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Mato Grosso do Sul

A hipocrisia humana na guerra às onças

Após trágico ataque, resposta de parte da sociedade é perseguir espécie símbolo do Pantanal

Publicado em 25/04/2025 9:18 - Semana On

Divulgação Gov MS

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Um ataque de onça-pintada a um homem no Pantanal reacendeu, no Brasil profundo, uma lógica tão arcaica quanto destrutiva: diante do medo, caçar o predador. A tragédia que vitimou Jorge Ávalo, 60 anos, no município de Aquidauana, levou grupos a se organizarem para eliminar onças-pintadas da região, enquanto o governo de Mato Grosso do Sul corre para conter um movimento que representa não só um crime ambiental, mas uma inquietante amostra da impiedade e hipocrisia humana diante da vida silvestre.

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O animal capturado pela Polícia Militar Ambiental (PMA), um macho de 94 quilos — abaixo do peso saudável da espécie — foi transportado ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras), em Campo Grande. A operação, que mobilizou 12 militares e especialistas da UFMS, ICMBio, Imasul e do Reprocon, expõe mais do que o drama de um ataque isolado: revela a profunda desconexão entre o ser humano e o ecossistema que ele próprio devasta.

Embora não haja certeza de que esta tenha sido a onça responsável pela morte do caseiro, o simples fato de ela estar próxima ao local do ataque foi suficiente para mobilizar uma caçada simbólica. “Tem alguns relatos chegando para nós, de grupos que estariam se organizando no entorno da predação da onça-pintada”, afirmou Artur Falcette, secretário-adjunto da Semadesc. “Esse é um crime ambiental gravíssimo”, alertou, lembrando que caçar animais silvestres é ilegal e será punido com o rigor da lei.

A selva está no espelho

O que parece se perder neste tipo de reação é a complexidade do contexto ecológico e social. O Pantanal, maior planície alagável do planeta, é também uma das regiões mais pressionadas pela expansão agropecuária e pelas queimadas — muitas delas provocadas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que entre 2020 e 2023, mais de 30% da vegetação nativa do bioma foi atingida pelo fogo. O espaço vital da fauna pantaneira, incluindo o da onça-pintada, vem sendo sistematicamente reduzido. Em outras palavras: o ser humano invade, destrói e, diante da consequência, reage com fúria seletiva.

“Não se trata de uma onça que ‘pegou gosto’ por carne humana”, esclarece o biólogo Tiago Leite, do Instituto Profauna. “Pode ser um animal mais velho, magro, com dificuldade para caçar presas naturais. Mas isso não transforma o comportamento em norma.” A onça, neste caso, é apenas mais uma vítima de um desequilíbrio causado por séculos de exploração e ignorância.

É uma ironia cruel: ao mesmo tempo em que transforma florestas em lavouras e rios em pasto, a humanidade cobra dos poucos animais restantes que permaneçam inofensivos, confinados aos resquícios de habitat que lhes restaram. Chamamos esses espaços de “áreas de preservação”, mas são, na prática, guetos ecológicos. São zonas de confinamento, de onde esperamos que a fauna não escape — como se o instinto e a fome obedecessem a mapas e cercas.

Política ambiental ou teatro de emergência?

A resposta do Estado, até aqui, tem se concentrado em ações emergenciais. A captura da onça, o reforço na fiscalização, as falas de alerta. Mas o que permanece ausente é uma política de comunicação eficaz, que combata a desinformação e promova o entendimento ecológico. O Brasil é um país onde o conhecimento científico raramente ultrapassa o muro das universidades — e o preço disso é alto. “Eventos como esses geram terror e desinformação”, lamenta Leite. “Isso acaba provocando especulações e ações de justiçamento.”

Do ponto de vista histórico, o massacre da fauna brasileira tem raízes coloniais. Desde os tempos da Coroa portuguesa, o animal silvestre é visto como obstáculo ao “progresso”. Os manuais do bandeirante exaltavam a matança como ato de bravura, e essa mentalidade nunca foi de fato superada. A onça-pintada, por séculos caçada por esporte e considerada inimiga da civilização, carrega esse estigma cultural até hoje.

Como bem observou o filósofo Theodor Adorno, “a dominação da natureza caminha lado a lado com a dominação do outro”. A forma como tratamos os animais diz muito sobre a estrutura ética de uma sociedade — ou da sua ausência.

A ética em extinção

Não há civilização que se sustente sobre a negação da natureza. O que está em jogo não é apenas a preservação de uma espécie, mas a integridade de um ecossistema e, em última instância, a própria humanidade. Quando relegamos os animais silvestres a zonas de confinamento e os punimos por tentar sobreviver fora delas, projetamos uma lógica de exclusão que não é nova: é a mesma que historicamente confinou indígenas, quilombolas, pobres e marginalizados aos limites do que o poder considera tolerável.

O caso da onça do Pantanal é, portanto, mais do que um incidente isolado. É um espelho da nossa crise civilizatória — uma crise que exige mais do que políticas públicas pontuais. Exige uma mudança profunda na maneira como enxergamos o mundo natural e nosso lugar nele.

A tragédia de Jorge Ávalo é real e dolorosa. Mas sua memória será ainda mais desonrada se permitir que a resposta a ela seja mais destruição, mais medo, mais ignorância. O verdadeiro predador, afinal, não tem garras. Anda ereto, com uma arma na mão e convicção no olhar.

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