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Brasil

FMI mostra que a economia vai bem, embora isso não possa ser dito

Elites vendem o caos — não por falta de dados, mas por excesso de ideologia

Publicado em 17/07/2025 11:17 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Apesar do reconhecimento internacional ao desempenho da economia brasileira, elites financeiras, setores da mídia e parte do mercado reagem com descrença — não por falta de dados, mas por excesso de ideologia.

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Quando o FMI elogia, mas o mercado chia, é hora de perguntar quem realmente teme o sucesso do Brasil. O recente relatório do Fundo Monetário Internacional, que elevou para 2,3% a projeção de crescimento da economia brasileira em 2025 e destacou avanços estruturais importantes, como a reforma tributária e o compromisso fiscal do governo federal, contrasta radicalmente com o tom apocalíptico que domina a cobertura econômica nos principais veículos de comunicação do país. O que está em disputa, claramente, não é a realidade — mas a narrativa.

Para além da manchete técnica, há um fenômeno político e ideológico em curso: quanto melhor o Brasil vai, mais se agrava o desconforto daqueles que, por décadas, moldaram o debate econômico a partir de dogmas neoliberais e de uma suposta superioridade moral do “mercado”. O incômodo é evidente — e histórico.

O relatório e seus dados: o que o FMI realmente disse

O documento divulgado pelo FMI não é um panfleto de otimismo, mas uma análise técnica e criteriosa. Ele reconhece que o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro superou as expectativas nos últimos três anos, mesmo com os desafios impostos pelo cenário global, pelas restrições fiscais e pelas tensões políticas internas. A previsão de crescimento de 2,3% em 2025 está em linha com as estimativas do Ministério da Fazenda (2,5%) e do Banco Central (2,1%). Até 2030, o crescimento potencial pode chegar a 2,5% ao ano.

Mais do que crescimento conjuntural, o relatório destaca melhoras estruturais: reformas tributárias em andamento, racionalização de gastos, aumento da eficiência fiscal e, sobretudo, a manutenção de uma política monetária crível. A inflação, que deve fechar 2025 em 5,2%, ainda está acima da meta, mas segue trajetória de queda, com projeção de 3% ao ano até 2027.

Esses dados deveriam, em tese, alimentar um ambiente de confiança e responsabilidade no debate público. No entanto, o que se vê é o oposto: desconfiança, ironias e previsões catastróficas — não do FMI, mas de parte da elite econômica e midiática brasileira.

A economia vai bem, mas isso “não pode” ser dito

Para compreender esse fenômeno, é preciso olhar além dos gráficos. A reação negativa a indicadores positivos não é apenas resultado de divergências técnicas. Ela está enraizada em estruturas de poder que, historicamente, associam crescimento com controle — e se opõem a qualquer protagonismo do Estado como indutor do desenvolvimento.

Desde o período Vargas, passando por Juscelino Kubitschek, João Goulart e, mais recentemente, os governos de Lula e Dilma Rousseff, o Brasil testemunha um padrão recorrente: sempre que o Estado intervém para distribuir renda, estimular a indústria, expandir políticas sociais ou ampliar a progressividade tributária, há uma imediata mobilização da elite para questionar a legitimidade desses avanços.

Como observou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, em entrevista à Folha de S.Paulo, “o Brasil é uma das poucas democracias ocidentais em que a elite econômica opera com aversão explícita à inclusão social”. Esse comportamento, mais do que uma escolha racional, é uma defesa do status quo. Em termos práticos: é preciso dizer que o Brasil vai mal, mesmo quando os números indicam o contrário, para manter viva a crença de que só o mercado sabe o que é melhor para o país.

O mercado como entidade mítica

A ideia de que o “mercado” pensa, sente, reage e se decepciona tornou-se um lugar-comum na cobertura econômica nacional. Essa entidade abstrata, formada por investidores, fundos, analistas e consultores, ganhou status quase divino nas últimas décadas, especialmente após o ciclo de privatizações dos anos 1990. Desde então, sua palavra — ou a versão que dela se publica — passou a definir os contornos do possível.

Entretanto, como demonstrou o economista Thomas Piketty em Capital e Ideologia (Harvard University Press, 2020), os mercados financeiros não são neutros nem objetivos. São arenas de disputa, atravessadas por interesses políticos, preconceitos sociais e projetos de poder. No Brasil, isso se torna ainda mais evidente quando a reação negativa ao crescimento se dá não por dúvidas sobre os dados, mas pela origem política das políticas públicas que os produziram.

Mídia econômica e a fabricação da dúvida

A imprensa tem papel central nessa construção. Os cadernos de economia, com raras exceções, atuam não como espaço de análise crítica, mas como caixas de ressonância dos interesses financeiros. Quando o FMI elogia o Brasil, o destaque vai para os “alertas” sobre inflação. Quando o PIB cresce, o foco passa para a “incerteza política”. É um jogo de deslocamento narrativo: o dado positivo nunca é suficiente para alterar o tom de preocupação permanente.

Essa estratégia remete ao conceito de “fabricação do consentimento”, desenvolvido por Edward S. Herman e Noam Chomsky em Manufacturing Consent (Pantheon Books, 1988). Segundo os autores, a mídia corporativa atua para moldar a opinião pública a partir dos interesses das elites econômicas, operando por meio da seleção e repetição de temas que reforçam determinados enquadramentos. No Brasil, o enquadramento é claro: qualquer sucesso do país que envolva protagonismo estatal ou justiça fiscal será retratado como risco à estabilidade.

O que está em jogo: o poder de definir a realidade

O desconforto com a melhora dos indicadores brasileiros não é um problema técnico, mas um conflito sobre quem tem o direito de definir o que é progresso econômico. Quando o governo Lula implementa uma reforma tributária que simplifica o sistema e aumenta a progressividade, isso desafia não só a tradição regressiva da estrutura fiscal brasileira, mas também o monopólio discursivo que o mercado mantém sobre o que é “responsabilidade fiscal”.

Não por acaso, o FMI recomenda justamente isso: ampliar a progressividade do sistema tributário e combater os gastos ineficientes com isenções. Isso vai ao encontro de propostas do atual governo, mas é apresentado na cobertura local como ameaça à “confiança dos investidores”.

Essa dissonância revela uma dimensão fundamental da disputa contemporânea: quem tem o poder de nomear os fatos? Quem decide se o Brasil está “indo bem” ou “indo mal”? Quando os dados internacionais dizem uma coisa e os editoriais dizem outra, estamos diante de mais do que uma diferença de interpretação — estamos diante de um conflito de paradigmas.

A narrativa como campo de batalha

A economia brasileira apresenta fundamentos sólidos, expectativas de crescimento moderado e sustentável, inflação sob controle e reformas em curso que recebem reconhecimento de organismos internacionais. No entanto, a reação negativa de setores do mercado e da mídia revela um fato incômodo: para parte da elite, a boa notícia só é bem-vinda se vier acompanhada da narrativa de que ela se deve à pressão do mercado — e não à ação de um governo popular eleito democraticamente.

Em vez de reconhecer os avanços, o que se busca é sabotá-los — não com dados, mas com versões. Como bem definiu o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “A crise não está na economia, mas na imaginação política do futuro.”

 E o futuro, no Brasil, parece ser um campo minado — não por falta de potencial, mas por excesso de interesses que se recusam a dividir o poder.

NÃO, VOCÊ NÃO É RICO


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