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Brasil
Mais da metade dos brasileiros foi vítima de golpes financeiros em 2024
Publicado em 03/06/2025 9:45 - Semana On
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O Brasil vive, silenciosamente, uma epidemia digital. Em 2024, 51% da população adulta relatou ter sido vítima de algum tipo de fraude financeira, segundo o Relatório de Identidade e Fraude 2025 do Serasa. Num país historicamente marcado por desigualdade, burocracia e fragilidade institucional, a sofisticação dos golpes digitais expõe não apenas vulnerabilidades técnicas, mas também um Estado que ainda engatinha na proteção do cidadão no ambiente virtual.
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Um país refém do golpe digital
A estatística assusta: um em cada dois brasileiros foi alvo de fraudes em 2024. O dado, apurado pelo Serasa a partir de entrevistas com 877 pessoas em todo o país, revela um fenômeno em crescimento acelerado. E o mais alarmante: 54,2% das vítimas tiveram prejuízo financeiro. Os golpes mais comuns são conhecidos, mas ainda eficazes — uso indevido de cartão de crédito (47,9%), boletos e Pix falsos (32,8%) e o velho, mas agora turbinado, phishing (21,6%).
A média dos prejuízos fica entre R$ 100 e R$ 1.000, uma quantia que, para milhões de brasileiros, representa mais que o salário de uma semana inteira de trabalho. As fraudes atingem todas as faixas etárias, mas crescem com a idade: 57,8% das vítimas têm mais de 50 anos, um dado que evidencia tanto a vulnerabilidade dos mais velhos quanto a ausência de políticas de inclusão e educação digital para essa parcela da população.
A nova face do estelionato
O avanço tecnológico trouxe conforto e agilidade, mas também um novo ecossistema de crimes. Ferramentas de inteligência artificial generativa, como aquelas capazes de criar deepfakes — vídeos e áudios falsificados com rostos e vozes clonadas — são hoje instrumentos usados por golpistas para criar identidades sintéticas e fraudes altamente verossímeis. A biometria facial, adotada por 67% dos entrevistados como medida de segurança, evolui como resposta, mas ainda é insuficiente para barrar técnicas de falsificação sofisticadas.
Como observa o filósofo coreano Byung-Chul Han, em Sociedade da Transparência (2012), a lógica digital opera sob um regime onde tudo é exposto, mas quase nada é responsabilizado: “Na sociedade da transparência, desaparece o negativo, a alteridade, a resistência. Tudo deve se tornar igual e disponível.” A criminalidade virtual se aproveita exatamente disso: da ausência do “negativo” — ou seja, da fronteira entre real e falso, entre segurança e risco.
Casos em alta: o retrato de Mato Grosso do Sul
A crise ganha rosto nos números regionais. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a Polícia Civil registrou 2.267 casos de golpes eletrônicos apenas entre janeiro e abril de 2025 — um aumento de 52% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo o delegado Rodrigo Camapum, da Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) Centro, “a criminalidade migrou da rua para as redes”.
Camapum explica que a facilidade do anonimato e a escala dos ataques digitais fazem com que crimes como estelionato superem, em alcance, os tradicionais furtos e roubos. Um e-mail fraudulento pode atingir centenas de vítimas em segundos, dificultando investigações, punições e recuperação de valores. Como medida de resposta, a Polícia Civil do estado anunciou a criação de uma Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos.
Dados vazam, confiança evapora
A pesquisa do Serasa também evidencia fragilidades estruturais: 16,3% dos entrevistados afirmaram ter perdido documentos pessoais — porta de entrada clássica para fraudes. Além disso, 19% admitiram ter compartilhado informações sensíveis com terceiros, seja em compras online (73,7%), abertura de contas bancárias (20,4%) ou obtenção de crédito (15,2%). A negligência no tratamento de dados pessoais é agravada por lacunas de fiscalização e por uma cultura digital ainda incipiente.
Apesar da vigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), sancionada em 2018, a sensação de impunidade permanece. O Brasil ainda engatinha na implementação de políticas robustas de cibersegurança, e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) carece de estrutura e orçamento compatíveis com a complexidade do problema.
Desigualdade digital
Em um país onde 42 milhões de pessoas vivem sem acesso à internet de qualidade, segundo o IBGE (PNAD TIC 2022), o combate às fraudes exige muito mais do que ferramentas tecnológicas. É preciso garantir letramento digital, acesso equitativo à informação e formação crítica desde a escola básica.
Como lembra o sociólogo Manuel Castells, “o poder no mundo informacional é o poder sobre a informação” (Castells, A Sociedade em Rede, 1996). E no Brasil, o poder da informação ainda está concentrado nas mãos de poucos — o que amplia a vulnerabilidade de muitos.
Cidadania, segurança, confiança
As fraudes digitais não são apenas um problema policial ou financeiro. São um desafio à cidadania. Um cidadão que teme usar o Pix, desconfiado de links e mensagens, é alguém que começa a desacreditar do próprio ambiente digital — hoje essencial para acessar serviços públicos, votar, trabalhar ou empreender.
Nesse contexto, a omissão do Estado em criar políticas públicas eficazes de prevenção e combate à criminalidade digital representa não apenas um erro estratégico, mas uma abdicação de sua função essencial: proteger os direitos e a dignidade do indivíduo em todos os espaços — inclusive no virtual.
O combate à epidemia de fraudes no Brasil exige um novo pacto digital. Isso envolve investimento em cibersegurança, fortalecimento institucional, responsabilização das plataformas e empresas que lidam com dados pessoais, e, sobretudo, educação cidadã. O silêncio do poder público diante dessa nova forma de violência — invisível, mas profundamente real — não pode mais persistir.
A digitalização da vida é irreversível. Mas a proteção do cidadão precisa ser igualmente irredutível.
WhatsApp clonado: um golpe que começa com um SMS
O golpe do WhatsApp é um dos mais disseminados no país — e talvez o mais insidioso, pois transforma o próprio celular da vítima em arma contra amigos e familiares. Tudo começa com o envio de um código de verificação por SMS. O criminoso, fingindo ser de uma empresa de suporte técnico ou plataforma de serviços, convence a vítima a repassar esse número. Com o código em mãos, assume o controle da conta da pessoa no aplicativo.
De posse da conta, o golpista se aproveita da relação de confiança já existente entre a vítima e seus contatos. Com mensagens convincentes, pede transferências urgentes de dinheiro, alegando situações emergenciais. Por trás de cada um desses casos, há uma lógica de engenharia social altamente eficaz — e uma falha de segurança que poderia ser evitada com a simples ativação da verificação em duas etapas no WhatsApp.
Segundo o Relatório de Identidade e Fraude 2025, elaborado pelo Serasa, 51% dos brasileiros foram vítimas de golpes em 2024. A prática da clonagem de aplicativos de mensagens está entre os métodos mais utilizados, principalmente contra idosos e pessoas com menor familiaridade digital.
Promoções irresistíveis: o velho estelionato com novo disfarce
O golpe da falsa venda também tem se tornado cada vez mais comum. Aqui, os criminosos criam sites fraudulentos que imitam o layout de grandes varejistas ou mantêm perfis falsos em redes sociais — frequentemente com nomes e logotipos parecidos com os de marcas confiáveis. Nessas páginas, ofertas extremamente vantajosas são o chamariz: celulares por metade do preço, móveis com 70% de desconto, frete grátis e entrega em 24 horas.
O consumidor desatento, ao clicar em um link recebido por e-mail, SMS ou WhatsApp, é direcionado ao site falso. Após inserir dados pessoais e efetuar o pagamento, o produto nunca chega — e os dados bancários agora estão nas mãos dos golpistas.
Esse tipo de fraude se vale da impulsividade do consumidor digital e da ausência de políticas públicas mais severas contra a prática de phishing e falsificação de identidade empresarial. A falta de um mecanismo de verificação eficaz para sites de e-commerce e perfis comerciais em redes sociais amplia ainda mais o alcance desses golpes.
O golpe da falsa central: a psicologia da urgência como arma
Talvez o mais sofisticado entre os principais golpes seja o da falsa central bancária. Nele, criminosos se passam por funcionários do banco ou da operadora do cartão da vítima. A estratégia é provocar pânico: relatam compras irregulares, movimentações suspeitas ou problemas com a conta. Em um tom profissional, pedem dados sensíveis como número de agência, CPF, senhas ou tokens.
Em alguns casos, os criminosos enviam motoboys para recolher os cartões “danificados” da vítima — prática documentada em vários estados. A simulação da identidade institucional e o uso de linguagem técnica contribuem para dar credibilidade à fraude.
Como explica o delegado Rodrigo Camapum, da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, “os crimes praticados por redes sociais e telefone permitem um grau de anonimato muito maior do que os crimes convencionais”. E com esse anonimato, vêm também a impunidade e a baixa taxa de resolução: “O criminoso pode disparar um e-mail ou mensagem para milhares de pessoas ao mesmo tempo. Isso dificulta a investigação, a apuração e a punição”.
A face oculta da biometria: segurança ou ilusão?
Segundo pesquisa da NordVPN, 82% dos brasileiros já utilizam algum tipo de tecnologia biométrica — de digitais a reconhecimento facial. A popularização acelerada é atribuída a uma combinação de conveniência, crescimento do comércio digital e promessas de maior segurança. Como resume Marijus Briedis, diretor de tecnologia da empresa: “A biometria é uma forma intuitiva de autenticação, integrada a uma infinidade de serviços digitais”.
A promessa é clara: facilitar o acesso a contas, compras, estádios e até à portaria do prédio. Para o diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), Fabro Steibel, “a biometria é o novo nome e CPF”, tamanha é a dependência que se criou em torno dela.
Porém, como alertam especialistas em segurança, esse tipo de dado tem uma característica única e preocupante: é imutável. Enquanto senhas podem ser trocadas após um vazamento, um rosto ou impressão digital comprometidos tornam-se uma brecha permanente.
Do banco ao estádio
A adesão à biometria avança especialmente em espaços de massa e serviços essenciais. Em junho de 2025, começa a valer a obrigatoriedade de reconhecimento facial em arenas esportivas com mais de 20 mil lugares, com a justificativa de coibir cambistas e torcedores violentos. Bancos e operadoras de telefonia já exigem selfies e leitura facial para autenticação de clientes.
O problema? Os golpistas chegaram antes da regulação. Em janeiro de 2025, o número de tentativas de fraude subiu 41,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apenas os golpes envolvendo autenticação biométrica e análise documental foram responsáveis por 44% dos casos.
Casos concretos ilustram o risco. Em Santa Catarina, ao menos 50 pessoas foram vítimas de um golpe em que um funcionário de operadora de telefonia simulava vendas de linhas para capturar dados biométricos e abrir contas fraudulentas. Em Minas Gerais, criminosos se disfarçaram de entregadores dos Correios para coletar digitais e fotos de usuários, utilizadas depois em fraudes bancárias.
“A proliferação da biometria pode gerar uma falsa sensação de segurança entre os usuários”, alerta Briedis. “Criminosos podem explorar esses dados para criar identidades deepfake altamente convincentes.”
Privacidade banalizada, riscos maximizados
Ainda que a maioria da população declare confiar nas empresas que armazenam seus dados biométricos (87%, segundo a NordVPN), 31% expressam preocupação com a possibilidade de vazamentos. O caso da empresa australiana Outabox, que expôs dados de mais de um milhão de frequentadores de casas noturnas, acendeu o alerta global para esse tipo de risco.
O aposentado Cláudio Oliveira expressa bem essa tensão: “A tecnologia praticamente nos obriga a aceitar. Mesmo com atenção redobrada, muitas pessoas ainda são vítimas”. Seu receio não é isolado — a sensação de vulnerabilidade digital cresce proporcionalmente à digitalização dos serviços básicos.
A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) já reconhece os dados biométricos como “dados sensíveis”, o que, em tese, garante proteção mais rígida e penalidades severas em caso de vazamento — podendo chegar a multas de R$ 50 milhões. Mas, como destaca Steibel, o medo de sanções pode justamente estimular a ocultação de incidentes pelas empresas, dificultando a responsabilização e o reparo aos danos.
Alternativas possíveis
O cenário atual exige a construção de alternativas tecnológicas e jurídicas para garantir segurança sem sacrificar a privacidade. Steibel cita o exemplo da China, onde o acesso a condomínios é feito por QR Codes de uso único, sem armazenamento de dados biométricos. A descentralização e a temporariedade das informações são estratégias eficazes contra vazamentos em massa.
Outra recomendação essencial é o uso de autenticação multifator (MFA), combinando biometria com senhas ou chaves físicas. Segundo Briedis, “optar por plataformas com criptografia de ponta a ponta e políticas de privacidade claras pode reduzir significativamente os riscos”. Ele também defende notificações em tempo real — como via gov.br — para qualquer uso de dados biométricos, especialmente em transações bancárias.
Além disso, é fundamental que o cidadão saiba como monitorar sua identidade digital. “Verificar regularmente se há movimentações suspeitas em seu nome é parte essencial da proteção”, afirma Briedis.
Um pacto necessário
A banalização da biometria no Brasil é um reflexo de uma tendência global — mas sua aplicação indiscriminada, sem controle social, sem transparência e sem alternativas, transforma uma promessa de segurança em uma armadilha permanente. Como lembrou a filósofa Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância (2019), “o que está em jogo não é apenas a privacidade, mas o próprio direito à autonomia sobre o nosso corpo e nossas escolhas”.
É urgente um pacto entre sociedade, empresas e Estado para que a biometria — ferramenta poderosa — não se torne instrumento de opressão digital ou facilitadora do crime. Isso inclui responsabilizar empresas por falhas, exigir padrões claros de segurança e criar mecanismos de auditabilidade e consentimento real. Porque, ao contrário da senha, a biometria é para sempre — e os danos também podem ser.
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