse que, se pudesse, Deus “matava tudo e começava tudo de novo”, mas como isso não é possível, “agora tá com vocês”. E completou: “vamos para cima”.

Após representações movidas contra ele por parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP) e Fabiano Contarato (PT-ES), Valadão disse que foi mal compreendido, que sua pregação nunca será sobre matar pessoas, que a culpa da polêmica são de “narrativas que tentam colocar na mídia” e que defendeu na verdade “que cabe a nós levar o homem, o ser humano, ao princípio daquela que é a vontade de Deus”.

TBP: Tática Bolsonarista Padrão, de atacar e depois chamar de louco quem reclamou do ataque porque teria entendido “errado”. Mas o público que recebeu a mensagem entendeu muito bem o que ele quis dizer. Neste caso, a tática é duplamente bolsonarista porque gênero é o espantalho-padrão do ex-presidente e seguidores.

O que ele fez não foi exercer liberdade religiosa, mas incitar a morte de outro grupo social minoritário em direitos, o que é considerado discurso de ódio na definição das Nações Unidas. Mas não só isso: a pregação girou em torno de um tema que encontra eco entre conservadores, que é a questão de gênero. Lideranças religiosas e políticas manipulam o medo infundado de uma parte da população usando esse temor (de que a população LGBTQIAPN+ é como um vírus que leva o mal para as crianças) a fim de exercerem seu controle sobre o corpo e a alma dela.

Dito isso, valem a pena algumas reflexões.

1) Se houver um Deus, ele não morre de vergonha por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes. Mas por conta dos que falam de morte matar em sua honra, ignorando toda discussão presente no Novo Testamento.

2) Se Jesus voltasse hoje defendendo a mesma ideia central presente nas escrituras sagradas do cristianismo (e que, por ser tão simples, não é seguida por muitos) e andando ao lado dos mesmos párias com os quais andou, seria humilhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado e explodido.

Ele ou ela seria chamada de mendiga e de sem-teto vagabunda, olhada como operária subversiva, alcunhada como agressora da família e dos bons costumes, violentada e estuprada, rechaçada na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV, difamada nas redes sociais. Levaria porrada daqueles que se sentem os ungidos pelo divino, finalizada como comunista, linchada num poste pela população em nome da fé e das tradições. E, ao final, alguém ainda tiraria uma selfie ao lado de seu corpo morto para postar no Insta.

3) Supostos representantes dos interesses de Deus na Terra afirmam lutar pelo direito de expressarem suas crenças. Bobagem, essa liberdade eles já têm garantida. O que querem é o privilégio de exercerem seu ódio diante daquilo que acham que pode ameaçar o controle sobre o povo.

4) O discurso de ódio transforma a massa em turba e provoca distorções de entendimento sobre as palavras que estão na origem da fé das pessoas. Estudei em uma escola protestante por nove anos e, ao mesmo tempo, participei ativamente da vida na igreja católica perto de casa. Por conta do meu passado, sei razoavelmente bem o que está escrito nos evangelhos. E o discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está nos quatro livros do Evangelho cristão.

5) A liberdade de expressão não é um direito absoluto, pois não há direitos absolutos. Nem o direito à vida é, caso contrário, não existia a absolvição por legítima defesa. Ela é limitada por outros direitos, como o direito à vida e a uma existência sem medo de morrer. Se uma sociedade tolerante aceita a intolerância como parte da liberdade de expressão ela pode vir a ser destruída pelos intolerantes. Como analisou o filósofo Karl Popper, a liberdade irrestrita leva ao fim da liberdade da mesma forma que a tolerância irrestrita pode levar ao fim da tolerância.

6) Líderes religiosos, políticos e sociais dizem não incitar a violência. Por vezes, não são eles que atacam, mas é o encadeamento de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna a agressão banal. Ou, melhor dizendo, “necessária” – para tirar o mundo do caos e levá-lo à ordem. Acabam por alimentar a intolerância, que depois será consumida por fãs malucos e seguidores inconsequentes que fazem o serviço sujo, quase em uma missão divina. E temos mortos para provar.

7) Dizer que todo cristão tem o dever de colocar em prática tudo o que está escrito na Bíblia, não raro, cai no pecado da seletividade. Pois se é para seguir à risca as sagradas escrituras, então também temos que fechar os bancos (“Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás do teu alimento por interesse”, Levítico 25:37); não comer camarão e polvo (“De todos os animais que há nas águas, comereis os seguintes: todo o que tem barbatanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esses comereis. Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares e nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós abominação”, Levítico 11:09 e 10).

8) Se por um lado, as lideranças fazem o que fazem de forma criminosa e consciente para manter os fiéis com medo e, por isso, merecem ser punidos, prefiro acreditar que há uma maioria entorpecida por essas palavras carregadas de veneno que não acredita nisso. A quase totalidade dos evangélicos quer paz como a quase totalidade de quaisquer outros membros de outras religiões.

Por isso, a passagem mais legal dos Evangelhos segue segundo na minha opinião, o livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34: “Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem”.

9) Por isso, gosto de repetir os ensinamentos do sábio de barba que dizia que, no final das contas, será muito difícil salvar quem se apega à riqueza ignorando os mais pobres. Alguém que explicavam que não importa o quanto você tem, mas quem você é.

“Comunista! Volta pra Cuba, safado! Você nunca iria entrar na Terra Prometida, defensor de bandido! Deve ser coisa de Marx, ou seja, do capeta.”

Na verdade, é coisa de um tal de Jesus de Nazaré (Lucas 18:18-30; Mateus 19:21; Mateus 6: 19-21).

Governo Lula enquadra fundamentalistas: “Criminosos. Vão prestar contas à Justiça”

O ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, criticou, sem citar nominalmente, as recentes declarações do pastor André Valadão. Para o ministro do governo Lula, a atuação de Valadão e de outros propagadores do ódio é “criminosa” e deve “prestar contas à Justiça brasileira”. Além disso, Almeida afirmou que, na contemporaneidade, “o ódio é uma mercadoria”.

“O ódio é uma mercadoria, no sentido mais específico do termo, tal como aprendemos desde o século XIX. O ódio, portanto, tornou-se fonte de lucro para empresas, inclusive aquelas que administram as chamadas redes sociais. Mas, além disso, o ódio tornou-se fonte de popularidade e uma forma de existência para pessoas sem escrúpulos, pois sabemos que o ódio gera engajamento, o que é fundamental para o que chamamos de economia da atenção”, disse Almeida.

Posteriormente, Silvio Almeida direcionou sua crítica aos mercadores da fé e mandou um recado: “Sabemos também que o ódio é fundamental para os mercadores da fé, para os fariseus, que manipulam a fé das pessoas de cima dos púlpitos, servindo apenas para destilar seu ódio. Essas pessoas não estão acima da lei, não estão acima da Constituição e, em um Estado laico no qual as pessoas têm todo o direito de expressar sua religião, mas também têm o direito de não ter religião, certamente prestarão contas à Justiça brasileira. Não tenham dúvidas disso”, alertou.

Além disso, Silvio Almeida também afirmou que “o anonimato das redes não pode ser escudo para a impunidade, tampouco a imunidade parlamentar. Um falso sentimento ou uma falsa proposição de religiosidade também não é escudo para quem pratica crimes. É assim que essas pessoas devem ser tratadas”.

“Quem censura é o ódio, o radicalismo, o preconceito, a discriminação, o racismo. Não existe liberdade sem o exercício da responsabilidade. Portanto, ser livre também significa arcar com as consequências dos próprios atos. É saber que nossas ações, quando afetam a vida de alguém, terão consequências”, concluiu o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida.

Valadão já sugeriu “afogar” Lula durante batismo

Em março, Valadão disse em seu perfil no Instagram que se seria capaz de batizar Lula. O evangélico deu a entender que tentaria afogar o petista. “O senhor batizaria o Lula?”, perguntou um seguidor. “Batizaria, mas deixava uns 30 segundos debaixo d´água para dar uma limpada”, disse Valadão na época.

Valadão ainda promoveu diversos ataques à comunidade na semana do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ (28 de junho). Ele também chamou o movimento de “religião” e afirmou que incentiva a pedofilia.

“Essa religião prega, viva os seus impulsos, essa religião LGBT quem amais ensina. Faça o que te dê na cabeça. Hoje você pode estar com um homem, amanhã você pode estar com uma mulher e estão até tentando fazer lei dizendo, se você até quiser e tem uma atração por crianças não é bem que está errado. É porque você tem. Está dentro de você! Faz parte! É um movimento, uma religião que carrega algo, mas o evangelho diz diferente, diz que nós estamos em uma guerra”, declarou.

André Valadão vira alvo de inquérito do MP – e não é pelo culto em que prega morte de pessoas LGBT

O Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) decidiu ontem (3) abrir um inquérito para investigar crime de homofobia supostamente cometido pelo pastor bolsonarista

O órgão vai apurar, a partir de denúncia feita pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), falas do bolsonarista feitas em um culto no mês de junho, no qual afirmou que Deus “repugna” o Mês do Orgulho LGBTQIA+.

“Considero que hoje é o mês que Deus mais repugna na humanidade (…) Odeia e repugna qualquer atitude de orgulho, só o uso da palavra Deus já condena”, afirmou o pastor na celebração que é alvo da investigação do MP.

Contarato pede prisão de André Valadão

O senador Fabiano Contarato informou que vai acionar o Ministério Público Federal (MPF) solicitando investigação criminal contra o pastor bolsonarista André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, por pregação em que incita os fiéis a assassinarem pessoas LGBTQIA+.

Para Contarato, a pregação de Valadão incorre em homofobia explícita e, por isso, vai acionar o MPF para que o pastor seja alvo de inquérito criminal – que pode, inclusive, levar o líder religioso à prisão.

“Apesar de ele estar nos Estados Unidos, os telespectadores estão no Brasil, e o Judiciário brasileiro já tem jurisprudência para tratar casos assim. Além disso, a homofobia pode ser enquadrada como crime de racismo, previsto na Lei 7.716/89, com penas que podem chegar a 5 anos de prisão”, afirma Contarato.

O senador, que é homossexual e ex-delegado da Polícia Civil do Espírito Santo, destaca que os Poderes brasileiros não podem permitir que discursos de ódio sejam disseminados livremente, seja presencialmente ou pelas redes sociais.

“Em um país em que uma pessoa LGBT é morta a cada 32 horas, é inadmissível que tenhamos pessoas que se dizem líderes religiosas incitando a violência e o assassinato em massa. A liberdade, seja de expressão ou religiosa, acaba quando o discurso vai contra a vida de qualquer pessoa. Esse homem não representa Deus e muito menos os ensinamentos cristãos. Deus é amor, é união, é respeito, jamais discurso de ódio e de intolerância”, pontua o petista.

Marco Feliciano defende Valadão com discurso bizarro

O deputado bolsonarista e pastor fundamentalista Marco Feliciano (PL-SP) saiu em defesa de André Valadão. Com um discurso bizarro, afirmou que Valadão “é um homem de família”, atacou parlamentares da esquerda que criticaram o discurso de André Valadão, misturou tudo com o comunismo e atacou o presidente Lula (PT), a quem classificou como “canalha”.

“O pastor André Valadão, que é um homem muito conhecido em nosso meio evangélico, é um homem íntegro, é um homem de família e tem sido atacado covardemente pela extrema imprensa, que insiste em distorcer as falas [de André Valadão]. Ele está vivendo o que eu vivi no ano de 2013, quando pegaram falas, separaram palavras e usaram isso publicamente, acabando por destruir a imagem e a reputação das pessoas”, iniciou Marco Feliciano.

Em seguida, Feliciano atacou os parlamentares da esquerda que criticaram Valadão. “Não bastasse ser atacado pela extrema imprensa, ele foi atacado aqui neste parlamento agora há pouco por três deputados: um socialista, uma comunista e um vigarista. Entenda-se por vigarista: um canalha. Eu até entendo um socialista ter um problema de cognição, porque o socialista que atacou o pastor André Valadão aqui já chamou minha mãe certa vez de prostituta, uma mulher negra e analfabeta.”

Posteriormente, Marco Feliciano afirmou que o presidente Lula é ignorante e “um canalha”. “A comunista falar em paz e amor já começa a me dar angústia, porque o comunismo defende o oposto. O comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas ao redor do mundo. Só na Ucrânia, mais de 8 milhões de pessoas morreram de fome por conta do comunismo. Aí alguém, em pleno século XXI, falar que ama ser comunista, ou pior, como disse aqui o líder, o presidente da nação [Lula], que tem orgulho de ser chamado de comunista, porque não conhece a história ou é um verdadeiro canalha também.”


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