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Brasil

EUA aceitam negociar com Brasil, mas alegam “segurança nacional”

Maioria da população apoia Lula na condução da crise, mas teme impacto econômico

Publicado em 20/08/2025 10:50 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Os Estados Unidos aceitaram dialogar com o Brasil sobre o tarifaço de 50% imposto por Donald Trump, mas já sinalizaram que parte das medidas não será passível de revisão por envolver “segurança nacional”. A crise ganha contornos políticos e econômicos, com impacto direto na popularidade do governo e no custo de vida do brasileiro.

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Em carta enviada à Organização Mundial do Comércio (OMC) e publicada no site da entidade em 15 de agosto, a delegação dos EUA respondeu positivamente ao pedido de consultas feito pelo governo brasileiro no início do mês. O Brasil acionou oficialmente o mecanismo de resolução de disputas da OMC, após a imposição unilateral de tarifas sobre diversos produtos nacionais — entre eles carne, café e aço — por decisão direta do presidente Donald Trump.

“Estamos à disposição para acordar com os funcionários da missão de seu país uma data mutuamente conveniente”, diz o documento enviado por Washington. Ao mesmo tempo, porém, os americanos afirmam que “algumas das ações mencionadas pelo Brasil constituem questões de segurança nacional que não podem ser objeto de resolução” no âmbito da OMC.

A declaração expõe os limites da negociação. O mecanismo de consultas da organização é a primeira etapa formal de resolução de disputas, permitindo que os países tentem uma solução diplomática antes do início de um processo arbitral.

Trump liga tarifas a julgamento de Bolsonaro

As tarifas, entre as mais altas impostas atualmente pelos EUA a qualquer parceiro comercial, foram justificadas por Trump como resposta a uma “ameaça incomum e extraordinária” representada pelas ações do governo brasileiro. Em declarações recentes, o republicano acusou o Brasil de manter “práticas comerciais desleais” e de promover “ataques” a empresas americanas de tecnologia — uma referência indireta a redes sociais banidas de plataformas por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Trump também vinculou as tarifas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo, acusado de tentativa de golpe de Estado. Segundo o magnata, as investigações contra Bolsonaro configuram uma “caça às bruxas” conduzida pelo governo Lula.

Essa politização da política comercial é vista com preocupação por analistas internacionais. Para o economista e ex-diretor da OMC, Ricardo Meléndez-Ortiz, “o uso do argumento de segurança nacional como escudo para medidas protecionistas tende a fragilizar o sistema multilateral e gera efeitos colaterais nas cadeias globais”.

Apoio popular a Lula, rejeição a Trump e Eduardo Bolsonaro

Apesar da gravidade da crise, a maioria da população brasileira apoia a postura adotada por Lula no enfrentamento ao tarifaço. Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (20), 71% dos brasileiros consideram que Trump está errado ao impor as tarifas, e apenas 28% veem legitimidade na justificativa de perseguição a Bolsonaro.

No embate direto entre os dois ex-presidentes, 48% dos entrevistados dizem que Lula e o PT estão agindo da forma mais correta, contra 28% que preferem a posição de Bolsonaro e seus aliados. Outros 15% não confiam em nenhum dos lados.

A percepção pública também é clara sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos buscando apoio político para contestar as investigações contra seu pai. Para 69% da população, o deputado atua em benefício próprio e de sua família, enquanto apenas 23% o enxergam como representante legítimo dos interesses nacionais.

A carta de Trump enviada a Lula, tornada pública em julho, ganhou ampla repercussão: 84% dos brasileiros afirmam ter conhecimento do conteúdo, frente a 60% no mês anterior. O episódio, portanto, transbordou os círculos diplomáticos e se converteu em tema recorrente no debate público.

Impacto econômico pressiona o governo por solução

Embora haja apoio majoritário à postura do Planalto, cresce a preocupação com os efeitos econômicos da crise comercial. De acordo com a Quaest, 77% dos brasileiros acreditam que serão prejudicados pelas tarifas, e 64% temem alta nos preços dos alimentos — uma consequência direta da realocação da produção nacional para o mercado interno, após a perda de competitividade no mercado americano.

Com isso, o episódio assume dimensão prática na vida cotidiana da população, especialmente entre os mais pobres, já afetados pelo custo elevado da cesta básica. Vale lembrar que, no final de 2024, 83% dos brasileiros diziam sentir alta nos preços dos alimentos — número que caiu para 60% em agosto de 2025, segundo a mesma série histórica da Quaest. O risco, agora, é uma reversão dessa tendência.

Negociação ou retaliação? Opinião pública é cautelosa

Apesar da indignação com a medida americana, a maioria da população brasileira prefere o caminho diplomático: 67% defendem a negociação com os EUA, contra 28% que apoiam retaliações com tarifas sobre produtos americanos.

A expectativa, no entanto, é cautelosa. Apenas 48% acreditam que Lula conseguirá fechar um acordo satisfatório, enquanto 45% acham improvável que os Estados Unidos recuem. O índice de confiança da pesquisa é de 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Superávit americano e desequilíbrio comercial

A crise expõe uma ironia do comércio bilateral: os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil, ou seja, vendem mais do que compram. Diferente do padrão com outros países alvo de tarifas punitivas — como China, México ou União Europeia —, a balança favorece Washington.

Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o superávit americano com o Brasil foi de US$ 7,4 bilhões em 2024, puxado pela exportação de insumos industriais, defensivos agrícolas e bens de capital.

Com as novas tarifas, há risco de ruptura em cadeias logísticas e de encarecimento de produtos no mercado interno, afetando, inclusive, empresas brasileiras que operam com insumos americanos.

Diplomacia forçada e urgência econômica

O aceite americano ao pedido de consultas não é, por si só, uma concessão — mas sim uma etapa protocolar no tabuleiro da OMC. O impasse permanece, e a justificativa de “segurança nacional” serve como barreira para rever as tarifas mais sensíveis.

Na prática, o governo brasileiro tem pouco tempo para traduzir o apoio popular em soluções concretas que impeçam novo ciclo inflacionário. A diplomacia é o único caminho viável, mas sua eficácia dependerá menos da retórica nacionalista e mais da habilidade técnica para reconstruir pontes com o governo mais imprevisível do mundo.

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