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Brasil
Pesquisa revela presença de substâncias psicoativas em metade das vítimas de homicídios, suicídios e acidentes
Publicado em 28/03/2025 8:55 - Semana On
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Metade das vítimas de mortes violentas consumiu substâncias psicoativas antes de morrer. A conclusão, impactante, é resultado de uma ampla pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que analisou 4.174 amostras de sangue coletadas post mortem entre fevereiro de 2022 e maio de 2024. O levantamento aponta uma correlação direta entre o uso de substâncias como cocaína, álcool e benzodiazepínicos e o aumento do risco de homicídios, suicídios e acidentes de trânsito — principais causas de morte violenta no país.
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O estudo faz parte do Projeto Tânatos, desenvolvido em convênio com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Os dados revelam que 50,1% das vítimas analisadas tinham pelo menos uma substância psicoativa no organismo. A cocaína apareceu em 26,7% das amostras; o álcool, em 26,2%; benzodiazepínicos, em 7,2%; e a cannabis, em 1,9%. Em diversos casos, mais de uma substância foi detectada.
O rosto da vítima: jovem, homem, pardo e morto no fim de semana
Entre os mortos analisados, 86% eram homens, com idade média de 33 anos. 72% eram pardos — um dado que reforça o recorte racial das violências no Brasil. A maior parte dos óbitos ocorreu à noite (51,6%) e nos fins de semana (36,3%), indicando padrões temporais de exposição ao risco, possivelmente ligados ao lazer e ao consumo recreativo de substâncias.
Esses números materializam o que estudiosos das ciências sociais vêm apontando há décadas: a juventude negra e periférica continua sendo a principal vítima de uma engrenagem de violência estruturada, na qual desigualdade, racismo, ausência de políticas públicas e acesso desregulado a drogas formam um ciclo letal.
Drogas e os riscos multiplicados
O detalhamento da pesquisa revela correlações contundentes entre tipo de substância e causa da morte. Usuários de cocaína apresentaram três vezes mais chances de morrer por homicídio. Já o consumo de álcool dobrou a probabilidade de mortes no trânsito. E os benzodiazepínicos — tranquilizantes como diazepam e clonazepam — quadruplicaram o risco de suicídio.
Nos casos de suicídio, 29,4% das vítimas haviam ingerido álcool, 21,2% cocaína e 20,3% benzodiazepínicos. Nos acidentes de trânsito, o álcool liderou com 38% das amostras, seguido de 9,9% com cocaína. Nos homicídios, 36% das vítimas testaram positivo para cocaína e 26,4% para álcool.
Esses dados reforçam um cenário onde as substâncias psicoativas não são apenas elementos secundários, mas catalisadores da violência. O pesquisador Henrique Silva Bombana, coordenador do projeto, enfatiza:
“A expectativa é que os resultados do Projeto Tânatos contribuam para a formulação de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração as especificidades sociais e culturais de cada região, com o objetivo de minimizar os impactos sociais, econômicos e sanitários associados à morbimortalidade decorrente do consumo de substâncias psicoativas.”
Entre a necropolítica e a negligência histórica
Não se trata apenas de números. O que está em jogo é a urgência de uma resposta política e institucional a um fenômeno que atravessa dimensões de saúde pública, segurança, desigualdade social e estrutura de poder. O conceito de necropolítica, proposto pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, é útil aqui: trata-se da forma como o Estado — por ação ou omissão — decide quem pode viver e quem deve morrer. No Brasil, jovens negros e pobres, moradores das periferias urbanas, continuam sendo os corpos sacrificáveis de um sistema que falha em garantir vida digna e políticas públicas eficazes.
A pesquisa da USP reforça que o enfrentamento à violência no Brasil precisa ir além do punitivismo. É urgente integrar políticas de redução de danos, educação para o uso consciente de substâncias, acesso a saúde mental e estratégias regionais adaptadas à realidade sociocultural local.
A história brasileira está repleta de projetos que fracassaram por desconsiderar essa complexidade. Como já alertava o sociólogo Gilberto Freyre, “a verdadeira democracia não é a do voto, mas a da oportunidade”. Enquanto essa oportunidade for negada a amplas parcelas da população, não há número de viaturas, armas ou prisões que impeça o avanço da violência.
Um país em luto e alerta
O Projeto Tânatos traz à luz dados valiosos, mas também dolorosos. Eles confirmam o que se vê nas periferias, nos hospitais e nos noticiários: a morte violenta no Brasil tem cor, gênero, idade — e, agora sabemos, muitas vezes, também tem substância. A ciência fez sua parte ao mapear o problema com rigor. Cabe agora ao Estado, à sociedade civil e à imprensa transformar esse diagnóstico em ação.
Se o país quiser, de fato, reduzir seus índices de violência, não poderá ignorar o papel das drogas — e muito menos, o contexto social em que elas são consumidas.
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