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Brasil

Do CV ao PCC, como opera o crime organizado no Brasil?

Como "narcoterrorismo" politiza a nossa segurança pública

Publicado em 30/10/2025 3:41 - DW

Divulgação

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Ao redor do Brasil e para além das fronteiras nacionais, 88 organizações criminosas realizam atividades ilícitas contínuas a fim de obter lucros, segundo relatório de Inteligência do Ministério de Justiça e Segurança Pública (MJSP). Quase todas elas têm presença tanto nas ruas quanto em presídios, poder financeiro e estruturas hierárquicas.

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Alvo da megaoperação que deixou dezenas de mortos na segunda-feira (28/10) no Rio de Janeiro — a mais letal já realizada no estado —, o Comando Vermelho (CV) é, junto com o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das duas maiores organizações criminosas do Brasil.

O grupo vem expandindo a sua atuação nos territórios fluminense, de onde é originário, e nacional, afirmam especialistas. De acordo com a imprensa carioca, o CV põe em prática nos últimos quatro anos um plano para expandir seu domínio, tomando, inclusive, áreas controladas por milicianos.

Facções espalhadas

Já não há estado brasileiro livre da influência do CV, do PCC ou de múltiplas outras organizações criminosas. Ao longo das últimas cinco décadas, elas se multiplicaram, ganharam capilaridade e forjaram alianças ou inimizades na disputa por território.

Hoje, o Nordeste é a região com o maior número de organizações criminosas conhecidas pelo MJSP — 46 foram mapeadas entre 2022 e 2024. Em seguida, aparecem as regiões Sul (24), Sudeste (18), Norte (14) e Centro-Oeste (10).

O crime organizado sobrevive sobretudo do tráfico de drogas, além do roubo de carga, latrocínio, fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e controle de territórios e serviços. Na Amazônia, PCC e CV estariam também ampliando seu envolvimento com o garimpo ilegal, incluindo em acampamentos dentro de terras indígenas.

Estruturadas em redes de facções, as organizações criminosas compartilham símbolos de pertencimento e, não raro, mantêm ideologias ou estatutos próprios. Também antagonizam diretamente contra o poder público — com a não obediência das leis e ações violentas contra agentes do Estado —, organizam resgates ou fugas de presos e promovem rebeliões em prisões.

Origem nas prisões

Após anos de expansão pelo território brasileiro, tanto CV quanto PCC têm membros espalhados em presídios de todos os estados, afirma o levantamento do governo federal, com exceção do Rio Grande do Sul. Na terra gaúcha, predominam as organizações Bala na Cara, formada em 2005, e Os Manos, cujos primeiros sinais datam dos anos 1980.

As primeiras facções surgiram dentro dos presídios nos anos 1970. Divididos em grupos, os presos então reivindicavam melhores condições das autoridades — incluindo o fim da tortura e dos maus-tratos —, garantiam proteção aos seus aliados, criavam regras de convivência e profissionalizavam o que, até então, era a atividade criminosa de grupos de menor porte.

Em 1979, emergiu a Falange Vermelha, que daria origem ao Comando Vermelho, no antigo presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande. O grupo se formou quando presos comuns e políticos, militantes de grupos armados contra a ditadura militar, passaram a conviver. Os anos seguintes seriam marcados pela ampliação do poder da então recém-nascida organização, movida pelo tráfico de cocaína.

Mais tarde, em 1993, nasceria o PCC na Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo — entre outros motivos, para evitar violências do Estado, tal como ocorrera no massacre do Carandiru, que deixara 111 mortos em 1992. Hoje, a maior organização criminosa do país conta com estimados 40 mil membros.

“Existia um discurso de organização e de proteção aos presos. Depois, esse discurso de proteção se estendeu até as periferias. E a proteção era contra a própria polícia”, explicou o cientista social Eduardo Armando Medina Dyna ao Jornal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sobre os primórdios do PCC.

Influência no exterior

Hoje inimigos — embora tenham sido aliados nos anos 2000 —, CV e PCC são as únicas organizações criminosas brasileiras que, no mapeamento do governo federal, têm influência no exterior, com destaque para a América do Sul. Dos outros 86 grupos, 72 atuam unicamente nos seus estados de origem, e 14 alcançam mais de um estado ou região dentro do Brasil.

De acordo com dados do Ministério Público de São Paulo obtidos em junho pelo portal g1, o PCC tem estimadamente mais de 2 mil membros em outros 28 países. A maioria deles atuaria dentro de prisões com recrutamento de novos membros, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas e armas.

Já O Globo afirmou neste ano que autoridades do governo estadual do Rio de Janeiro e dos Estados Unidos (EUA) costuravam um acordo para combater juntas o CV. A organização manteria laços com cartéis sul-americanos e mexicanos com penetração no território americano, reportou o jornal.

Redes fortes, tréguas frágeis

As duas maiores organizações criminosas do país chegaram a acordar um cessar-fogo em fevereiro deste ano, a fim de fortalecer suas atividades e armamentos. A trégua alarmou autoridades e colocou uma pausa a quase uma década de confrontos violentos, disputas por rotas de contrabando e tomadas de território, sobretudo no Norte e Nordeste, conforme explicam pesquisadores do Observatório de Segurança Pública.

Mas a paz durou apenas dois meses, fazendo retornar a guerra inicialmente deflagrada em 2016. À época, fora assassinado o narcotraficante Jorge Rafaat, conhecido como “rei do tráfico”, na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Provocada por uma emboscada cinematográfica, a sua morte foi considerada um marco da disputa, incluindo por PCC e CV, pelo controle de um importante corredor para o tráfico de drogas na América do Sul.

O Brasil registraria em 2017 um recorde anual de homicídios — mais de 65 mil, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) —, associado por especialistas aos confrontos entre PCC e CV. A marca nunca foi superada, com o registro mais recente sendo de 45 mil homicídios em 2023.

“Naquele momento, o PCC alcançava predomínio nas rotas utilizadas no Centro-Oeste brasileiro, empurrando a atuação do CV em direção ao Norte, onde intensificou o processo de alianças, conflitos e acomodações com facções e outros grupos de origem regional”, explica um relatório de 2023publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Desde então, ambas as organizações estariam investindo na internacionalização e fortalecendo novas rotas do tráfico de drogas, como a do rio Solimões, na tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil. Atuam ainda na área outros grupos de países vizinhos, incluindo dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Um estudo realizado por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos (EUA) estimou neste ano que o Brasil tenha entre 50 e 61 milhões de pessoas vivendo sob a governança de organizações criminosas. O número corresponde a aproximadamente um quarto da população do país e é o maior da América Latina, de acordo com os dados levantados pela pesquisa.

Megaoperação expõe disputa sobre gestão da segurança pública

A megaoperação contra o Comando Vermelho no Complexo do Alemão repete uma antiga fórmula de esgotar o combate ao crime organizado no enfrentamento a seu domínio territorial.

A investida expôs visões políticas distintas sobre a gestão da segurança pública no Brasil. O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, avaliou que a incursão foi um “sucesso” e afirmou que o estado está “sozinho na luta” contra o crime, já que, segundo ele, teve pedidos de apoio logístico, como o fornecimento de blindados, negados pelo governo federal em operações anteriores. À TV Globo, seu secretário de Segurança, Victor Santos, defendeu que o Rio vive um “estado de guerra”.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, rebateu. Ele argumenta que a pasta acatou pedidos feitos por Castro, mas que a responsabilidade pela segurança pública é “exclusiva dos governadores”, conforme prevê a Constituição Federal. “Combate à criminalidade, seja ela comum, seja ela organizada, se faz com planejamento, com inteligência, com coordenação das forças”, disse.

Após a operação, o Congresso se mobilizou para aprovar projetos voltados à segurança pública. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, diz que a Casa pauta “semanalmente” propostas deste tipo, a maioria voltada para o endurecimento de penas. Na última semana, por exemplo, aumentou a pena para homicídios de policiais e para crimes vinculados ao domínio territorial das cidades, prática conhecida como “novo cangaço”. A abordagem dos atores políticos, porém, mostra um impasse na gestão da segurança pública no Brasil.

Abordagem sistêmica

Para especialistas ouvidos pela DW, combater o crime organizado no Brasil e a violência no Rio de Janeiro exige uma abordagem sistêmica, que mire as cadeias produtivas como um todo. Isso porque as facções se fortalecem pela diversificação de sua atuação em outros mercados.

“O domínio territorial é gravíssimo, mas é uma parte da questão do crime organizado. A gente precisa ampliar a visão, entender que existem muitas cadeias produtivas que passam pelo domínio territorial, mas não se esgotam nele”, afirma Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.

“O Comando Vermelho tem conexão com mercados de produção de ouro, garimpo, uso da terra, pesca. Outros mercados criminais que têm conexão com mercado legal. No caso do PCC, o mercado de combustível. Não precisa de tanque na rua para fazer isso [combater estas atividades]”, pontua.

Para isso, o combate à violência precisa partir da ação integrada de outros órgãos, como a Receita Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), além da própria Polícia Federal, argumenta.

Para Ricardo, parte deste esforço exige o enfrentamento ao poder bélico das facções, colocando o tráfico de armas no centro do combate ao crime organizado. Levantamento do Sou da Paz mostra que as facções no Brasil recorrem cada vez mais às armas de fogo de estilo militar, como fuzis, submetralhadoras e metralhadoras.

Janaina Maldonado, socióloga e pesquisadora do Instituto de Estudos Latino Americanos do Instituto para Estudos Globais e Regionais (Giga), entende que isso leva à necessidade de operações centradas em integração e inteligência.

“Precisamos de operações que desestabilizem as redes de enriquecimento, favorecimento, e proteção vinculados aos grupos criminais”, argumenta. “Uma política alternativa de segurança pública precisa considerar a regulamentação desses mercados como forma de debilitar o crescimento e fortalecimento de grupos criminais.”

Governo aposta em PEC da Segurança e PL “antifacção”

Os projetos aprovados na Câmara até o momento, porém, têm caráter menos estrutural do que a principal aposta da União para combater a violência de forma integrada no Brasil, a PEC da Segurança, que voltou a ser defendida por membros do governo como saída para a falta de articulação entre atores políticos.

O Palácio do Planalto apresentou a PEC em abril. O objetivo é ampliar as atribuições da União sobre o combate à violência. Ela constitucionaliza o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), exige a execução de fundos de financiamento, amplia a autonomia das corregedorias e fortalece a integração de inteligência, diante da atuação de facções que ultrapassam fronteiras estaduais. Também dá mais poder à Polícia Rodoviária Federal e aos guardas municipais.

Na prática, a União passaria a coordenar um sistema nacional para padronizar a atuação das forças de segurança no território nacional, inclusive de policiais militares, civis e penais, segundo aponta a Agência Senado.

“A PEC tenta dar forma e normatividade ao conjunto de forças que hoje já atuam no país de maneira desintegrada e, por vezes, fora dos protocolos, como vimos no Rio de Janeiro ontem”, avalia Janaina Maldonado.

A proposta, porém, está parada no Congresso e enfrenta resistência de governos estaduais, entre eles o do próprio Rio de Janeiro, que veem na PEC uma tentativa de reduzir a autonomia dos estados.

Apesar de apresentar um desenho jurídico para a cooperação entre os entes federativos, a PEC não se traduz em uma política nacional de fato. À época de sua apresentação, Lewandowski assumiu que o projeto não seria a solução, mas “apenas uma tentativa de organizar o jogo”.

“O que a PEC não nos mostra, como demonstram pesquisas diversas é um conjunto de políticas públicas que rompa com a lógica bélica de combate ao crime organizado presente no Brasil há décadas, e, que como vimos ontem, fracassa a cada nova atualização. Não só fracassa, como aumenta sua letalidade e horror”, argumenta Maldonado.

Na última semana, Lewandowski também apresentou um projeto de lei “antifacção”, que estabelece um novo tipo penal, o de “organização criminosa qualificada”, endurecendo as penas para o crime quando há domínio territorial. Também amplia o poder do Ministério Público para abrir investigações e permite à Polícia criar empresas fictícias para investigações. O projeto ainda cria um banco nacional de dados de organizações criminosas.

Após a operação no Rio de Janeiro, um gabinete de crise foi montado no governo federal, que passou a considerar o PL prioritário.

O endurecimento de penas, porém, não leva a uma mudança radical da segurança pública no país, argumenta Maldonado. “As facções no Brasil nasceram, se fortaleceram e expandiram dentro e através do sistema prisional. Aumentar penas e criar novos tipos penais não rompe com essa lógica e está fadado à repetição do mesmo enquadramento dado ao problema da expansão das facções no país.”

GLOs e “narcoterrorismo” 

A aposta da oposição no Congresso é a de avançar com um PL que equipara as organizações criminosas a grupos terroristas. A proposta altera a Lei Antiterrorismo e aumentaria a pena de comandantes e líderes de facções.

Declarações de Cláudio Castro após a operação vão na esteira dessa perspectiva. Ele classificou a resposta dos criminosos, que usaram drones e bombas no confronto com policiais, como “narcoterrorismo”. O governador também apontou que a ação policial que avançou sobre o Complexo do Alemão em 2010, durante o segundo governo Lula, recebeu apoio de blindados da Marinha, algo que tem sido rechaçado pela atual gestão federal.

O argumento da União é que a ação exigiria uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que autoriza o emprego por decreto de tropas das Forças Armadas em situações excepcionais.

“A GLO é um dispositivo constitucional previsto, mas está condicionado à incapacidade dos estados de resolverem seus próprios problemas”, afirma Daniel Hirata, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador visitante da Sciences Po. “Do ponto de vista do governo federal, isso oferece muito mais riscos do que possibilidades de obter algum tipo de vantagem. O governo sabe que a polícia do Rio de Janeiro é extremamente violenta”, afirma.

Em 2010, a operação no Complexo do Alemão ficou marcada por imagens aéreas captadas pela TV Globo que mostravam dezenas de pessoas fugindo por uma estrada de terra. A investida fazia parte de um esforço de implementação das Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades no Rio de Janeiro. Apesar do avanço inicial do projeto, problemas estruturais dificultaram sua continuidade.

Como a DW mostrou, desde os anos 1990, todos os presidentes fizeram uso das Forças Armadas para conter violência no Rio de Janeiro, com resultados decepcionantes.

Intervenções pontuais mais amplas, a nível federal, também não apresentam resultados duradouros, diz Hirata. “As operações policiais são instrumentos, não são políticas públicas. Você atua de forma pontual, e não contínua. É diferente de ter planejamentos e metas”, afirma Hirata.

Este também foi um dos achados do Tribunal de Contas da União (TCU), que avaliou a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, em vigor entre fevereiro e dezembro de 2018.

Segundo a Corte, a “adoção desse instrumento tem baixa capacidade de geração de resultados de longo prazo”. Isso porque o interventor, em regra, deve ficar pelo menor período possível, diz o TCU, até cessar a causa que levou à decretação da medida interventiva. Na prática, a redução da criminalidade se registrou apenas durante a implementação da medida.

“A intervenção federal de 2018 foi um fracasso retumbante. O Exército não tem condições de coordenar as ações policiais, ele não exerce influência dessa maneira. Pela natureza da instituição, ela não é preparada para atuar no papel do policiamento”, defende Hirata.

Para os especialistas, a ação contra a violência no Brasil exige uma abordagem multifatorial, que não se restringe a ações pontuais sobre o território ou endurecimento de penas.

“Massacres como o de ontem não deveriam estar no horizonte de plausibilidade de um Estado democrático de Direito. Combater o crime organizado demanda investimento em inteligência, esclarecimento de homicídios, regulação de mercados ilegais, além, de uma atuação fundamental no rompimento das redes de infiltração e de conluio entre crime e política”, conclui Maldonado.

Como “narcoterrorismo” politiza segurança pública no Brasil

Narcoterroristas: foi assim que o governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL), definiu as facções criminosas que atuam no estado. Mais do que um adjetivo, a expressão carrega um rótulo político. Ao importar um termo popularizado por Donald Trump, o discurso transforma um problema de segurança pública em uma guerra moral e ideológica.

O termo “narcoterrismo” foi cunhado na década de 1980 pelo ex-presidente do Peru Fernando Belaúnde Terry para descrever o fenômeno da interseção entre narcotráfico e terrorismo no país.

A expressão funde duas categorias jurídicas distintas para justificar o uso de estratégias militares, deslocar responsabilidades do Estado e criar uma narrativa de “inimigo interno” que se encaixa no projeto de polarização política em curso, segundo especialistas, e que poderia, ainda, abrir caminhos para intervenções estrangeiras no país.

“A utilização desse termo, que tem sido intensificada nos últimos anos, nada mais é que uma parte de uma narrativa que escancara a total não eficiência, a deficiência das políticas públicas de segurança para lidar com os problemas que são problemas de segurança pública”, diz Pablo Nunes, cientista social e coordenador adjunto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

Para especialistas consultados pela DW, a definição dos suspeitos mortos na megaoperação policial que deixou mais de uma centena de mortos no Rio de Janeiro nesta terça-feira como “narcoterroristas” carrega forte mensagem política.

“Usam [o termo] para tentar uma coisa que chame muita atenção, porque as eleições estão aí, como se eles estivessem fazendo alguma coisa para melhorar essa realidade. Infelizmente no Brasil nem direita, nem esquerda, nem extrema direita, nem extrema esquerda conseguem entregar uma resposta efetiva para os problemas de segurança pública”, avalia Rafael Alcadipani, professor da FGV – EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Alcadipani acrescenta que a utilização do termo buscaria ainda mascarar a falta de resultados concretos do governador Cláudio Castro na área de segurança pública.

Alinhamento político

Além disso, o uso do termo revela também um alinhamento ideológico e político com os setores da extrema direita internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por exemplo, vem classificando como “narcoterroristas” os mortos em ataques feitos pelas Forças Armadas americanas a embarcações no Caribe – ações à margem da lei internacional.

Já o governo de Javier Milei, aliado de Trump na Argentina, anunciou a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) no Registro de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo (Repet), a lista oficial do governo que reúne organizações e indivíduos classificados como ameaças à segurança nacional.

“Os regimes de direita e extrema direita buscam combater o crime organizado com muita força. Em El Salvador, houve suspensão de direitos políticos e humanos, com punições muito duras contra suspeitos. E parte da sociedade acaba sendo influenciada por esse discurso, já que se ‘bandido bom é bandido morto’, quem vai matar melhor será o regime de força”, avalia José Niemeyer, cientista político e professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ.

Para Pablo Nunes, a ideia de ter terroristas ocupando um espaço nas cidades, contudo, é perigosa pois isso pode estigmatizar ainda mais a população que mora em comunidades, aumentando a violência política e policial contra essas pessoas.

“Nesse ponto transformar e mobilizar o conceito de narcoterrorismo é uma estratégia muito arriscada e perigosa, que pode fortalecer ainda mais essa ideia de que esses territórios são locais que precisam ser de certa maneira conquistados pelo Estado, que são territórios inimigos”, diz.

Sem lastro jurídico

Para além dos contornos políticos, há carência jurídica na classificação de traficantes como terroristas, dado que, por definição, um grupo terrorista promove violência por ideologia ou objetivo político ao contrário do tráfico, que busca o lucro.

“No Brasil, as organizações criminosas começaram a ocupar um espaço deixado pelo Estado, inclusive promovendo algumas atividades de Estado, então isso acaba dando algum combustível para aqueles que querem sustentar a classificação como terroristas”, afirma o advogado criminalista e professor de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP), Pierpaolo Bottini.

Para o jurista, contudo, é necessário muito cuidado em definir essa presença no território como uma atuação terrorista, dado o histórico de intervenções que se utilizam dessas razões pelo mundo.

“As pessoas precisam ter ciência de que classificar essas organizações como terroristas pode ter uma repercussão internacional indesejável. Para além dos efeitos nacionais, é muito importante verificar que, se for concebido por outras nações como organização terrorista, se abre espaço para intervenções que podem ameaçar a própria soberania nacional”, completa.

Segurança e inteligência

Especialistas alertam que rótulos políticos como “narcoterrorismo” desviam o foco daquilo que realmente importa: a capacidade do Estado de planejar, coordenar e agir com base em informação qualificada.

Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, relembra a apreensão de 117 fuzis com a prisão de Rony Lessa, onde não foi disparado um tiro sequer, para enfatizar a importância do investimento em inteligência e no combate aos líderes das facções.

Para Rafael Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é necessário criar uma política nacional de enfrentamento ao crime organizado, com a organização das policiais estaduais e a criação de uma autoridade nacional antimáfia, com um plano nacional de enfrentamento ao crime organizado.

“Se isso não acontecer, precisamos de políticos que falam a mesma língua. Não adianta cada um ficar falando na sua língua. Precisamos de políticos que falam a mesma língua para que a gente possa procurar uma política pública efetiva de enfrentamento ao crime organizado no Brasil”, afirma.

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