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Brasil
80% dos trabalhadores com deficiência apontam problemas
Publicado em 04/02/2025 2:17 - Semana On
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Uma barreira invisível, mas amplamente sentida, separa pessoas com deficiência ou neurodivergência do pleno exercício profissional no Brasil. Segundo a pesquisa “Radar da Inclusão: mapeando a empregabilidade de Pessoas com Deficiência”, oito em cada dez trabalhadores desse grupo avaliam que a maioria das empresas não está preparada para integrá-los de forma adequada. O estudo foi realizado pelo Pacto Global, uma iniciativa da ONU, em parceria com Talento Incluir, Instituto Locomotiva e iO Diversidade.
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O levantamento entrevistou 1.230 pessoas com 18 anos ou mais entre os dias 20 de outubro e 3 de novembro de 2024. Os dados revelam um cenário preocupante: um terço dos respondentes (33%) afirma que seus ambientes de trabalho não possuem adaptações necessárias. Para muitos, a escolha de trabalhar remotamente ou em modelo híbrido não é apenas preferência, mas uma questão de sobrevivência profissional — 71% dos entrevistados disseram optar por essa modalidade, embora apenas 58% já a tenham adotado.
Obstáculos concretos e simbólicos
A falta de adaptações adequadas nas empresas muitas vezes não se restringe a questões estruturais, como rampas ou banheiros acessíveis, mas também envolve aspectos psicológicos e culturais. Nas redes sociais, um advogado cadeirante relatou o episódio em que foi dispensado após ser selecionado para uma vaga de trabalho, pois sua cadeira de rodas não passava pela porta do banheiro da empresa. “Meu currículo era ideal, mas o espaço físico me descartou”, desabafou.
Além disso, a pesquisa mostra que praticamente todos os participantes revelam sua condição de deficiência ou neurodivergência durante os processos seletivos. No entanto, especialistas sugerem que a relutância de alguns em se identificar pode estar associada ao medo de rejeição ou à falta de diagnóstico formal.
Diagnósticos e preconceitos velados
As neurodivergências, que incluem condições como Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e transtorno bipolar, ainda são mal compreendidas. Quem vive com TDAH, por exemplo, é frequentemente rotulado como desinteressado ou improdutivo, quando na verdade possui um perfil de atenção diferenciado, que pode ser altamente produtivo se compreendido e respeitado.
Leis existem, mas não transformam realidades
Embora o Brasil tenha implementado uma política em 1991 para promover a inclusão de pessoas com deficiência nas empresas, os avanços práticos são limitados. A Lei de Cotas, que exige que empresas com mais de 100 funcionários reservem de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência, esbarra na falta de compromisso e em práticas empresariais que ainda relegam essas pessoas aos cargos de base.
“A maioria entra na base da pirâmide e permanece lá por décadas”, afirma Lia Calder, diretora da 4CO e professora na área de diversidade e inclusão. “Isso reflete um problema estrutural de falta de investimento no desenvolvimento dessas pessoas.” Segundo ela, o empresariado brasileiro prefere enfrentar processos judiciais decorrentes de denúncias ao Ministério Público do Trabalho a fazer as adaptações necessárias.
Calder também critica a naturalização da exclusão. “Quando vamos a um ambiente de trabalho e ele não é acessível, a sociedade simplesmente aceita isso como normal. Isso perpetua uma exclusão aterrorizante e silenciosa dentro das organizações.”
Discrepâncias evidentes
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam a gravidade do problema. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2023 mostrou que apenas 26,6% das pessoas com deficiência estão empregadas, em contraste com 60,7% das pessoas sem deficiência. Entre os trabalhadores com deficiência, 55% estão em situação de informalidade, sem garantias trabalhistas.
Além disso, a desigualdade salarial é notável: o rendimento médio das pessoas com deficiência é de R$ 1.860, enquanto os trabalhadores sem deficiência ganham, em média, R$ 2.690 — uma diferença de 30%.
Responsabilidade coletiva
Em 2008, o Brasil incorporou à sua Constituição os princípios da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, mas o compromisso formal ainda não se traduziu em mudanças significativas. “A responsabilidade não é apenas das empresas, mas da sociedade como um todo”, afirma Calder. Ela destaca que a superação dessas barreiras exige uma mudança de mentalidade e ações concretas para garantir a inclusão plena.
Enquanto isso, pessoas como o advogado cadeirante continuam a esbarrar — física e simbolicamente — nas portas estreitas do mercado de trabalho brasileiro. E para muitos, o acesso ao que deveria ser um direito básico permanece um privilégio distante.
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