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Brasil

Execução de ex-delegado aponta alcance do PCC e omissão do Estado

Crime expõe força da facção criminosa nas finanças, nas instituições e nas ruas

Publicado em 16/09/2025 10:23 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Um Estado que abandona seus próprios agentes à própria sorte está, na prática, encorajando o crime. Foi o que aconteceu com Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, executado com tiros de fuzil no último dia 15, em plena avenida da Praia Grande, litoral paulista. Conhecido por ser o policial que mais conhecia o Primeiro Comando da Capital (PCC), Fontes foi perseguido e morto por criminosos que desceram de um veículo com armamento pesado. O crime tem todas as marcas de um recado — e parece ter sido entendido como tal pelas autoridades que tentam sufocar o braço financeiro da facção.

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A execução de Fontes ocorreu menos de um mês após vir a público a descoberta de operações do PCC na região da Faria Lima, o coração financeiro do país. Em investigação conduzida por uma força-tarefa da União e de oito estados, foi revelado que a facção usava bancos digitais e fintechs para lavar bilhões de reais. Segundo revelou o delator Vinicius Gritzbach ao Ministério Público em 2023 — poucos dias antes de ser fuzilado no aeroporto de Guarulhos — um operador do PCC se tornara sócio de um policial corrupto em uma dessas empresas financeiras. A simbiose entre o crime e o capital era mais do que simbólica: era operativa.

O assassinato de Fontes, portanto, está longe de ser um ato isolado. Como observou um dos membros da força-tarefa, sob condição de anonimato, trata-se de um “aviso”. E o destinatário da mensagem é claro: o Estado que ouse atravessar o caminho da facção terá resposta.

O ódio em banho-maria

A relação do PCC com Fontes remonta aos anos 2000, quando o delegado liderou o indiciamento de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e de outros líderes da organização. Fontes também foi responsável por denunciar a mulher de Marcola por lavagem de dinheiro — uma das primeiras ações que escancararam o uso de estruturas legais para movimentações ilícitas.

Desde então, passou a viver sob ameaça constante. Em 2010, um plano para matá-lo com fuzis na porta de uma delegacia em São Paulo foi interceptado por uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio do então tenente Guilherme Derrite — hoje secretário de Segurança Pública do Estado. Mas a ameaça nunca cessou. E, ao se aposentar em 2023, o delegado perdeu qualquer tipo de proteção institucional. “Depois da sua aposentadoria, ele passou a não ter nenhuma proteção do Estado”, lamentou o promotor Lincoln Gakiya, também jurado de morte pela facção. “Me parece que uma autoridade que dedicou mais de 40 anos ao combate ao crime organizado deveria ter uma proteção do Estado”, afirmou Gakiya em entrevista à GloboNews.

Violência como linguagem política

A morte do ex-delegado foi executada com frieza: ele dirigia sua Hilux SW4 quando foi perseguido até colidir com um ônibus. Os criminosos desceram e atiraram mais de 20 vezes, atingindo Fontes nos braços, pernas e abdômen. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que lamentou o atentado em nota oficial, o carro dos assassinos foi encontrado, mas até o momento nenhum suspeito foi preso.

A ousadia e o modus operandi remetem às execuções típicas de máfias consolidadas — e reforçam a tese de que o PCC deixou há tempos de ser apenas uma facção “de cadeia”. O grupo se apresenta hoje como uma organização de múltiplos tentáculos: atua com armamento de guerra nas periferias, mas também movimenta fortunas em operações financeiras sofisticadas.

Em “Irmãos: Uma História do PCC”, o jornalista e pesquisador Gabriel Feltran define a facção como uma “organização político-criminal” que assumiu funções sociais nas quebradas, ao mesmo tempo em que estruturou redes de corrupção, violência e financiamento. “O PCC é uma instituição de governança criminal que atua onde o Estado se omite”, escreve Feltran. Mas o caso Fontes mostra que, agora, a facção também atua onde o Estado se manifesta.

A face empresarial do crime

A atuação do PCC na Faria Lima não é mera curiosidade de roteiro. Representa o que estudiosos chamam de “financeirização do crime”: o uso de estruturas legais para a consolidação de poder econômico ilícito. Ao investir em fintechs, criptomoedas, transportadoras de valores e até empresas do agronegócio, a facção camufla o dinheiro do tráfico e diversifica seu portfólio — como uma multinacional qualquer. O Ministério Público já rastreou valores superiores a R$ 5 bilhões lavados por essas vias, segundo reportagens da Folha de S.Paulo e do UOL.

Essa dimensão do crime exige investigações complexas, cooperação internacional e proteção integral aos investigadores. No entanto, como mostrou o caso de Ruy Fontes, o Estado brasileiro ainda hesita em oferecer segurança mínima a seus próprios quadros — mesmo quando estão na linha de frente do enfrentamento ao crime organizado.

O abandono institucional

Fontes foi vítima de sucessivos episódios de violência após deixar o cargo. Em 2020, sofreu uma emboscada no Ipiranga. Em 2022, foi alvo de assalto na zona sul de São Paulo. Em 2023, já aposentado, foi abordado novamente na Praia Grande e relatou ao Estadão seu temor: “Combati esses caras durante tantos anos e agora os bandidos sabem onde moro. Minha família quer que eu deixe o emprego e saia de São Paulo.”

O Estado ignorou os alertas. Ignorou a biografia de um agente que dedicou quatro décadas ao combate ao crime — e foi executado em circunstâncias que expõem mais do que a violência da facção: escancaram a fraqueza institucional diante dela.

O PCC já está entre nós

A morte de Ruy Fontes não é apenas um atentado à sua vida — é uma afronta direta ao poder público. É o símbolo de uma infiltração mais profunda, mais perversa e mais preocupante: a de uma organização criminosa que já se instalou nas finanças, nos negócios, nas forças de segurança e, cada vez mais, na estrutura social brasileira.

E enquanto o Estado hesitar em proteger seus próprios agentes — e em nomear o inimigo pelo nome — continuará sendo cúmplice da barbárie que diz combater.

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