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Brasil

Em templo de SP, Universal recebe 700 PMs para ‘assistência espiritual’

O Estado é laico e o policial, como agente público, não deve vincular sua ação profissional a nenhuma religião

Publicado em 26/06/2023 10:47 - Chico Alves (UOL) – Edição Semana On

Divulgação IURD

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O templo da Igreja Universal do Reino de Deus localizado na avenida Brigadeiro Luís Antônio, zona oeste de São Paulo, recebeu na manhã do último dia 22 um público diferente do costumeiro. Cerca de 700 integrantes do 11º Batalhão da Polícia Militar de São Paulo ocuparam praticamente todos os assentos. O estacionamento ficou lotado de viaturas.

Além da solenidade de promoção e homenagens aos militares que se destacaram em suas funções, com entrega de medalhas, foi oferecida “assistência espiritual e valorativa” aos policiais, segundo a Universal informou no seu perfil do Instagram. Isso foi feito “através do momento de reflexão ministrado pelo pastor Roni Negreiros, que abordou temas atuais tendo como base na Palavra de Deus”.

A ação faz parte do programa Universal nas Forças Policiais (UFP), que tem como objetivo “prestar assistência espiritual, social e valorização humana aos integrantes das Forças de Segurança”. A controversa ligação entre a denominação religiosa e os PMs de várias regiões do país foi revelada pelos jornalistas Gilberto Nascimento e Tatiana Dias, em matéria publicada em maio, no site The Intercept.

Segundo a assessoria de imprensa da corporação, o evento “foi realizado num espaço pertencente à Igreja Universal, que voluntariamente cedeu o local para a ocasião”, mas “não existe qualquer convênio da instituição com a igreja ou qualquer outra entidade religiosa, esportiva ou municipal que eventualmente ofertam espaços para eventos”.

A PM alegou que esse tipo de utilização acontece quando é necessário “passar instruções a grupos maiores de policiais, que não são comportados em espaços pequenos, como foi o caso relatado”.

O texto enviado ao jornalista Chico Alves, do UOL, não cita a participação de um pastor para prestar “assistência espiritual” aos integrantes da tropa. O próprio canal de YouTube da UFP tem o depoimento em vídeo do coronel Robson Cabanas, identificado como responsável pelo Centro de Comunicação Social da PM. Na peça, ele fala da parceria do programa da Universal com a PM de São Paulo: “A UFP está sempre junto da Polícia Militar, seja nos momentos de alegria como de dor. A gente sempre tem a presença da Universal para consolar os familiares nesses momentos duros”.

O oficial diz que a Polícia Militar tem os mesmos valores cristãos, por zelar pelo “rebanho” e trazer a “paz na Terra”, sempre “inspirada pelo poder divino”.

A coluna perguntou à assessoria de imprensa da PM se alguma outra linha religiosa, como, por exemplo, a de matriz africana, teria espaço aberto para atuação semelhante. Até a publicação desse texto, essa questão não foi respondida.

José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, acha equivocado que as instituições militares e policiais oficializem esse relacionamento com uma modalidade de crença.

“Primeiro porque órgãos de Estado devem zelar pela condição de serem laicos. Segundo, não se pode obrigar policiais a ir ou assistir qualquer evento religioso, como dá a entender muitas das fotos”, diz Silva Filho.

“Sabidamente há policiais de outras crenças ou que não professam nenhuma crença e são constrangidos a participar, tendo seus direitos cerceados. Terceiro, as crenças estão cada vez mais politizadas e a própria divulgação de marketing que fazem indicam posicionamento político. E, quarto, policiais precisam de ambiente salutar de trabalho em suas organizações e assistência psicológica, constituída por instrumental científico”.

Para o especialista, a opção religiosa é individual, de forma que cada pessoa, policial ou não, escolha sua crença, “bem como o modo e momento de professá-la”.

O coronel da reserva da PM do Rio e antropólogo Robson Rodrigues também critica a iniciativa. “Nada contra as religiões em si, mas tem um princípio republicano que precisa ser observado: o Estado é laico. Então acho que é problemático misturar essas coisas”, afirma. “Por mais que haja esse esforço de um tratamento ecumênico, você não vê isonomia, o mesmo tratamento para religiões de matriz africanas ou orientais”.

Adailton Moreira, babalorixá do respeitado terreiro de candomblé Ilê Omijuarô, localizado em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, diz que esse tipo de abordagem não existe para os adeptos de religião afro. “O Estado é laico e quando está em serviço o policial é um agente público, independentemente de ser evangélico, católico ou do candomblé”, diz Moreira. “Há espaços adequados para cada um professar sua religião”.

A Igreja Universal tem ligação direta com o partido Republicanos, o próprio presidente da legenda é bispo dessa denominação religiosa. O governador de São Paulo, que comanda a Polícia Militar, pertence à legenda.

Reuniões de tropas na Igreja Universal são frequentes, diz ex-PM de SP

Não é algo raro que policiais militares de São Paulo se reúnam em templos da Igreja Universal. “Saí da academia de soldados em 2015 e desde o início fui convocado para eventos desse tipo”, contou à coluna o ex-PM Leandro Prior, que ficou na corporação até 2021. Ele pediu exoneração ao denunciar perseguição de superiores por ser homossexual.

“É algo constrangedor, porque contempla as pessoas de uma religião e as outras têm que ficar em silêncio”, observa ele, que é coordenador da Setorial Estadual de Segurança Pública do PT/SP.

Para o ex-soldado, o pretexto de que os templos são usados pela PM apenas porque comportam um número maior de pessoas não convence, já que a corporação chegou a ocupar outros espaços, que nunca mais voltaram a receber essas reuniões.

“O verdadeiro objetivo é criar um laço entre a corporação, seus membros e aquele local (os templos)”, acredita Prior, que atualmente trabalha na Assembleia Legislativa de São Paulo como assessor da deputada Professora Bebel (PT).

Nessa entrevista, ele fala sobre os riscos dessa perigosa simbiose entre a Polícia Militar e a Igreja Universal.

Eram frequentes convocações para reuniões em templos da Igreja Universal, quando vocês estava na PM de São Paulo?

Saí da academia de soldados em 2015 e desde o início fui convocado para eventos desse tipo. Era algo costumeiro, os pretextos são premiações com medalhas, informes. O verdadeiro objetivo é criar um laço entre a corporação, seus membros e aquele local (os templos). Isso ficou mais do que notório desde o começo entre os soldados, cabos e sargentos que eram convocados e obrigados a ir.

Muitas vezes essas reuniões eram feitas até em dias de folga. Não era nada voluntário, já que tinha lista de presença.

Eram eventos puramente militares ou tinha também o cunho religioso?

Tinha, sim, falas religiosas, tinha a presença das autoridades religiosas da Universal. Não era um ato ecumênico, não havia padre católico, representantes judaicos ou do candomblé.

Era um misto de solenidade militar com fala religiosa. Um pastor fazia citações bíblicas, chamavam todos a orar. Diziam que quem não era daquela religião poderia permanecer em silêncio. Eu, por exemplo, sou do candomblé. É algo constrangedor, porque contempla as pessoas de uma religião e as outras têm que ficar em silêncio. Imagine se fosse o contrário, evangélicos obrigados a ir a um terreiro?

Ou seja, era um encontro especificamente direcionado à Universal. É um trabalho que eles desenvolvem há muito tempo, de cunho religioso, político e eleitoreiro, que agora fica muito mais claro, já que o atual governador é do partido comandado pela Igreja Universal (Republicanos).

Que tipo de comentários os seus colegas policiais faziam sobre essa situação?

Falavam em abuso de autoridade, que eram indiretamente forçados. Não tinha nada a ver com policiamento. Muitos ficavam no celular, esperando o tempo passar. Diziam que essas reuniões poderiam ser feitas em outros espaços.

À coluna, a PM alegou que usa os templos porque outros espaços não comportam um grande número de soldados. O que acha dessa explicação?

Isso não convence. Já houve reuniões dentro da Uninove (universidade privada de Sâo Paulo), já houve dentro da Sala São Paulo. Mas agora está restrito somente a esse tipo de espaço religioso.

Na sua opinião, quais os grandes riscos dessa parceria da polícia com uma denominação religiosa?

O primeiro risco é que nós sabemos que a PM hoje tem grande número de suicídios e de transtornos mentais adquiridos, estresse pós-traumático. Então, existe a oportunidade de [a religião] abraçar aquele que está fragilizado. Mas é completamente absurdo e grotesco utilizar essa iniciativa para cooptar policiais para a sua religião e assim obter lucro, convencendo essas pessoas a dar parte do salário dele para instituição religiosa.

O segundo risco é que tinha uma lista de presença da instituição religiosa e não da instituição policial, com contatos de WhatsApp, relação de e-mails, nome completo. Ninguém sabe se as informações eram repassadas ou não para a Universal. Esses dados podem ser trabalhados para fins religiosos, para fins políticos e partidários, uma vez que a própria igreja tem um partido para chamar de seu.

O terceiro risco é o policial criar vínculo ainda que forçado com a instituição. No momento da “necessidade” esse vínculo seria acionado, o policial sempre há de estar ao lado deles.

O fato de o governador Tarcísio de Freitas ser do Republicanos, partido ligado à Universal, torna tudo isso mais grave, não?

Os policiais podem acabar cooptados por uma vertente religiosa, podem acabar dando ressonância aos ideais do partido e da religião. Por exemplo, em uma manifestação a favor da descriminalização da maconha, descriminalização do aborto e outras pautas progressistas, os PMs podem agir de modo mais contundente porque estão em alinhamento com a Universal e também alinhamento partidário com a legenda do governador.

A assessoria de imprensa da PM-SP informou que o evento do último dia 22 “foi realizado num espaço pertencente à Igreja Universal, que voluntariamente cedeu o local para a ocasião”, mas “não existe qualquer convênio da instituição com a igreja ou qualquer outra entidade religiosa, esportiva ou municipal que eventualmente ofertam espaços para eventos”.

A PM alegou, na ocasião, que esse tipo de utilização acontece quando é necessário “passar instruções a grupos maiores de policiais, que não são comportados em espaços pequenos, como foi o caso relatado”.


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