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Brasil

Em meio a tarifaço, EUA cobiçam minerais críticos do Brasil

O que são terras raras e por que elas são tão importantes

Publicado em 28/07/2025 11:21 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Diante da crescente dependência dos Estados Unidos em relação à China para o fornecimento de minerais estratégicos, o governo norte-americano intensificou sua ofensiva diplomática sobre o Brasil, detentor de algumas das maiores reservas do mundo desses recursos. Em reunião realizada na última quinta-feira (24), o encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, propôs uma cooperação bilateral com representantes do setor de mineração, membros do governo e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), com foco na exploração de elementos essenciais à transição energética, à produção de semicondutores e ao setor de defesa.

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O encontro ocorre em um momento de tensão crescente entre os dois países: a partir de 1º de agosto, entra em vigor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros imposta pelo governo de Donald Trump, sob o argumento de que o sistema de Justiça brasileiro estaria promovendo uma perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — atualmente réu por tentativa de golpe contra a democracia. Embora fontes próximas às negociações neguem qualquer vínculo direto entre a questão tarifária e a exploração mineral, o contexto político e estratégico levanta dúvidas inevitáveis.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu de forma direta: “Aqui ninguém põe a mão”, declarou, em recado claro contra qualquer tentativa de ingerência externa sobre a soberania brasileira no uso de seus recursos naturais.

A nova corrida por minerais estratégicos

A movimentação dos EUA se insere em uma reconfiguração global do fornecimento de minerais críticos, marcada por um reposicionamento geopolítico que envolve a segurança energética, a soberania tecnológica e a disputa por hegemonia industrial. Minerais como nióbio, terras raras, níquel, grafite, lítio, cobre e cobalto são considerados hoje tão estratégicos quanto o petróleo foi no século XX.

A definição de “minerais críticos” envolve não apenas seu valor econômico, mas sua escassez, a complexidade de substituição e a concentração geográfica da produção — atualmente dominada pela China, que controla o refino de até 90% de alguns desses elementos. Em abril, Pequim impôs restrições à exportação de sete tipos de terras raras, obrigando governos e indústrias a buscar novos fornecedores.

É nesse cenário que o Brasil se torna alvo de interesse renovado. Com cerca de 98% das reservas mundiais de nióbio, além de depósitos significativos de terras raras — um grupo de 17 elementos químicos indispensáveis para tecnologias modernas — o país desponta como um dos principais trunfos para quem busca autonomia frente à cadeia de suprimentos chinesa.

As terras raras, por exemplo, são insubstituíveis na produção de ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de defesa e até mesmo em armamentos de alta precisão. “Eles são a espinha dorsal das tecnologias emergentes e da indústria de defesa”, observou em relatório o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Uma política mineral sob disputa

A reunião em Brasília também tratou da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, projeto em tramitação no Congresso brasileiro que visa definir diretrizes para o aproveitamento desses recursos. Na prática, a política pode abrir caminho para maior internacionalização da exploração mineral, algo que preocupa setores da sociedade civil e especialistas em soberania nacional.

Embora não haja evidências de que a proposta norte-americana condicione o alívio das tarifas ao acesso a minerais brasileiros, os antecedentes jogam luz sobre a estratégia de Washington. Em abril, os EUA assinaram com a Ucrânia um acordo para a exploração de terras raras sob ocupação russa, em troca da continuidade da assistência militar. O então candidato republicano Donald Trump chegou a afirmar que o apoio a Kiev estaria condicionado ao acesso norte-americano às jazidas ucranianas, um gesto que escancarou a fusão entre interesses estratégicos e diplomacia coercitiva.

América Latina no xadrez global

O caso brasileiro não é isolado. Países como Groenlândia e Ucrânia, apesar do difícil acesso às suas reservas, também estão no radar de Washington e da União Europeia. O que está em disputa, na prática, é a redefinição de cadeias produtivas críticas em tempos de transição energética e desglobalização estratégica.

Segundo o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “a América Latina vive uma nova forma de colonialismo, marcada não mais pela ocupação militar, mas pela apropriação seletiva de recursos estratégicos sob a justificativa da modernização verde” (Fonte: Carta Maior, 2021).

Nesse contexto, a posição brasileira de manter o controle soberano sobre seus recursos aparece como contrapeso importante à lógica de “segurança nacional” que tem pautado as potências ocidentais. Para o Brasil, a questão vai além da economia: trata-se de decidir, com autonomia, como usar sua riqueza mineral no enfrentamento das desigualdades internas e no fortalecimento de uma política ambiental sustentável.

Soberania, sim; isolamento, não

Ainda que a resposta de Lula tenha sido firme, o Brasil enfrenta o desafio de equilibrar a proteção de sua soberania com a necessidade de se inserir estrategicamente na nova economia verde. A busca por parceiros dispostos a investir com respeito à legislação ambiental, aos direitos dos povos tradicionais e ao interesse nacional será determinante.

Nesse sentido, a transparência nas negociações e o fortalecimento de instrumentos regulatórios internos são fundamentais. Como alerta a professora Larissa Bombardi, da USP: “Não basta ter recursos naturais. É preciso ter um projeto de país que defina para quem esses recursos serão explorados — e a que custo”.

O Brasil está no centro de um jogo geopolítico de grandes proporções. Se souber jogar com inteligência, poderá transformar sua riqueza mineral em vetor de desenvolvimento soberano e sustentável. Se ceder às pressões externas, corre o risco de repetir os erros de um passado extrativista que alimentou potências e deixou cicatrizes profundas no território e no povo.

O que são terras raras e por que elas são tão importantes

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com um papel pequeno, porém insubstituível, em diversos produtos tecnológicos modernos: smartphones, televisores de tela plana, câmeras digitais e LEDs dependem todos delas.

Porém seu emprego mais importante é na fabricação de ímãs permanentes, de alta potência e que mantêm suas propriedades magnéticas por décadas. Eles permitem a produção de peças menores e mais leves do que as alternativas não baseadas em terras raras, sendo portanto essenciais na construção de veículos elétricos e turbinas eólicas.

Os elementos de terras raras (ETR) são também vitais para uma grande gama de tecnologias de defesa, de aviões de caça a submarinos e telêmetros a laser. Essa importância estratégica, tanto para o comércio como para a defesa, é o que os torna tão valiosos. O quilo de neodímio e praseodímio, os ETRs mais importantes para os ímãs permanentes, atualmente custa cerca de 55 euros (R$ 353); o de térbio, até 850 euros (R$ 5.460). Para efeito de comparação, o preço do quilo do nada raro minério de ferro custa atualmente cerca de R$ 0,60.

Com base em seu peso atômico, esses 17 minerais são categorizados como leves, médios e pesados. Na realidade, eles não são “raros”, pois estão presentes residualmente por todo o mundo. O desafio é identificar onde sua concentração é bastante grande para que a extração seja financeiramente viável. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), atualmente 70% das terras raras utilizadas provêm de minas da China.

A mais importante é Bayan Obo, no norte do país: contendo enormes quantidades de todos os elementos empregados em ímãs permanentes, essa fonte é várias ordens de grandeza maior do que os demais depósitos de terras raras do planeta, como Monte Weld, na Austrália, ou Kvanefjeld, na Groenlândia.

Monopólio chinês preocupa Ocidente

Depois de extraídos, os elementos de terras raras são submetidos a um processo altamente especializado de separação e refinação até transformar-se em compostos utilizáveis. Como esse processamento ocorre em grande parte na China, o país é também o maior produtor de ímãs.

Esse monopólio é ainda mais forte para certos tipos de ETRs. Os leves são menos valiosos e mais fáceis de extrair, com a exceção do neodímio e do praseodímio: entre 80% e 100% dos suprimentos da União Europeia desse grupo vêm da China; enquanto para os elementos mais pesados a dependência é de 100%.

Esse monopólio deixa diversos Estados ocidentais preocupados com o acesso futuro. Nos últimos anos, americanos e europeus reagiram com a formação de reservas internas de terras raras e outros materiais críticos.

Em 2024 a UE assinou a Lei de Matérias Primas Críticas, estabelecendo metas não vinculativas para o volume que o próprio bloco deverá ter produzido até o ano 2030. A legislação também prevê a designação de “projetos estratégicos”, tanto internos como com aliados próximos como a Noruega, visando garantir acesso a financiamento, aumentar a aceitação pública e agilizar aprovações e licenças.

Por sua vez, desde 2020 o Departamento de Defesa dos EUA vem investindo fortemente em companhias nacionais e tem como meta criar até 2027 uma cadeia de suprimento “da mina ao ímã”. Gálio, germânio e antimônio estão entre as terras raras mais importantes para o país.

A UE e os EUA expressam ainda interesse em fontes não exploradas desses minerais estratégicos. O presidente Donald Trump tem visado a Ucrânia e a Groenlândia: ambas apresentam potencial para grandes depósitos, porém de difícil acesso. Assim, o futuro do abastecimento de elementos de terras raras para os países ocidentais permanece incerto.

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