Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Brasil
Mais de R$ 6 bilhões foram movimentados entre 2019 e 2024, muitos sem autorização dos beneficiários
Publicado em 25/04/2025 9:28 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Aposentados lesados por descontos indevidos em seus benefícios do INSS começam a ver uma luz no fim do túnel. Após anos de denúncias e inércia institucional, o governo federal anunciou a suspensão dos convênios entre o INSS e entidades da sociedade civil — e garantiu a restituição dos valores descontados sem autorização. A decisão ocorre no rastro da Operação Sem Desconto, que revelou um esquema bilionário de cobranças não autorizadas de mensalidades associativas entre 2016 e 2024, afetando milhões de segurados.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
“Os recursos descontados dos aposentados que iriam para as associações em maio já não vão para as associações. Esses recursos vão ser retidos e, na próxima folha de pagamento, serão restituídos aos aposentados”, afirmou Vinicius Marques de Carvalho, ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), em coletiva no Palácio do Planalto.
Um rombo silencioso
Entre 2019 e 2024, associações, sindicatos e confederações movimentaram R$ 6,3 bilhões por meio de convênios com o INSS, cobrando dos aposentados valores que, em muitos casos, nunca foram autorizados. A Polícia Federal e a CGU identificaram que o esquema começou em 2016, mas se intensificou a partir de 2019 — coincidentemente, após uma instrução normativa que facilitou a formalização desses convênios.
Apesar do volume expressivo, o governo ainda não divulgou qual parte dos valores foi indevidamente retirada. Esse será o papel de um grupo de trabalho que será criado para passar um “pente-fino” nos descontos. Segundo a diretora de Orçamentos e Finanças e Logística do INSS, Débora Floriano, a tarefa será criteriosa. “Não conseguimos precisar quais descontos são irregulares. A ação de ressarcimento faz parte de um plano que será apresentado oportunamente.”
Enquanto isso, a garantia do governo é clara: nenhum novo desconto será efetuado até que uma nova regulamentação seja estabelecida. Mais que uma medida pontual, a suspensão expõe uma fragilidade estrutural nas relações entre o Estado e as chamadas entidades representativas.
Burocracia automatizada
Um dos aspectos mais revoltantes da prática investigada é o uso da própria estrutura do INSS para operar os descontos, tornando-os automáticos e dificultando sua revogação. Até recentemente, um beneficiário precisava acessar o site ou aplicativo Meu INSS ou entrar em contato com o número 135 para solicitar a exclusão dos descontos. Agora, com a suspensão total dos convênios, essa obrigação deixa de existir.
“A partir de agora, nenhum aposentado será descontado da sua folha de pagamento”, reiterou o ministro da CGU. O gesto, além de técnico, é simbólico: o Estado admite que falhou em proteger os mais vulneráveis.
Segundo Jorge Messias, advogado-geral da União, a Advocacia-Geral da União irá atuar para assegurar o ressarcimento e colaborar com a reformulação dos convênios. “Toda vítima que for identificada, tendo prejuízo apurado e comprovado, nós vamos estar ao lado das vítimas para que, de fato, os recursos dessa fraude bilionária sejam ressarcidos”, declarou em vídeo publicado nas redes sociais.
Um problema antigo com raízes profundas
O caso dos descontos indevidos no INSS é apenas o sintoma mais recente de uma lógica institucional que, por décadas, deixou aposentados e pensionistas expostos à má-fé e à exploração. No Brasil, onde mais de 37 milhões de pessoas recebem algum benefício previdenciário, a captura de recursos por meio de “taxas associativas” sem consentimento explícito representa um ataque direto ao princípio da dignidade da pessoa humana — pilar do Estado Democrático de Direito.
Filósofos como Jürgen Habermas destacam a importância da “esfera pública não manipulada” como base para a ação cidadã e democrática. Quando instituições permitem — ou negligenciam — mecanismos de coação camuflados de representatividade, minam a própria legitimidade do sistema democrático.
Além disso, a prática denunciada atinge um grupo já social e economicamente vulnerável. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostra que aposentados de baixa renda são responsáveis, em muitos casos, pelo sustento de famílias inteiras. Retirar, mesmo que poucos reais mensais, sem autorização clara, significa empurrar ainda mais esses cidadãos para a insegurança econômica.
O caminho da reconstrução
A CGU e o INSS prometeram criar um novo marco regulatório que, além de garantir transparência, permitirá apenas convênios com entidades que se provem “probas, sérias e confiáveis”. É um passo necessário, mas que precisa ser acompanhado de vigilância social e institucional contínua.
Do ponto de vista legal, especialistas apontam que a responsabilização de dirigentes dessas entidades civis deve ser acompanhada por reparação coletiva. Segundo Oscar Vilhena Vieira, constitucionalista e professor da FGV-SP, “o Estado tem o dever de garantir que políticas públicas sejam executadas com base em critérios éticos e de justiça, especialmente quando envolvem populações vulneráveis”.
Justiça atrasada, mas necessária
Embora o ressarcimento ainda não tenha prazo determinado, a ação do governo representa um reconhecimento de que houve omissão e conivência institucional. A Operação Sem Desconto pode vir a ser um divisor de águas, desde que se mantenha o compromisso com a apuração, a devolução dos valores e, acima de tudo, com a reforma das práticas que tornaram o abuso possível.
Mais do que corrigir um erro técnico, trata-se de restabelecer a confiança de milhões de cidadãos em uma máquina pública que deve protegê-los — não explorá-los.