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Brasil
Alta nos preços atinge mais os pobres e afeta popularidade de Lula
Publicado em 16/04/2025 10:42 - Semana On
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A inflação dos alimentos já não é apenas um número no boletim do IBGE: ela se tornou um drama cotidiano para milhões de brasileiros. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, 58% da população afirma ter reduzido a quantidade de comida comprada nos últimos meses. Entre os mais pobres, o impacto é ainda mais profundo — 67% reportam essa restrição.
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O dado escancara a fragilidade de uma sociedade marcada por desigualdades históricas e por uma economia que não consegue proteger seu elo mais vulnerável. A resposta do governo tem oscilado entre medidas ortodoxas e declarações desastrosas. E enquanto o Planalto busca estabilidade no campo, a carestia já conquistou espaço no cotidiano e nas urnas.
A inflação acumulada em 12 meses até março chegou a 5,48%, puxada sobretudo pelo aumento nos preços de alimentos como o tomate (22,55%), ovo (13,13%) e café moído (8,14%). São itens centrais na dieta brasileira, o que torna o impacto ainda mais cruel. No mesmo período, o item “alimentação e bebidas” acelerou sua alta de 0,70% para 1,17%, segundo o IBGE. A disparada está ligada a fatores como clima, sazonalidade e problemas nas safras — mas, para a maioria da população, o culpado mora no Palácio do Planalto.
De acordo com o Datafolha, 83% dos brasileiros atribuem alguma responsabilidade ao governo Lula pela alta dos preços da comida — sendo que 54% o consideram muito responsável. A impopularidade vem crescendo em compasso com a inflação, numa dança amarga que a história brasileira conhece bem. A memória inflacionária, como lembrou certa vez o sociólogo Jessé Souza, não é só econômica — ela é também afetiva, marcada pelo medo da fome e pela vergonha da escassez. E esse medo ressurge agora, em pleno terceiro mandato de Lula, com força suficiente para corroer seu capital político.
Nesse contexto, declarações do presidente soam como sal em ferida aberta. Quando Lula aconselhou que “se está caro, não compre”, acreditando exibir racionalidade econômica, demonstrou, na verdade, um distanciamento preocupante da realidade do povo. A fala teve repercussão negativa e foi percebida como insensível, especialmente porque os dados mostram que as pessoas já não estão comprando: 8 em cada 10 adotaram alguma mudança de hábito. O sociólogo Pierre Bourdieu advertia que as palavras do poder moldam as estruturas simbólicas do sofrimento social — e, nesse caso, as palavras de Lula apenas ampliaram o desgaste.
Entre as estratégias de contenção de gastos relatadas pela população estão a redução no consumo de água, luz e gás (50%), a busca por outra fonte de renda (47%), e até mesmo a diminuição na compra de remédios (36%). Uma parte considerável deixou de pagar dívidas (32%) ou contas de casa (26%). O Brasil parece reviver, em escala diferente, o que o economista Celso Furtado chamou de “estrutura da pobreza estrutural”, onde o esforço de sobrevivência é o motor de toda a ação econômica da maioria.
Os efeitos desse cenário já se refletem diretamente na avaliação do governo. Embora a aprovação de Lula tenha oscilado levemente para cima — de 24% em dezembro para 29% agora —, a desaprovação permanece alta, em 38%. E a percepção de que a economia piorou cresceu dez pontos percentuais desde o fim de 2024, chegando a 55%, o maior índice desde o início do mandato.
Luz no fim do túnel?
Mas há, do lado do governo, a tentativa de mudar esse cenário sem recorrer a medidas intervencionistas radicais. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, aposta no aumento da produção agrícola como antídoto para a inflação. Segundo ele, a queda recente nos preços internacionais das commodities, combinada à renovação de estoques e à menor demanda pós-Páscoa, deve aliviar os preços nas próximas semanas. “No varejo, a carne já caiu; no atacado, caiu muito mais”, disse Fávaro, em entrevista no dia 9 de abril.
Fávaro também revelou que o governo prepara o novo Plano Safra 2025-2026, com foco na ampliação da oferta de crédito para médios produtores e linhas dolarizadas para grandes exportadores. A lógica é clara: estimular a produção e garantir oferta suficiente para conter os preços. Mas isso requer investimentos pesados. Com a Selic ainda elevada (14,25% ao ano), a equalização dos juros exigirá mais recursos do Tesouro.
A questão, portanto, não é apenas de oferta e demanda, mas de prioridades políticas e sociais. A inflação dos alimentos escancara a vulnerabilidade de um modelo que, embora empenhado em respeitar os limites fiscais, ainda falha em proteger sua população da fome. E a fome, como já alertava Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, raramente é causada apenas pela escassez de alimentos — mas sim pela incapacidade dos indivíduos de acessá-los.
No Brasil de 2025, não há fome generalizada, mas há o que a ONU chama de insegurança alimentar moderada ou grave. Um quarto da população afirma ter menos comida do que o suficiente em casa. Isso é mais do que um dado: é uma ferida aberta na democracia. Porque, como ensinava Herbert de Souza, o Betinho, “quem tem fome, tem pressa”. E, no Brasil de hoje, tem também desilusão.