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Brasil

EUA preparam classificação de PCC e CV como organizações terroristas

Soberania em risco: medida pode abrir caminho para intervenções militares em solo brasileiro

Publicado em 09/03/2026 9:52 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O governo dos Estados Unidos está prestes a formalizar a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras. A avaliação técnica que embasa a medida já foi concluída pelas equipes especializadas de Washington e aguarda apenas uma decisão política final — que, segundo diplomatas ouvidos pela reportagem, deve ocorrer nos próximos dias e dificilmente será revertida.

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Caso a classificação seja confirmada, as consequências vão além de sanções financeiras e restrições jurídicas. A designação também poderia transformar estruturas e operações dessas facções em alvos considerados legítimos para ações militares norte-americanas, inclusive fora do território dos Estados Unidos.

A informação foi revelada inicialmente pelo portal UOL e confirmada por fontes diplomáticas ao ICL Notícias. O Palácio do Planalto já havia sido alertado sobre a possibilidade e, diante do risco iminente, passou a buscar canais para reabrir o diálogo com Washington.

Facções brasileiras na mesma lista de cartéis latino-americanos

Se incluídos na relação, PCC e CV passariam a integrar um grupo que já reúne organizações criminosas da América Latina classificadas como terroristas pelos EUA. Entre elas estão o Cartel de Sinaloa, o Cartel Jalisco Nova Geração, o Cartel do Golfo e os Los Zetas, no México; o Clã do Golfo, na Colômbia; a coalizão G9 e Família, no Haiti; e a facção equatoriana Los Choneros.

A eventual inclusão das facções brasileiras ampliaria o escopo da política norte-americana de combate ao narcotráfico, que nos últimos anos vem adotando uma abordagem cada vez mais militarizada na região.

Impacto político e risco para a relação Lula-Trump

A decisão também pode afetar a tentativa de aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O combate ao crime organizado vinha sendo tratado como um dos eixos centrais de uma possível reunião entre os dois líderes, cogitada para ocorrer entre março e abril.

No governo brasileiro, havia a expectativa de reduzir a pressão americana com a proposta de um programa conjunto de cooperação contra o crime organizado. Uma eventual classificação unilateral, porém, ameaça comprometer esse esforço diplomático.

Além da dimensão de segurança, diplomatas brasileiros avaliam que o tema tem sido instrumentalizado politicamente. A proposta de enquadrar as facções brasileiras como organizações terroristas tem sido defendida por setores do bolsonarismo, que buscam ampliar a pressão internacional sobre o governo federal.

Atuação de aliados de Bolsonaro

De acordo com apuração do UOL, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro teria solicitado pessoalmente aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele, apoio para impulsionar a designação junto ao governo Trump.

Já o senador Flávio Bolsonaro chegou a defender publicamente a possibilidade de uma ação americana em território brasileiro. Em 2025, ele recebeu uma delegação norte-americana para discutir o tema e manifestou apoio à classificação das facções como organizações terroristas.

No mesmo período, um dossiê sobre a atuação do PCC e do CV teria sido elaborado pelo governo do Rio de Janeiro, comandado por Cláudio Castro, e encaminhado à Casa Branca. Dentro do governo federal também existe a suspeita de que informações adicionais possam ter sido repassadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, atualmente nos Estados Unidos.

Resistência do governo brasileiro

A Polícia Federal confirmou ao ICL Notícias que, em 2025, recusou receber uma delegação do Departamento de Estado que pretendia convencer o Brasil a adotar a mesma classificação de terrorismo para as facções. O grupo acabou sendo recebido pelo Ministério da Justiça e pelo Itamaraty, que reiteraram a posição brasileira contrária à medida.

A avaliação do governo Lula é de que PCC e CV não se enquadram na definição internacional de terrorismo, já que não possuem motivação política ou ideológica, mas atuam essencialmente com fins lucrativos ligados ao narcotráfico e a outras atividades ilícitas.

Relatórios americanos e expansão do PCC

Relatórios do Departamento de Estado obtidos pela reportagem apontam que o PCC ampliou sua presença internacional e intensificou operações em países como a Bolívia, ao lado de cartéis mexicanos e colombianos.

Segundo o documento, essas organizações representam novos desafios para o controle do narcotráfico na região. O texto também afirma que o PCC constitui a principal ameaça à segurança nacional do Brasil, citando dados da Polícia Federal que indicam a atuação da facção em 22 dos 27 estados brasileiros e em ao menos 16 países, incluindo os Estados Unidos.

Temor de ações militares

Entre autoridades brasileiras, a maior preocupação é que a designação abra caminho para intervenções militares sob a justificativa de combate ao terrorismo.

Nos últimos anos, Washington tem adotado operações desse tipo na região. Após classificar grupos colombianos como terroristas, por exemplo, o governo Trump intensificou ataques contra embarcações suspeitas na costa da Colômbia. Operações semelhantes também foram realizadas no México e no Equador, oficialmente descritas como ações conjuntas com os governos locais.

Recentemente, Trump anunciou ainda a criação de uma “aliança” militar com países latino-americanos para enfrentar o narcotráfico. Em discurso, afirmou que pretende aplicar contra essas organizações a mesma estratégia utilizada pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico — incluindo ataques em território estrangeiro.

Soberania em jogo

Para Brasília, o principal risco é que a classificação de PCC e CV como organizações terroristas abra brechas para operações unilaterais dos Estados Unidos em território brasileiro ou em áreas próximas.

Apesar da tensão, os dois países seguem negociando um acordo de cooperação para combater o crime organizado. Após a suspensão de tarifas comerciais por decisão da Suprema Corte norte-americana, o tema passou a ocupar o centro da agenda bilateral.

Em dezembro, Lula telefonou para Trump propondo ampliar o compartilhamento de inteligência, especialmente para rastrear e bloquear esquemas de lavagem de dinheiro ligados às facções em território americano. Entre os exemplos citados pelo presidente brasileiro estavam operações imobiliárias na Flórida usadas para ocultar recursos ilícitos.

As negociações continuam abertas — mas, nos bastidores da diplomacia, cresce a percepção de que a eventual classificação das facções como terroristas pode transformar a cooperação em um novo foco de tensão entre Brasília e Washington.

DE CABO A RABO


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